terça-feira, 11 de outubro de 2016

Ouvindo música

Ouvindo musica, sonhando
Tento mas não consigo
Choro mas não tenho alivio
A merda invade o meu espirito
Cascatas de merda castanha
Fétida, mal cheirosa
Choro lagrimas de fel
Nem sei como consigo
Viver e não morrer
Dói
Pensar, sonhar
Lágrimas arrulhantes que teimam
Em cair
Olho a musica que se ouve ao longe
Sinto a solidão, o deserto
O meu espirito rola com as pedras
De um rio
Aguas barrentas numa corrida
Sem fim
Calhaus rolados, pelo tempo
Meu espirito soluça
Afogo-me
Morro
Hoje partiria sem saudade


10 de Outubro de 2016

Nota do autor: depois levantei-me com olhos húmido e fui jantar como se nada tratasse

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O buraco negro

Os dois encontravam-se deitados, arfando, suados, olhando o tecto, vendo o branco sujo do tecto onde se notavam os riscos de uma pintura recente e ás pressas.
- Que te aconteceu? Pareceu-me que de repente te apagaste, perdeste o interesse!
Ele voltou-se para ela, olhou-a nos olhos e beijou-a ternamente, ficando em cima dela. Continuou a beijá-la, devagar, beijos de carinho, de paixão, beijos de quem quer.
- Que te aconteceu! Insiste ela.
- Apenas a minha cabeça, apenas eu. Tenho sempre os meus fantasmas á minha espreita, emboscados. Atacam-me quando menos espero.
- Devem ser uns fantasmas muito importantes para te distraírem dessa maneira!
- Lembras-te daquela história do louco que conversava com um atrasado mental e descrevia-lhe as suas visões? Umas palermices sobre buracos negros?
- Sim, lembro-me dessas palermices e apenas fico ofendida, no mínimo fico ofendida por ter sido trocada por palermices de um louco!
- Não te troquei, apenas fui distraído! Diz sorrindo.
- E que estás agora a fazer em cima de mim além de me pesares? Essa barriga já pesa se não reparaste ainda!
- Estou apenas a querer demonstrar-te que além de ser uma besta também gosto de ti e que o facto de me ter distraído não significa que não te queira
- Vai pentear macacos! Diz ela levantando-se e dirigindo-se á casa de banho onde se trancou com um bater de porta demonstrativo da sua boa disposição. 

Luis ficou deitado olhando as pinceladas no tecto descobrindo um ponto negro naquela brancura, uma caca de mosca provavelmente. A sua mente voou novamente para a história do louco sobre os buracos negros, a sua descrição, a sua explicação. Luis não tinha estudos nem conhecimentos suficientes para teorizar sobre física e matemática, tinha apenas a sua imaginação, gostava de "ver" os fenómenos. E não gostava de lacunas. A grande lacuna da matéria super concentrada num ponto de massa infinita numa espiral sem fim. Não tinha lógica, se fosse assim bastaria um simples buraco negro para no fim absorver todo o universo e aí ficar confinado para toda a eternidade. A explicação da mudança de fase e reaparecimento noutro ponto do espaço tempo como novo universo era uma tentação filosófica, mas como? Luis pensava e já não tinha sentidos, todo o seu ser estava mergulhado na questão. Tinha duas hipóteses, uma deles muito coincidente com a filosofia judaico cristã outra mais realista.

A primeira hipótese era simples, um simples buraco negro absorvia todo o universo, concentrando-o num só ponto até o Verbo acontecer e faça-se luz acontecer e o universo renascer, criando-se em sete dias de espaço tempo relativista. 

A segunda hipótese era mais engraçada, baseava-se na assimetria, na pequena falha, na pequena imperfeição. Nem ia contra a filosofia religiosa pois perfeito só o Criador. A hipótese tinha sido "vista" num estalar dos dedos do empregado do bar que lhes tinha servido as bebidas antes de terem subido para o quarto onde se tinham amado. Ele tinha visto o movimento em câmara lenta, os dedos a pressionarem-se um contra o outro até que as tensões fizeram desencadear as assimetrias e os dedos escorregarem um pelo outro dando um estalo. Esse estalo era a mudança de fase do ar em volta vibrando, provocando o som. A matéria super condensada chegava um ponto em que a mais pequena assimetria a faria escorregar dando um estalo no tempo e aparecendo como um novo Big Bang nos confins do espaço-tempo começando um novo universo, uma nova vida.

Luis, entusiasmado com a sua nova descoberta salta todo nu e corre para a casa de banho onde ela acaba de sair do banho escorrendo água. A cabeça de Luís prega-lhe a partida do costume, com aquela visão acaba por tudo esquecer. Pega nela ao pela cintura, levanta-a e grita.
- Já sei, mas já me esqueci. Só sei que te quero! E sem cerimónia, surdo aos seus protestos leva-a para a cama e penetra-a como não fazia há muitos anos, ama-a loucamente arrancando-lhe um longo e electrizante orgasmo.

- Que te aconteceu? Tomaste viagra enquanto eu tomava banho?
- Yeap, tomei um viagra para o espírito!
- Lá vens tu com mais uma treta! Por que não tens juízo?
- Minha querida, se tivesse juízo já tinha morrido há muito tempo! Nunca estive tão vivo como agora. Descobri a origem do universo e fiz amor contigo! Que mais um desmiolado pode querer?
- Juízo não seria má ideia! Diz ela sorrindo e beijando-o enquanto ele arfa deitado de costas olhando para o tecto branco e a caca de mosca brilhando naquela brancura.
- Que pensará uma mosca quando está de cabeça para baixo a defecar? Pergunta Luís com ar de quem vai voar outra vez.
- És mesmo um camelo! Agora trocaste-me por uma mosca! Muito lisonjeiro da tua parte! Usas-me e deitas fora!
- Hã????
- És uma besta!!!! Grita ela.
- Sim! Sou uma besta! Diz Luís de olhos arregalados voando incessantemente, imaginando-se uma mosca a importunar tudo e todos, rindo-se como uma criança.

Apenas

Sentado, sonho, penso
Uma vida que discorre
Um sentimento que desponta
Sinto o amargo da existência 
Do nada
Olho e vejo
O vazio do ontem
A escuridão do amanhã 
Oiço música, oiço sentimentos 
Emoções de dor, de paixão 
Sentado soluço a vida
Que não tive
Que tive
Que terei
Espinhos cravados nos pés
Calcorreio caminhos
Meus destinos
Corro
Criança 
Estou sentado e choro
O nada, a escuridão 
Sinto-me a morrer, lentamente
Um sorriso que desmaia
Branco, lívido 
Dentes arreganhados num sorriso
Ela que me chama
Sentado olho, vejo, escuto
O som de um coração que bate
O meu
Morto para a vida
Vivo para a morte
Grita a plenos pulmões 
Sentado choro
A solidão, a dor
De estar
De apenas estar, aqui
Só 
Sentado olho e vejo
O nada
Levanto-me e caminho
Dou o passo e lanço-me
No vazio
Onde finalmente me vejo
Só 


10/10/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O cão



Acordei
Sonos, sonhos revoltos
Distantes, escuros, sem sentido
Acordei, sem ver
Instinto, o calor procuro
A fome, a teta procuro
Empurram-me, gano mansamente
Língua quente, molhada me enrola
Chupo, sugo, mordo
A fome, insaciável corrói 

O fundo do buraco, negro
A luz que entra fugaz
O mundo se revela
A morte se revela
Gritos, guinchos, sangue
Irmãos que desaparecem
Num terror em forma de focinho

Sobrevivo, órfão de irmãos 
Órfão de mãe que uma besta levou
Um guincho, um grito, um embate
E a morte chegou
Deixando-me só 
Filho de pai incógnito
Filho da matilha
Que se dispersou sem nobreza
No dia em que o cheiro morreu
Para eu nascer

A fome visitou-me
A fome deu-me coragem
Saí para o mundo
Enfrentei a luz, corri, patas pequenas
Ser mal feito, desengonçado
Filho do acaso, de pais do acaso
Corri
A fome sempre presente
Cheiros, aromas e perfumes
Desconhecidos, atraentes
Corri, pequeno e assustado
Desesperado

Comida, o cheiro de algo
Instinto me chama, comida
Sacio-me de sabores estranhos
Primeira lição de uma vida
Nunca deixar de olhar
Atacam-me aos gritos
Navalhas cortam-me o corpo
Gritos ensurdecem-me, atordoam-me
Corro, fujo, pânico, terror
Ser estranho me ataca, miando

A vida continua, numa guerra
Surda e mortal
Cheio de cicatrizes cresço
Roubando comida
Ao gato das redondezas roubo
A minha sobrevivência 

Com o tempo a minha área cresce
Diferentes pontos de comida
Diferentes cheiros, ruídos e sons
Aquele gravado que me faz correr
Em pânico
Numa saudade imensa
Aquela língua quente e reconfortante
Não me sai da memória 
Desapareceu com esse som

Mais solto, mais atrevido
Percorro as ruas, marcando
Sem pudor
Todos os cheiros que me desafiam
Não resisto
Marco o mundo
Marco o universo
Até o gato me respeita agora
Cresci

A fome que não desaparece
O frio que aperta
A chuva que me encharca a alma
No meu pequeno buraco
Meu berço
Tirito de frio

Dias cinzentos cobrem o universo
Dias de inverno tolda-me o espírito 
Tenho fome
Estou sempre com fome
Lambo as minhas patas
Distraindo-me com o meu sabor
Adormeço cansado, sonhando
Dias idos, a felicidade ida
Teta cheia de leite, carinhosa
Calor e carinho
Sonho ganindo mansamente

O tempo passou, os anos passaram
A marcação do universo despertou
A ira, a raiva, a inveja
De outros
Párias como eu, donos do mundo
Poderosos no mundo, em matilha
Perseguiram-me, atacaram-me
Fui sobrevivendo
A fome atacou-me de novo, sempre
A morte do meu amigo, o felino
Sempre mal disposto mas tolerante
A sua morte no meio da matilha
Inglória 
Deixou de encher o prato
Pedaço de carne e pelo ensanguentado
No chão exposto
Ratos e formigas em festim
Chorei a sua partida
Lambi-o tentando reviver
Desesperadamente
Aqueles olhos, aquele miado
Em vão
A vida era morte outra vez

O dia raiava, o sol brilhava
Algo no ar era diferente
O cheiro
A loucura que entorpece
Meu corpo estava estranho
A minha mente não me obedecia
Aquele estranho odor em tudo penetrava
A fome esquecida
O medo esquecido
Corri
Procurei desesperadamente
E vi-a
Era ela, ser pulguento
Ar miserável que corria
Perseguida pela matilha
Correndo e espalhando o aroma
Que a enchia de beleza
Era ela, o meu destino
O instinto foi mais forte
Corri e atirei-me que nem um louco
Cheirei-a e a felicidade entranhou-se
A alegria, a loucura era tal
Que meus quadris se moviam
Numa dança louca, erótica
Eu queria-a
Era minha
Montei-a
E fui violentamente atacado
O chefe da matilha
Dono de tudo
Besta enorme filou o meu quadril
Dei luta
Não tinha medo
A paixão tudo dominava
Lutei contra a besta
Lutei contra a matilha
Exangue, no chão, vi

Um miserável ser penetrando
A paixão que era minha
A besta, a matilha, eu
Distraídos na refrega
Numa luta inglória, sem fim
Fomos ultrapassados
Pelo inútil que ninguém deu crédito

O cheiro desapareceu no ar
Trancado pela penetração do inútil
Agora agarrado pelo destino da erecção
Que o aprisionou ao destino
Morto pelos seus
Numa vingança impiedosa
Seu sémen sobrevivendo
No útero de uma sem destino
Parindo um dia numa cova escura

Afastei-me sangrando
A refrega tinha deixado as suas marcas
O sangue pingava
Coxeava
A dor penetrava no cérebro
Acutilante

Cambaleando entrei
Um buraco escuro
Fresco
Enrolando-me confortei-me
Lambi as minhas feridas
Recordando alegrias há muito idas
Aquela língua quente e carinhosa

Um som diferente
Um ser diferente
O terror a avançar, mostrei os dentes
A voz acalmou-me
Deu-me um pedaço de comida
Gani
Deixei-me ir.

A escuridão aumentou
Lentamente
O frio invadiu o universo
A vida transformou-se numa toca
Um buraco que se estreitava
Até o negro tudo invadir
Gani pela última vez
Um último adeus
A uma vida de cão.



Jimmy, 04 de Setembro de 2016
A navegar

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diálogo

Os dois encontravam-se naquela esplanada junto ao passeio pedonal que serpenteava ao longo da orla marítima. Sentados nas suas cadeiras, virados para o mar iam bebendo as suas imperiais, seis copos jaziam vazios espalhados pela pequena mesa que os servia. Iam beberricando pois aquela sede avassaladora há muito que se tinha afogado naquela enxurrada de cerveja libertando aos poucos as suas memórias.
- Então o gajo lá bateu as botas?
- Sim! Responde tristemente Jonas, não o tinha conhecido intimamente mas do que conheceu deu-lhe a ideia de ser um gajo porreiro. Assim de um momento para o outro!
- Para ele os problemas acabaram! Morrer é uma chatice mas o que tem de bom é que os problemas ficam cá todos!
- Será? Ninguém voltou para contar!
- Se deixaram de ter problemas porque haveriam de voltar?
- Para os resolver...
- Não sejas tosco! Achas que alguém no seu perfeito estado mental voltaria a esta terra para resolver os problemas que tinha deixado? Morreu, prescreveu! São como as dívidas!
- Não sei! Isso vai depender de muita coisa! Existe o outro lado ou não? Tu próprio admites que existe ao dizer que do outro lado os problemas prescreveram, atenta bem ao que disseste, prescreveram e não desapareceram.
- Claro que existe o outro lado, eu acredito no céu e no inferno, pelo menos alguma coisa parecida. Andarmos aqui e desaparecer tudo? Custa-me a crer.
- Custa-te a crer não, queres crer, tens fé, agarras-te a isso por causa do terror da morte, terror do desconhecido.
- E tu? Não me venhas dizer que não tens medo!
- Medo? Já tive! Agora temo mais a passagem, a dor, a angústia da morte. Sabes, quando estamos perto o corpo reage, o sacana do instinto de sobrevivência a tomar as rédeas. Depois chega a uma certa altura que aceitas. Passei uma vez por isso. A angústia terrível do vou morrer, aceitar a situação, a calma que nos invade, pelo menos a mim invadiu-me, e a vontade de dormir e ... deixar-me ir!
- Tretas! Estás aqui e não foste! Reagiste, tiveste tanto medo como os outros.
- Já não tinha medo, estava mais chateado, ia-me embora sem fechar as contas, sem me despedir. O resto já não me interessava.
- E porque não morreste?
- Porque percebi que se me virasse para o lado e dormisse um bocadinho acordaria nos braços de alguma maluca, lá no paraíso dos marujos, resolvi não dormir, manter-me desperto.
- E...?
- Deu-me tempo para resolver uma questão. A burrada que tinha feito na auto-medicação e numa sugestão feita por um gajo que assistia a tudo com os olhos arregalados de terror. O gajo iria ter uma data de chatices se eu morresse, as papeladas que teria de preencher. E, na boa verdade, ninguém gosta de ver um gajo morrer e estar impotente sem saber o que fazer.
- Mas salvou-te? Como?
- Perguntou-me se eu não estaria desidratado! Eu pensava que era ataque de coração por isso tinha tomado dois Capoten, tudo á bruta, mas era desidratação extrema. Tomei uns líquidos para repor sais e açúcar, o nível dos electrólitos e melhorei logo. Fiquei só com o problema da sobre-dosagem de Capoten mas para isso fiquei acordado até a tensão arterial ficar em níveis seguros.
- Quanto tinhas?
- Chegou aos 40/20! Disse Jonas sorrindo.
- Bolas! Disse o amigo olhando para uma miúda que passava em passo de corrida fazendo o seu jogging matinal. Figura bonita de pernas morenas e musculosas, um calção curto de desporto com cavas bem levantadas e uma camisa de lycra bem justinha deixando antever um peito de tamanho razoável esmagado por um soutien de desporto.
- Sim, bolas! Se não páras de te babar quem desidrata és tu e nem essas cervejas te chegam.
- Não me venhas dizer que não olhas para as miúdas, agora és santo, salvaste-te da morte e converteste-te!
- Não sou santo, sou discreto. Ela já tinha passado e agora está a fazer o percurso inverso. E da primeira vez até sorriu do meu olhar babado, agora ignorou-me para eu não correr atrás dela.

Continuaram a beber mais umas imperiais, mandaram vir uns croquetes para lastrar o estômago e terem oportunidade de ter a jovem empregada ao lado deles e tentarem fazer umas graçolas com ela mas depressa perceberam, pelos olhares furibundos, que ela devia ter uma relação com o dono que estava atrás do balcão. 

- O gajo era bom tipo! Fiquei chateado e faz-me lembrar, que como todos, para lá caminho!
Não é o morrer que me chateia! É a perda total! A perda de uma vida!
- Não entendo!
- Vê a coisa do seguinte modo. A alma existe, vamos supor que sim, a consciência existe, temos a certeza. Tu tens consciência de ti mesmo, a consciência é o que nos dá a individualidade, o que nos faz rir, chorar, amar etc. Só que a consciência é um produto da função cerebral, assim como o sub-consciente e o inconsciente. Memórias e capacidade de processamento que o nosso cérebro tem além de um sistema operativo espetacular pois actualiza-se, aprende. Hoje já se fazem programas que aprendem e melhora o seu funcionamento com a aprendizagem. O teu cérebro é um computador biológico incrível que guarda muitas memórias e outras são guardadas como sub-rotinas que trabalham ao nível do processador, essas tens pouco ou nenhum controle, um exemplo são os traumas, pequenas rotinas que são despoletadas segundo determinados estímulos.
- E qual a relação que a consciência tem com a alma. Essa também é uma coisa que se fala mas ninguém tem provas, ninguém viu embora haja uns intrujas que falam da aura como se fosse a manifestação da alma.
- Sabes. Eu tento ver as coisas de uma forma racional evitando os dogmas e a fé. Tenho uma coisa que acredito mas para acreditar tenho de ver, e ver pode ser concepcionar. Se uma coisa é conceptível de um modo lógico pode ser que seja possível. 
- Viste a alma? Viste a aura? Agora deste em intruja? Não me gozes. Ou acreditas e tens uma religião que te suporta ou então és mais um intruja.
- Sabes! Quando era jovem e caçava, um dia abati um bicho apenas porque estava em cima de uma árvore, era grande e peludo, não servia para nada. Selvagem como era disparei e o desgraçado caiu a meus pés e eu assisti á sua morte. Um ser vivo, pelo brilhante no estertor da morte e eu vi a morte a apossar-se daquele corpo, o pelo perdeu o brilho, deixou de ser um ser vivo para ser uma carcaça que nem as pulgas queriam, abandonavam aquele corpo como ratos abandonam um navio a afundar-se. Naquele momento eu vi, eu vi a vida a ir-se embora, algo abandonou aquele desgraçado.
- Agora que falas disso estás-me a fazer lembrar o funeral do meu irmão. Olhava para ele naquele caixão de madeira, reconhecia-lhe as feições mas não era ele, parecia um boneco, era estranho, ele não estava ali. Disse o amigo com um soluço a embargar-lhe a voz e tentando esconder as lágrimas que tinham teimado em saltar, disfarçou dando um grande gole na sua imperial quase esvaziando o copo.
- É isso mesmo. É essa a diferença, a vida sumiu, foi-se. A vida pode ser a alma. E aí as coisas até batem mais ou menos com as crenças. O meu problema é a consciência. Se a vida ou alma abandona o corpo e não leva a consciência com ela então para que serve viver? Ser bom, ser mau, ser santo, ser putanheiro, é tudo a mesma coisa. No fim morre-se, a consciência apaga-se, a vida que levámos apaga-se e vai tudo para o mesmo caldeirão. Não tem lógica.
- Querias ir para o céu não era? E encontrares aquela miúda a correr para ti... ahahah! Gozou o amigo.
- A chatice é que não consigo "ver" a passagem da consciência do estado vivo para o estado morto. O seja, a consciência acompanhar a tal alma ou aura.
- Isso é um bocado torcido, se a consciência passa para o estado morto então terias os fantasmas. Estou-te a imaginar tu, em forma de fantasma, a espreitar todas as garinas a tomar banho, a vestirem-se! Ahahahah! Aposto que pensaste nisso seu depravado!
- Engano teu! Se a minha consciência passasse para o outro lado ficaria privada de sentidos por isso não conseguiria nem espreitar o meu gato a mijar!
- Não me tinha lembrado disso! Porra que andas muito doido com essas ideias, andas a ver tudo, não largas a presa! E se fosse mais uma imperial?
- Hummmm! Tá calor e eu estou com sede e apetece-me ver os olhos furibundos da empregada outra vez! Dá-me gozo vê-las todas eriçadas de fúria. Uma beleza da natureza, uma mulher enfurecida por causa das graçolas de um gajo! E Jonas dizendo isso chamou a empregada com o seu maior sorriso. Um sorriso já meio tolo de tanta imperial.
A rapariga aproximou-se, cara fechada e pergunta o que desejam.
- O que desejo nunca se realizará por isso contento-me com mais um par de imperiais!
- Um par de estalos leva você se não se portar bem! Exclama furiosa a rapariga.
Jonas pôs a sua cara séria, coloquial e responde com voz calma.
- Menina! Aprenda a aceitar uma brincadeira. A minha afirmação foi uma constatação á sua beleza, não um convite nem proposta desonesta. Um piropo, uma brincadeira apenas. Se cair em saco roto nada se perde nada se ganha.
- Não tenho paciência para idiotas com uns copos a mais!
- Então não trabalhe num local que vende bebidas alcóolicas pois o risco de aturar idiotas maiores do que eu é muito grande. Faça um sorriso e, se calhar, se me apaixonar pelo seu sorriso compro-lhe o stock de cerveja só para o ver outra vez. No fim do dia estarei com uma ressaca e você feliz porque vendeu bastante. O que custa um sorriso simpático? Nada. A única coisa que aconselho é que escolha o alvo do seu sorriso. Dois tolos como nós somos sempre inofensivos, outros não serão. Essa será a sua escolha. Agora traga lá as bejecas e eu juro que não farei mais brincadeiras, respeitarei a sua reserva. Mas tenho pena, você é bonita e já reparei que quando sorri você é a constelação mais bonita deste universo. Dizendo isto, Jonas voltou-se para o seu amigo e perguntou.
- Estava a falar de quê? Realmente já estou a ficar tolo. A garina até pode ter razão em me ter dado na cabeça!
- Estou espantado! A tua lábia para com a rapariga! Deixaste-a confusa! E meio corada!
- Ah!!! A famosa consciência! Imagina a alma/vida como energia que já vimos se solta quando morremos. Agora, ás vezes sou mesmo um idiota, imagina a consciência como uma base dados da vida mais uma coisa equivalente a um programa auto-executável. Em suma, linhas de programa que podem ser codificadas em binário ou níveis de energia. Imagina essa vida/alma ser uma forma de energia, codificada com o binário da consciência? Diz lá se não é linda esta visão?
- Tenho de concordar que quando estás com os copos tens umas visões interessante, e por incrível que pareça, até têm lógica. Mas diz-me, como se aguenta isso tudo? A energia a pulsar numa frequência que é a consciência vai acabar por se dissipar, vai acabar por desaparecer. Uns segundos e puffff, desaparece no nada!
- A não ser que nesses segundos que tu te referes o tempo não exista ou esteja congelado. Se o tempo deixar de existir nessa fracção de energia pulsante ela ficará assim eternamente.
- E acreditas nisso? Estás-me a convencer que a eternidade existe? Só falta dizeres que o inferno ou céu existem.
- Nessa forma porque não? Se o auto-executavel ao arrancar te disser que foste uma besta vais ser uma besta eternamente, um bocado infernal não é?
- A cerveja pode tirar-te o juízo mas não te tira a lógica!
A empregada aproximou-se da mesa e olhando desafiadoramente para Jonas pôs dois pratos na mesa, um com a conta e outro com uns amendoins salgados e com um sorriso felino disse?
- Por conta da casa!
- Eu adoro ter razão! Exclama Jonas com o seu sorriso mais maroto e puxa da carteira para pagar quando ouve o seu amigo a dizer com voz aflita.
- Parece que o teu inferno está a chegar! Vem aí a tua mulher e está com cara de poucos amigos!!!! Diz o amigo a empalidecer.
- Ehhhhhh pá!!!! Esqueci-me de a ir buscar! Deve estar uma fera!
- E eu vou-lhe contar que além dessa enxurrada de cerveja meteu-se com todas as mulheres que por aqui passaram e ainda mais grave, vou aconselha-la a levá-lo ao psiquiatra, está aqui há uma hora a falar da alma, da morte. Até me arrepia! Exclama a rapariga com ar aliviado com a aproximação da companheira de Jonas.
- Adeus vida! Choraminga Jonas. Adeus bela constelação que vais assistir a esta minúscula estrela ser engolida pelo buraco negro que aí se aproxima, inexorável. Um fim tão trágico para uma estrela emergente tão brilhante....
- JONAS! ESTIVE HORAS Á TUA ESPERA! E ESTÁS BÊBADO!!!
- Desculpa-me querida! Estive a olhar para uma constelação e apenas morri. Estive esta eternidade toda num loop auto-executavel sem ter noção como o tempo lá fora corria a sua vida normal. Só tu minha querida para me fazeres ressuscitar....
- É preciso ter muita lata! Exclama a empregada entre o chocada e o divertida.

sábado, 20 de agosto de 2016

O abraço

Jonas sentado num banco de pedra olhava o oceano que se espraiava á sua frente. A temperatura do dia estava amena, a cerveja na sua mão estava com a frescura que ele gostava, leve e saborosa.
Olhando o mar ia-se recordando comprazer todos os prazeres que ele já lhe tinha proporcionado, toda a beleza que tinha visto. Lembrava-se especialmente daquele prazer de imerso voava sobre rochedos e escarpas sentido a liberdade da aves que voavam por simples prazer, lembrava-se divertido desse dia que gozando a beleza do voo se lembrou que não era gaivota nem peixe e que seria saudável voltar á superfície para poder respirar. A memória dessa tarde trazia-lhe um prazer a que ele se agarrava gulosamente.
Olhando para o ar via as gaivotas, suas velhas companheiras de vidas e viagens. Gostava daqueles bichos que conseguiam concentrar em si uma data de defeitos mas que depois olhavam para nós com ar zangado de pessoa muito importante. Vê-las a voar a a bulharem constantemente umas com as outras divertia Jonas.
A aragem trazia-lhe aquele cheiro a mar por quem ele se tinha apaixonado, com quem ele tinha vivido a maior parte da sua vida.
Jonas estava feliz, a sua vida parecia completa quando ela apareceu.
Uma menina olhava para Jonas com um ar inquisidor, com um ar terno surpreendendo-o totalmente quando de repente ela caminhou na sua direcção e sem uma palavra o abraçou encostando com ternura o seu peito de encontro ao de Jonas.
Ficou perdido, sentiu-se uma criança a ser acarinhada, sentiu-se um ser indefeso e era aquela criança que, com aquele abraço, o protegia.

Ela afastou-se, o abraço tinha chegado ao fim, Jonas fez uma festa na cabeça da menina que voltou aos seus afazeres de criança e Jonas quedou-se naquele banco olhando o mar com o coração cheio de um sentimento que há muito não sentia, a pureza de um amor muito grande. Uma criança tinha cuidado dele.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O chefe

Jonas tinha-se evaporado, tinha explodido num turbilhão de emoções, tinha-se transformado. Era agora um animal errante, percorrendo a savana, longe do bando, longe de tudo. Ferido na alma, esfomeado de emoções gargalhava.
Corria ouvindo o som do vento cantar-lhe canções cheias de dor fazendo crescer o monstro que o dominava, o monstro adormecido nas cavernas, acorrentado, sobrevivendo á míngua. O monstro crescia dentro dele, sobrepunha-se ao seu ser. Gritava lágrimas de dor, cuspia veneno que salpicando ao vento lhe enchia os olhos de lágrimas. Chorava uma vida que ainda não tinha vivido, uma vida que viveu, a vida que vivia, percorrendo a savana deserta, cor de terra queimada pejada de carcaças de outros que antes se tinham aventurado por estas terras. Corria selvagem, baba a escorrer, a fome a queimar-lhe as entranhas, corpos putrefacto cobertos de moscas que fugiam á sua passagem, a loucura a aumentar, a dor que deixou de o ser, apenas uma explosão de luz no seu cérebro que apenas continuava desperto por uma questão de teimosia, tudo tinha caído, a morte era inevitável, sempre inevitável. A morte no topo de um galho seco de uma árvore morta projectando uma magra sombra na savana, a morte ria-se, a morte suspirava, uma alma que passava.
Jonas acordou do seu sonho olhando em redor, reconhecendo a escuridão que o protegia, que o acolhia no seu seio, frio e inerte. Jonas suspirou e lembrou-se da fome, do ardor das entranhas que se alimentavam de si mesmo caminhando para uma autodestruição anunciada. Sorriu, um sorriso, um esgar de vida e levantou-se, dorido, músculo desfeitos, esforços imensos de uma noite a correr, tentando sobreviver.
Ligou a televisão e foi saudado por um ecrã negro, ligou o filme e as imagens começaram a cair numa cascata de emoções, o som ecoava na sua cela, um lamento longo cheio de significado, uma dor lenta, persistente alguém que sofria horrores, torturas indescritíveis, o sangue espirrava ensopando a madeira antiga deixando-a com matizes de vermelhos e castanho. Onde o sangue se acumulava mais reinava o negro.
O som do chicote era esperado, logo seguido de uma farpa aguda que lhe lancetava parte da pele, cortando-a, marcando cada látego um pecado. O pecado da existência, o pecado do livre arbítrio. Jonas sorria, cada chicotada uma vitória, uma dor, um passo mais para a sua campa.
Jonas tinha sono, queria dormir, o último sono, estava cansado e só pensava na loucura que era, a sua vida, o que tinha sido, as suas imensas vidas. O cansaço invadia o seu espírito como uma maré de equinócio, lenta mas imensa, de uma praia vazia a um mar alteroso que tudo cobria. Águas negras, moles, escondendo monstros que se faziam sentir, ondas de pressão , ondas de terror que lhe enchia o espírito levando o seu coração a bater, ao som da música que ouvia, ecoava, na sua cela.
Jonas sentou-se, lágrimas nos olhos e sentia-se aquela besta a correr, sem destino, naquele deserto que era o seu sonho. Lágrimas correram, Jonas chorava, já sem razão, chorava o vazio de uma existência que o fazia correr.
A realidade, a dureza da realidade, o dever, esse maldito que move mundos, que move o mundo de Jonas apareceu, mostrou-se, fez valer a sua força escravizando o livre arbítrio de Jonas, fazendo-o levantar-se, secar os olhos, abrir a porta e enfrentar a sua equipe.
- Que temos hoje? As avarias continuam não é? Vamos aguentar, é para isso que aqui estamos!!
Com ar decidido pôs-se á frente da situação enfrentando o desconhecido.