sexta-feira, 24 de abril de 2015

Jonas 3 - O pesadelo

- Não estarás a exagerar na dose? Pergunta a rapariga com um tom de voz preocupado. Ele assim arrisca-se a não acordar ou ficar com alguma lesão!
- Já reparaste na fita que este gajo faz sempre que acorda? Impossível tratar dele, sempre aos gritos, parece que o estão a matar! Exclama o enfermeiro com ar enfadado. Além disso não nos pagam para tratar de malucos mas sim de os manter calmos. Este a dormir não chateia ninguém!
- Achas que ele dorme? Olha para o movimento dos olhos! Olhas as tremuras. Se ele morre juro que te denuncio, não quero merdas a pesar-me na consciência!
- Também me saíste uma boa caguinchas! Vou cortar-lhe o soro, leva o resto amanhã quando cá não estiveres. Chata do caraças! Este merdas só me dá chatices!

Jonas flutuava num limbo, mansamente flutuava ao sabor das nuvens que o arrastavam numa brisa fresca. Jonas estava feliz, estava com a sua amada, queria-a muito. Olhou para o seu rosto bonito, pálido e beijou-lhe mansamente os lábios frios. Um ligeiro aroma adocicado emanava dos cabelos que estranhamente estavam a perder o brilho de seda, os cabelos estavam a ficar ásperos, mortiços. Jonas olhou para o corpo da sua amada e chorou longamente, sentia uma saudade avassaladora dos seus beijos, do seu hálito quente e ao mesmo tempo fresco com sabor a morangos, do calor do seu colo, do seu sussurrar ao seu ouvido, contando-lhe o seu amor, a sua paixão. As lágrimas de desespero corriam, torcia as mãos, uma dor pungente apertava-lhe o peito. Queria gritar e não conseguia articular um único som. Ele queria-a, necessitava dela, e ela ali perto e ao mesmo tempo tão longe.
O grito começou a nascer do fundo da sua alma, mansinho, aumentando de intensidade até se transformar num uivo de lobo acossado pelo medo da solidão, pelo terror da saudade, um grito que ressoava no seu cérebro, as veias dilatadas de esforço, o coração a saltar até que algo cedeu.
Inicialmente foi apenas uma tontura que depressa desapareceu, lentamente um mal estar geral invadiu Jonas, uma agonia, uma dor, uma pressão. Depressa percebeu que perdia rapidamente capacidades e sentidos, a luz turvava-se, os sons agravavam-se, o universo morria á sua volta, devagar. Jonas olhou para o rosto da sua amada, pálido com um tom doentio, sorriu-lhe e beijou desajeitadamente os seus lábios ressequidos e frios com um sabor a morte, Jonas soluçou, Jonas chorou e finalmente quebrou caindo desarticuladamente no chão como um boneco de trapos.

A máquina apitava estridentemente ressoando pelos corredores vazios. A rapariga de cabelos desalinhado por estar a dormitar na sala de descanso corria desajeitadamente até alcançar o botão que desligava o alarme correndo em seguida para acudir o doente.
- Calma! Gritava ela. Calma, que já passa! E começou a injectar um calmante no soro.
Jonas contorcia-se na cama alagado em suor, de olhos escancarados e quase desorbitados gritava num silêncio pungente, o grito não saía. Á medida que a droga começava a fazer efeito os movimentos acalmavam-se até pararem, Jonas dormia um sono sintético, uma negrura sem fim  sem consciência, o nada.
- Eu disse-te que devíamos ter dado a droga mais cedo! Exclama o homem da ombreira da porta olhando divertido para a rapariga que ainda arquejava com o esforço despendido.
Olhava para ela começando a notar com uma certa surpresa algo que não tinha visto antes. Uma aura de beleza que a envolvia, um aroma quente de mulher, u m olhar de quem necessita de um ombro. Ela era bonita, com aquela beleza discreta mas que encanta. O homem sentiu-se perdido, afogou-se no encanto e desistiu de lutar.
- Anda, eu ajudo-te com ele! Está todo molhado, vamos lava-lo e mudar-lhe a cama!
- Que te deu agora para estares tão prestável?
- Nada mas este merdoso acabou de me fazer ver umas certas coisa que me estavam a passar ao largo. Eu pura e simplesmente não as via. Este merdoso com os seus ataque fez-me ver!
- Não estou a entender nada dessa conversa! Exclama a rapariga olhando para ele com ar desconfiado. Isso cheira-me a esturro.
- Não ligues e vamos acabar a muda e depois pago-te um café.

Tomavam o café juntos na cafeteria,num café de saco já um bocado requeimado quando ela pergunta de chofre.
- Que raio ele te fez ver? 
- Tu!
- Ãhh?
- Sim tu! Se não fosse este alarme eu não te veria como te vi e nunca me teria apaixonado. Fiquei perdido.
- Tás a brincar comigo, só pode! Exclama a rapariga com total surpresa no tom de voz.
- Antes estivesse. Nunca me deu isto mas... Deixa andar! Amanhã ou logo veremos o que se passa ou se já passou! Exclama o homem enterrando o nariz no interior da chávena.
Ela ficou a olhar para ele, inicialmente com desconfiança mas á medida que o tempo passava a sua postura começou a amenizar. O gajo era parvo mas parecia que a parvoíce estava a desaparecer, até se mostrava simpático.
Os dias passavam e aqueles dois começaram a trabalhar juntos, a conversar mais, a trocar ideias, a aproximarem-se.


23 de Abril de 2015

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Nobita escreveu: