sexta-feira, 1 de maio de 2015

Jonas 5 - A paixão

Deitado no seu pequeno catre sonhava, de olhos fixos no tecto branco. Sonhava com o som da música que fluía lá ao longe, um lamento longo e belo de alguém, possuído por tamanha paixão a cantava assim. As notas vogavam no ar arrancando anéis de poeira no espirito carcomido de Jonas. As lágrimas corriam livres acompanhando os acordes de tal melodia, serpenteava, encaracolava como só uma mulher apaixonada é capaz, o som vibrante saía claro e cristalino, bafo quente de paixão que aquecendo a alma causa-lhe tremuras de ansiedade, o não conseguir alcançar aquelas notas fazia-o enlouquecer.  
Tremia, a ansiedade a tomar conta dele, a música a ressoar baixinho no seu espírito. O peito apertado num torno invisível que lhe tolhia a respiração, acelerando o coração, as batidas casa vez mais rápidas, a boca aberta ávida de ar, a dor no peito, a morte a avançar lenta mas inexorável. A noite começou a cair,na escuridão a avançar.

Podes para com essa música um bocado? Pede a rapariga com ar cansado de uma noite de trabalho, olhos encovados e cabelos despenteados. Ela canta bem mas é um bicado deprimente. Preciso de uma coisa mais alegre!
- Se quiseres ponho a Julieta, tenho aqui um álbum da Julieta! Pergunta o rapaz com ar de gozo.
- Julieta? Ouves isso? Ou estás a pensar em caçar pitinhas pequenas?
- Náaaaa! A minha sobrinha carrega o player com estas músicas quando me apanha distraído. Quando vai lá a casa visitar-nos o mp3 player é dela! Diz o rapaz com ar embevecido.
- Um momento! Exclama a rapariga com um tom de voz gelado. Visitar-nos? Nos? Quem é nós? Não vives sozinho?

E o silêncio estabeleceu-se entre aquelas duas almas, os dois olhando um para o outro, olhares diferentes mas ambos implorantes. Que seja mentira, vou perde-la..

- Eu vivo com a minha mulher! Ainda não tive coragem de te contar. As coisas aconteceram muito de pressa...
- Granda cabrãooooo!.... ÉS CASADO!!!! Porco! E escondias-me isso! 
- Apenas tive medo que te perdesse. O que aconteceu não estava á espera, não foi planeado. Aconteceu....
- Mais uma parva no rol é o que é...
- ... E desenrolou-se de tal maneira que perdi o controle. Da situação e de mim. Fiquei com medo de te perder.
- Pois perdeste mesmo! Desaparece da minha vida! Grita a rapariga com os olhos cheios de amargas lágrimas e correndo para fora da sala refugiando-se na casa de banho. Um uivo longo e sumido saiu trazendo toda a dor de uma alma abandonada, perdida, naufragada.

O rapaz, de olhar esgazeado, brincando com o mp3 ligou nova música aumentando a dor que se escoava pelas salas, inundando tudo com as suas águas negras. A negação mais uma vez a fazer a sua visita, a negação da vida, as sombras que tudo cobrem, a solidão extrema, a tristeza, tão cinzento, tão negro que as lágrimas começaram a correr. A morte seria libertadora mas ela tardava, ela tardava sempre deixando para trás um ser miserável. Ouvindo aquela diva que cantava aos deuses, aquela diva que tinha tocados os deuses e sido recompensada com o dom de uma voz mágica, que enfeitiçava, prendia, submetia qualquer mortal. O rapaz soluçava lágrimas de dor quando o besouro tocou.
O treino agiu imediatamente e correu para os monitores.

Jonas morria placidamente ao som da sua querida, ele estava apaixonado e ela matava-o com a sua beleza. Jonas abandonou-se naquela corrente que o levava para o paraíso da beleza.

- O que aconteceu? Perguntou a rapariga.
- Está-se a deixar. Está a morrer!
- Faz qualquer coisa... Vou buscar a injecção! 
E os dois mais uma vez, como uma equipa, entraram em accão aguentado os sinais vitais até estabilizarem aquele ser deitado na pequena cama.



Uma faca espetou-se no coração de Jonas levando-o num turbilhão de dor e confusão, o ar a entrar fresco nos seus pulmões, abriu os olhos. Um olhar esgazeado, confuso, louco e viu. A pequena mancha negra no tecto impecavelmente branco do seu quarto, sorriu, feliz e adormeceu assumindo uma posição fetal.

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Nobita escreveu: