terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A viagem


Hoje saio para o mar, á noite
Saio só, chorando a saudade
Olhando a noite escura
Esperando
Ver a estrela que lá brilha
Com o seu sorriso
Chamando-me
Sigo a minha viagem na escuridão
Olhos toldados do salgado mar
Lágrimas de dor
A estrela que lá em cima brilha 
Sorri pedindo colo
E eu choro de impotência
Estendo os braços e abraço o vazio
A noite estende-se
A viagem chegará ao fim
Um dia

Jimmy, 13 de Janeiro de 2016

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Extracto de Crónicas... 2


Realmente a morte tem rondado o meu clã o que me faz pensar que mais tarde ou mais cedo será a minha vez. Como dizia o outro, é a única certeza que temos nesta vida. Mas gostamos de pensar que não, só acontece aos outros. Vai chegar e quando for o dia só espero estar preparado. Mas como ía dizendo a morte ao rondar as minhas redondezas faz-me pensar nela e o que eu gostaria que acontecesse ao meu corpo. Pessoas dizem que querem ser cremadas, sou totalmente contra, outras doam o corpo. Outras vão para o jazigo de família, se calhar á espera de jogarem á sueca com os outros que já lá estão. Eu digo, por piada, que gostaria que o meu corpo fosse triturado e fosse transformado em ração de gato para ser distribuído pelos gatos da rua, pelos gatos necessitados e sem abrigo.
Claro que esta ideia desenvolveu logo uma cena dos próximos capítulos em que, numa noite de lua cheia, os gatos que se tivessem alimentado da ração felino-jimóide se reuniriam á volta da minha casa miando longamente um chamamento á minha chorosa viúva. Um bocado cena de filme de terror estilo Hollywood mas fez-me rir só de imaginar a minha cara-metade na varanda ao luar a ver a minha focinheira nos gatos ondulando na escuridão da noite com aqueles miados que parecem uma criança a chorar. No fundo eu sou uma criança grande.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sem título... basta a loucura!!!!

Estou aqui sentado na minha secretária olhando com ar vazio um ecrã que nada me diz e nada me dá de novo. Sou subjugado pelas recordações que me afogam o espírito, que me inquietam. É triste a saudade, é triste a solidão e neste momento é apenas o que sinto. O manto enorme e negro da solidão. Está tudo longe, tudo inalcançável, resta-me apenas o vinho amargo no fundo de uma caneca onde jazem algumas moscas afogadas na sua ansia. Estou aqui sentado e escrevo a minha alma. Daqui a um pouco irei para o mar onde poderei olhar o horizonte, onde poderei sonhar pois o mar tudo permite, é o local onde os sonhos são realidade morando lá longe, naquela linha para onde navegamos e nunca alcançamos. um dia irei para casa, descansar e falar com os meus gatos, discutir filosofia com o Fu, política externa com o Nobita e sonhar na minha varanda olhando o recorte do horizonte, o recorte da serra, o recorte da cidade a que eu não pertenço.
Não estou triste, estou melancólico, estou saudoso, de vida, de um sorriso... entretendo vou ouvindo Sigur Ros...
Ainda hoje sinto saudades de uma paixão que tive aos dez anos, maldito este cérebro de minhoca.... adeus sorriso bonito, faz boa viagem.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Jonas 8 - O renascer

A eternidade passou num ápice, Jonas abriu os olhos e sobressaltou-se, aqueles grandes olhos verdes que o miravam expectantes assustaram-no. Fez um gesto de defesa, inútil pois estava amarrado á cama. Acalmou-se, aqueles olhos eram tristes, doces e pareciam suplicar algo que Jonas não entendia. A sua mente ainda num turbilhão, a ideias, as imagens, as memórias todas a saltarem ao mesmo tempo, Jonas fazia um esforço insano para as agrupara, para pôr um pouco de ordem de modo a que conseguisse dar um pouco de lógica aos últimos acontecimentos. O turbilhão era demasiado e aqueles olhos desconcentravam-no.
- Onde estou? Que me aconteceu?
- Aparentemente caiu e bateu com a cabeça! Exclama a rapariga, e, mudando de tom de voz ralhou. O menino está muito fraco para se levantar sem ajuda! Para a próxima tem este botãozinho, carrega e chama-me!
- Porquê esse olhar triste? Não me vai dizer que é porque eu não carreguei no botãozinho!
- Nada, não estou triste apenas cansada!
- De aturar malucos, não?
- Nem imagina! Exclama a rapariga afastando o olhar para a janela e olhando lá para fora, para o parque de estacionamento onde um vulto cabisbaixo entrava num carro e se afastava. Nem imagina quanto farta estou eu!
- Farta de aturar malucos sãos ou doidos como eu?
- É assim! Vira-se a rapariga com os olhos a faiscar. Se continuar com essas perguntas fico farta de aturar parvos. Já me chegam os malucos e os doidos.
- HummmmM para a próxima carrego no botãozinho! Que fúria. 
Jonas sorriu e deitou-se olhando para o tecto, a sua mancha lá estava.



O tempo passou assim como o dia, Jonas apenas pensava no que lhe restava das suas memórias, lembrava-se dos factos e esquecia-se dos nomes, lembrava-se das sensações e passavam-lhe as datas, a cronologia. 
De repente um cheiro veio-lhe á memória, um cheiro quente, suave, doce. Um perfume á muito enterrado no interior do seu consciente, o perfume de uma mulher que ele tinha amado profundamente, que ele ama ainda hoje, sabe que a ama mas é-lhe totalmente incapaz de se lembrar do nome. Olhos negros, sorriso brincalhão, cabelo cortado curto, cabelo que Jonas se lembra de adorar passar os dedos por aqueles cabelos a partir da nuca arrancando á sua amada arrepios que lhe deixavam a pele toda eriçada, os mamilos arrepiados para divertimento de Jonas. Era assim que começavam normalmente os seus jogos amorosos. Beijava-lhe o pescoço aspirando o seu perfume, o seu cheiro, mordia-lhe a nuca como os animais fazem ás suas fêmeas para as dominar, esta nunca se tinha deixado dominar, era brava e por isso Jonas perdia-se sempre. E as memórias corriam mostrando uma vida que ele tinha tido e que agora estava totalmente desligado, não se lembrava, tinha-a perdido para algo, para alguém.
- Desculpe-me o meu mau génio á bocado! Exclamou a rapariga á porta do quarto. Não devia ter sido malcriada!
- Se calhar eu não devia ter sido parvo e estar com gracinhas com uma pessoa que se via que estava nervosa e ou cansada. Digamos, farta de aturar malucos. Exclama Jonas com um sorriso.
Já agora! Está mais bem disposta?
- Hummm! Já passou! E você? Tenho estado aqui a observa-lo e quase se podia ver as rodinhas dessa cabeça a rodarem a uma velocidade incrível, quase se podia ver o brilho de uma lagrimazita a querer escapar desses olhos. O que se passa?
- Memórias de tempos passados, memórias de amores e paixões que não regressam nunca mais, memórias e mais memórias.
- Entendo! Mas porque não põe para detrás das costas e segue em frente? Existe vida no seu futuro.
- Existe vida sim, mas eu sou aquilo que fiz e vivi,não quero pôr a minha vida para detrás das costas só porque causam dor. A minha vida é o único bem que eu tenho e que levarei comigo quando morrer. Quero-a toda presente.
- Mas isso deve-lhe ser bastante penoso. Sofrer de novo para quê? Passou e não se pensa mais nisso.
- Não é bem assim. Se sofri é porque houve algo de bom que se alterou e passou a causar sofrimento, eu quero esses pedaços bons de volta, quer lembrar-me deles, vive-los novamente nem que para isso volte a sofrer a sua perda.
- Se você está sempre a viver o passado não vive o presente nem terá futuro.
- Bem observado mas não é assim que acontece comigo. Vivo o passado, o presente é sempre o presente e vivo-o intensamente, esta conversa é um exemplo disso, está-me a dar prazer argumentar consigo com um início de tentativa de sedução ao mesmo tempo que já estou a fazer projecções para o futuro, a desenhar todos os possíveis cenários que esta conversa poderá produzir. Faço isto tudo ao mesmo tempo.
- Está-se a meter comigo, está a gozar-me! Replica a rapariga com um tom de voz ofendido.
- Estou a brincar, não a gozar. Existe uma grande diferença. E eu só brinco com pessoas de quem gosto. E a sedução é uma coisa que existe sempre entre um homem e uma mulher. Nós gostamos que o outro goste de nós, mesmo que seja só simpatizar, admirar. A sedução no sentido lato não implica sempre sexo. Embora, você como uma mulher muito bonita que é, seja difícil de não querermos seduzir.
- Oh! Não diga asneiras! Mas voltando ás memórias e á vida. Deve ser muito cansativo essa maneira de se viver, a sua cabeça não deve parar.
- Como tu disseste, vou tratar-te por tu pois como já me declarei e não levei chapaao acho que ganhei o estatuto de te poder tratar por tu. Como disseste, quase que podias ver as rodinhas do meu cérebro a trabalhar, é assim todos os dias, a toda a hora. Se descontraio, adormeço, de exaustão provavelmente. Mas não consigo fugir a este remoinho, sempre a lembrar, a viver e a projectar. Muitas vezes, quando interrompo, fecho os olhos e sonho, sonho vidas que nunca vivi e que nunca viverei, apenas na minha imaginação os vivo. Sonhos e fantasias, milhões de vidas. O problema é manter a coerência, não misturar os sonhos com as memórias reais.
- Se calhar é por isso que estás aqui. Replica a rapariga usando o tratamento por tu. Flipaste totalmente e queimaste os fusíveis. Bolas, não devia estar a falar contigo assim, afinal és um doente e eu não posso dizer estas coisas! Exclama a rapariga tapando a boca com a mão e corando como uma adolescente. 
- Não te preocupes! Desde que o digas quando estivermos a sós não terás problemas. Passa a ser o nosso segredo! Diz Jonas com ar malicioso.
- Hummm! Não estou a gostar muito desse olhar de felino!
- Claro que faço este olhar de felino. O segredo une-nos, dá-nos uma cumplicidade e é altamente sedutor. Eu gosto de seduzir. E quando vi esses teus olhos verdes, fui eu que ficou seduzido, agora vingo-me! Diz Jonas com um sorriso de criança de orelha a orelha.
- Parvo!!! Diz ela corando. Chega de conversa, tenho mais trabalho para fazer e outros malucos para aturar. Põe-te bom!
- Ana! Chama Jonas com um sorriso. Não tenho direito a beijinho de adeus!
Ana abriu os olhos de espanto, não esperava este rápido desenvolvimento, tinha sido apanhada de surpresa. Corou e apenas respondeu com a primeira coisa que lhe veio á cabeça.
- Nunca com a barba por fazer!! E saiu batendo com a porta.

Jonas sorriu, a rapariga agradava-lhe, era bonita sem ser uma estampa, tinha um olhar doce e meigo que o encantava, tinham sido aqueles grandes olhos verdes que o tinham seduzido. E Jonas começou a desenhar todos os cenários possíveis para uma futura relação até que adormeceu, já a noite ia longa.
Lá em cima, no escuro da noite, as estrelas brilhavam intensamente.


24 de Maio de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Um copo

Gargalhadas, risos e sorrisos
Copo na mão, gelo que se derrete
Conversas, palavras que voam
Ecoam na noite, atingindo a alma
Risos e rostos, cabelos e olhos
Ali, para mim e para ninguém
Vapores quentes que nos libertam
Faltou a palavra mágica
Faltou o gesto, o toque
O paraíso avistado e não encontrado
Doces palavras, doces sorrisos
Quis beijar, a noite que era doce
Fui abraçado pela amargura
Acabei só
Olhando o tecto de uma câmara vazia
Sonhando que um dia


18 de Maio de 2015

Olhando o tecto

Deitado olho o tecto
Amarelo do tempo
Perdia-me na vida antes vivida
Memórias, pedaços de filmes
Maus actores e enredos baratos
Histórias, apenas histórias
Vida esfomeada, louca
Procurando a fome
Querendo a fome
Morrendo todos os dias
Um pouco
O desejo ardendo, penetrante
Deitado olho tecto
Recordando, morrendo cada segundo
Dor pungente sobre o peito
Ânsia de vida, fome de vida
Tanta dor, tamanha dor
Por nada, para nada ter
Por nada alcançar
Deitado sonho, vida vivida
Vida almejada
Aspiro sofregamente, sofro
Falta-me o ar, o alento
Deitado olho o tecto e morro
Mais um dia.


17 de Maio de 2015 

Voava

Voava sobre o oceano
Sentindo o vento a uivar aos ouvidos
Uivos e lamentos de alma sofrida
Voava sobre o oceano de mar azul
De espuma branca
O espírito corria livremente
Tocando a crusta das ondas
Sentindo o frio das águas
Voava sobre o oceano
Preso por correntes, grilhetas de vida
Voava como um preso voa em sonhos
Liberdade nunca tida, nunca alcançada
Voava sobre o oceano
A fome a apertar, a sede a enlouquecer
O vento uivante rugia a sua fúria
No ar, no alto via a vida, espraiando-se
No horizonte longínquo
Asas firmes num voo planado, exaustivo
Olhar penetrante, bico afilado
E nada á vista, o vazio
A fome
A sede
A loucura que tudo escurecia
O sol escondia-se, cansado
As sombras invadiam o dia
Voava sobre o oceano de negras águas
O céu já se confundia, a terra desaparecia
O negro tudo cobria, engolindo a vida
Voando, exausto, nadava na escuridão
De uma noite sem fim
De uma noite fria
Sem estrelas
Sem luar
Apenas eu, a voar sobre o oceano.


17 de Maio de 2015