terça-feira, 5 de maio de 2015

Jonas 6 - A verdade

- Ana, apresento-te a minha mulher, Luisa! Diz o rapaz com ar ligeiramente comprometido, cara corada, enquanto puxava de uma cadeira para que a rapariga, sua colega, se sentasse no restaurante que tinham combinado encontrarem-se. Ana queria conhecer a mulher de João.
- Bom dia Luisa! O João não fala muito de si e não entendo a razão, é tão bonita! Diz a rapariga estendendo a mão e olhando com olhos fixo como um felino á beira de um ataque.
Luisa, mulher um pouco mais velha, de cara e corpo bonito, sorriso agradável e olhos emanando segurança apenas retorquiu.
- Porque ele é um tolo! E sempre me garantiu que a sua colega de trabalho era uma velha chata.
- Alto lá! Eu disse que ela parecia uma velha chata, pelo menos nos primeiros dias!
- E depois apaixonaste-te como de costume não foi? Retorquiu Luisa com voz gélida. E virando-se para Ana perguntou:
- Porque me quis conhecer? Sentiu-se enganada quando soube que esse mongo era casado? E quis conhecer a coitada?
- Não sejas assim Luisa, ela não tem culpa e ninguém te trata como coitada. Eu descaí-me e ela descobriu. Apenas quis pôr tudo em pratos limpos.
- Quando se faz merda aguenta-se com a pancada e não se arrasta ninguém. Descobriu, tinha duas soluções, continuava como estava e ia dando umas quecas até se fartar ou abandonava o barco, deixava-te e não incomodava ninguém. EU não tinha de saber, eu não precisava de saber. Percebeu menina? Agora vou escolher que estou com fome! E dizendo isso pegou no menu e começou a le-lo.
Ana corou intensamente com a tirada simples e directa de Luisa, não esperava aquela atitude, ela que sabia tudo e tudo sabia ficou sem palavras e começou a examinar a lista de vinhos.
- Eu cá vou pelo bife com ovo a cavalo e molho de cogumelos, estou cá com uma fome!
Se o olhar matasse João teria caído morto nesse momento com o olhar que as duas se lhe dirigiram.

Jonas sentia-se perdido naquele pântano de águas fétidas, caminhava enterrando as pernas até aos joelhos em lama mole que o sugava gulosamente para o seu interior. Jonas fugia daquela velha inimiga, aquela que o perseguia sempre, aquela que o levava para campos de loucura insana. A perseguição continuava, implacável, não havia lugar no universo para se esconder, ela encontrava-o sempre. Apanhava-o e mordiscava-o, dentadas pequenas de dor intolerável, sangue escorria fluido até se coagular fechando feridas frescas em velhas recordações. A sua inimiga aparecia sempre de surpresa, de sorriso nos lábios, beijava-o como se de uma amante se tratasse e magoava-o com as doces palavras sussurradas ao ouvido deixando Jonas desconcertado, impotente. Ela afastava-se então com uma gargalhada, riso cristalino capaz de derreter um bloco de gelo. Jonas tentava a todo o custo fugir. Escondia-se nas montanhas, enterrava-se no deserto, mergulhava nos oceanos e era sempre descoberto e era sempre torturado por aquela que ele, com o tempo começou a odiar, aquela que ele um dia amou perdidamente. Hoje perseguia-o implacavelmente e Jonas enterrava-se na lama peganhenta, pútrida que o começava a engolir.
Desesperado olhou para cima fixando os olhos daquela que ia causar a sua morte e gritou:
- Eu morro e tu vais atrás!
- Eu sei! Eu amo-te, eu sou a tua consciência! Gritou ela saltando por cima de Jonas levando-o para as profundezas daquele pântano podre.

- És um idiota! Grita Luisa fora de si olhando Ana tentando reanimar João que morria sufocado no chão rodeado dos restantes comensais que assistiam á cena com piadas idiotas.
- Comes que nem uma besta e depressa, depois é isto! Volta Luisa gritar.
- Está a voltar a si! Arqueja Ana exausta do esforço da reanimação.
- Esse idiota fez esta fita toda para termos pena dele e não o abandonarmos!
- Não seja assim! Ele quase morreu! Diz Ana tentando acalmar a mulher do seu amante.
- Se ele morresse eu ficaria com a pensão e você a chuchar no dedo, ele não morreu, você fica com ele e eu fico livre! Grita Luisa que abandona o restaurante a correr com um rio de lágrimas a escorrer olhos fora.

Jonas abriu os olhos e sorriu de alegria, tinha regressado a casa, o seu lar varrido por ventos ciclónicos que ele tinha aprendido a amar. Sentado no alpendre do seu casebre Jonas olhou o céu estrelado e viu que ela lá estava, a sua Vénus, sorridente, chamando-o. Tão inacessível, tão longe. A adaga fina da dor começou a trespassá-lo, as memórias a flutuarem á superfície, encravando o escoamento fluido das águas. Jonas lembrou-se então, estava perdido, tinha perdido, procurou desesperado. A sua ancora tinha desaparecido, aquele pequeno ponto de sujidade num tecto branco tinha desaparecido, aquele ponto em que ele se agarrava para se manter são tinha deixado de existir. No céu as nuvem encobriram a sua Vénus levando-a para longe, a solidão voltou a assolar Jonas, o manto escuro da solidão, o aperto no peito, a dificuldade em respirar, o ar a faltar, os sentidos a sumirem-se.

- Não me deixes Ana! Eu tentarei explicar-te! Suplica João desfalecendo novamente.


O aparelho de suporte de vida berrou violentamente acordando o pessoal técnico que acorreu prontamente.
O desgraçado no seu pequeno catre estrebuchava violentamente de olhos desorbitados e raiados de sangue.


3 de Maio de 2015

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Nobita escreveu: