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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Ouvindo música

Ouvindo musica, sonhando
Tento mas não consigo
Choro mas não tenho alivio
A merda invade o meu espirito
Cascatas de merda castanha
Fétida, mal cheirosa
Choro lagrimas de fel
Nem sei como consigo
Viver e não morrer
Dói
Pensar, sonhar
Lágrimas arrulhantes que teimam
Em cair
Olho a musica que se ouve ao longe
Sinto a solidão, o deserto
O meu espirito rola com as pedras
De um rio
Aguas barrentas numa corrida
Sem fim
Calhaus rolados, pelo tempo
Meu espirito soluça
Afogo-me
Morro
Hoje partiria sem saudade


10 de Outubro de 2016

Nota do autor: depois levantei-me com olhos húmido e fui jantar como se nada tratasse

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Apenas

Sentado, sonho, penso
Uma vida que discorre
Um sentimento que desponta
Sinto o amargo da existência 
Do nada
Olho e vejo
O vazio do ontem
A escuridão do amanhã 
Oiço música, oiço sentimentos 
Emoções de dor, de paixão 
Sentado soluço a vida
Que não tive
Que tive
Que terei
Espinhos cravados nos pés
Calcorreio caminhos
Meus destinos
Corro
Criança 
Estou sentado e choro
O nada, a escuridão 
Sinto-me a morrer, lentamente
Um sorriso que desmaia
Branco, lívido 
Dentes arreganhados num sorriso
Ela que me chama
Sentado olho, vejo, escuto
O som de um coração que bate
O meu
Morto para a vida
Vivo para a morte
Grita a plenos pulmões 
Sentado choro
A solidão, a dor
De estar
De apenas estar, aqui
Só 
Sentado olho e vejo
O nada
Levanto-me e caminho
Dou o passo e lanço-me
No vazio
Onde finalmente me vejo
Só 


10/10/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O cão



Acordei
Sonos, sonhos revoltos
Distantes, escuros, sem sentido
Acordei, sem ver
Instinto, o calor procuro
A fome, a teta procuro
Empurram-me, gano mansamente
Língua quente, molhada me enrola
Chupo, sugo, mordo
A fome, insaciável corrói 

O fundo do buraco, negro
A luz que entra fugaz
O mundo se revela
A morte se revela
Gritos, guinchos, sangue
Irmãos que desaparecem
Num terror em forma de focinho

Sobrevivo, órfão de irmãos 
Órfão de mãe que uma besta levou
Um guincho, um grito, um embate
E a morte chegou
Deixando-me só 
Filho de pai incógnito
Filho da matilha
Que se dispersou sem nobreza
No dia em que o cheiro morreu
Para eu nascer

A fome visitou-me
A fome deu-me coragem
Saí para o mundo
Enfrentei a luz, corri, patas pequenas
Ser mal feito, desengonçado
Filho do acaso, de pais do acaso
Corri
A fome sempre presente
Cheiros, aromas e perfumes
Desconhecidos, atraentes
Corri, pequeno e assustado
Desesperado

Comida, o cheiro de algo
Instinto me chama, comida
Sacio-me de sabores estranhos
Primeira lição de uma vida
Nunca deixar de olhar
Atacam-me aos gritos
Navalhas cortam-me o corpo
Gritos ensurdecem-me, atordoam-me
Corro, fujo, pânico, terror
Ser estranho me ataca, miando

A vida continua, numa guerra
Surda e mortal
Cheio de cicatrizes cresço
Roubando comida
Ao gato das redondezas roubo
A minha sobrevivência 

Com o tempo a minha área cresce
Diferentes pontos de comida
Diferentes cheiros, ruídos e sons
Aquele gravado que me faz correr
Em pânico
Numa saudade imensa
Aquela língua quente e reconfortante
Não me sai da memória 
Desapareceu com esse som

Mais solto, mais atrevido
Percorro as ruas, marcando
Sem pudor
Todos os cheiros que me desafiam
Não resisto
Marco o mundo
Marco o universo
Até o gato me respeita agora
Cresci

A fome que não desaparece
O frio que aperta
A chuva que me encharca a alma
No meu pequeno buraco
Meu berço
Tirito de frio

Dias cinzentos cobrem o universo
Dias de inverno tolda-me o espírito 
Tenho fome
Estou sempre com fome
Lambo as minhas patas
Distraindo-me com o meu sabor
Adormeço cansado, sonhando
Dias idos, a felicidade ida
Teta cheia de leite, carinhosa
Calor e carinho
Sonho ganindo mansamente

O tempo passou, os anos passaram
A marcação do universo despertou
A ira, a raiva, a inveja
De outros
Párias como eu, donos do mundo
Poderosos no mundo, em matilha
Perseguiram-me, atacaram-me
Fui sobrevivendo
A fome atacou-me de novo, sempre
A morte do meu amigo, o felino
Sempre mal disposto mas tolerante
A sua morte no meio da matilha
Inglória 
Deixou de encher o prato
Pedaço de carne e pelo ensanguentado
No chão exposto
Ratos e formigas em festim
Chorei a sua partida
Lambi-o tentando reviver
Desesperadamente
Aqueles olhos, aquele miado
Em vão
A vida era morte outra vez

O dia raiava, o sol brilhava
Algo no ar era diferente
O cheiro
A loucura que entorpece
Meu corpo estava estranho
A minha mente não me obedecia
Aquele estranho odor em tudo penetrava
A fome esquecida
O medo esquecido
Corri
Procurei desesperadamente
E vi-a
Era ela, ser pulguento
Ar miserável que corria
Perseguida pela matilha
Correndo e espalhando o aroma
Que a enchia de beleza
Era ela, o meu destino
O instinto foi mais forte
Corri e atirei-me que nem um louco
Cheirei-a e a felicidade entranhou-se
A alegria, a loucura era tal
Que meus quadris se moviam
Numa dança louca, erótica
Eu queria-a
Era minha
Montei-a
E fui violentamente atacado
O chefe da matilha
Dono de tudo
Besta enorme filou o meu quadril
Dei luta
Não tinha medo
A paixão tudo dominava
Lutei contra a besta
Lutei contra a matilha
Exangue, no chão, vi

Um miserável ser penetrando
A paixão que era minha
A besta, a matilha, eu
Distraídos na refrega
Numa luta inglória, sem fim
Fomos ultrapassados
Pelo inútil que ninguém deu crédito

O cheiro desapareceu no ar
Trancado pela penetração do inútil
Agora agarrado pelo destino da erecção
Que o aprisionou ao destino
Morto pelos seus
Numa vingança impiedosa
Seu sémen sobrevivendo
No útero de uma sem destino
Parindo um dia numa cova escura

Afastei-me sangrando
A refrega tinha deixado as suas marcas
O sangue pingava
Coxeava
A dor penetrava no cérebro
Acutilante

Cambaleando entrei
Um buraco escuro
Fresco
Enrolando-me confortei-me
Lambi as minhas feridas
Recordando alegrias há muito idas
Aquela língua quente e carinhosa

Um som diferente
Um ser diferente
O terror a avançar, mostrei os dentes
A voz acalmou-me
Deu-me um pedaço de comida
Gani
Deixei-me ir.

A escuridão aumentou
Lentamente
O frio invadiu o universo
A vida transformou-se numa toca
Um buraco que se estreitava
Até o negro tudo invadir
Gani pela última vez
Um último adeus
A uma vida de cão.



Jimmy, 04 de Setembro de 2016
A navegar

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diálogo

Os dois encontravam-se naquela esplanada junto ao passeio pedonal que serpenteava ao longo da orla marítima. Sentados nas suas cadeiras, virados para o mar iam bebendo as suas imperiais, seis copos jaziam vazios espalhados pela pequena mesa que os servia. Iam beberricando pois aquela sede avassaladora há muito que se tinha afogado naquela enxurrada de cerveja libertando aos poucos as suas memórias.
- Então o gajo lá bateu as botas?
- Sim! Responde tristemente Jonas, não o tinha conhecido intimamente mas do que conheceu deu-lhe a ideia de ser um gajo porreiro. Assim de um momento para o outro!
- Para ele os problemas acabaram! Morrer é uma chatice mas o que tem de bom é que os problemas ficam cá todos!
- Será? Ninguém voltou para contar!
- Se deixaram de ter problemas porque haveriam de voltar?
- Para os resolver...
- Não sejas tosco! Achas que alguém no seu perfeito estado mental voltaria a esta terra para resolver os problemas que tinha deixado? Morreu, prescreveu! São como as dívidas!
- Não sei! Isso vai depender de muita coisa! Existe o outro lado ou não? Tu próprio admites que existe ao dizer que do outro lado os problemas prescreveram, atenta bem ao que disseste, prescreveram e não desapareceram.
- Claro que existe o outro lado, eu acredito no céu e no inferno, pelo menos alguma coisa parecida. Andarmos aqui e desaparecer tudo? Custa-me a crer.
- Custa-te a crer não, queres crer, tens fé, agarras-te a isso por causa do terror da morte, terror do desconhecido.
- E tu? Não me venhas dizer que não tens medo!
- Medo? Já tive! Agora temo mais a passagem, a dor, a angústia da morte. Sabes, quando estamos perto o corpo reage, o sacana do instinto de sobrevivência a tomar as rédeas. Depois chega a uma certa altura que aceitas. Passei uma vez por isso. A angústia terrível do vou morrer, aceitar a situação, a calma que nos invade, pelo menos a mim invadiu-me, e a vontade de dormir e ... deixar-me ir!
- Tretas! Estás aqui e não foste! Reagiste, tiveste tanto medo como os outros.
- Já não tinha medo, estava mais chateado, ia-me embora sem fechar as contas, sem me despedir. O resto já não me interessava.
- E porque não morreste?
- Porque percebi que se me virasse para o lado e dormisse um bocadinho acordaria nos braços de alguma maluca, lá no paraíso dos marujos, resolvi não dormir, manter-me desperto.
- E...?
- Deu-me tempo para resolver uma questão. A burrada que tinha feito na auto-medicação e numa sugestão feita por um gajo que assistia a tudo com os olhos arregalados de terror. O gajo iria ter uma data de chatices se eu morresse, as papeladas que teria de preencher. E, na boa verdade, ninguém gosta de ver um gajo morrer e estar impotente sem saber o que fazer.
- Mas salvou-te? Como?
- Perguntou-me se eu não estaria desidratado! Eu pensava que era ataque de coração por isso tinha tomado dois Capoten, tudo á bruta, mas era desidratação extrema. Tomei uns líquidos para repor sais e açúcar, o nível dos electrólitos e melhorei logo. Fiquei só com o problema da sobre-dosagem de Capoten mas para isso fiquei acordado até a tensão arterial ficar em níveis seguros.
- Quanto tinhas?
- Chegou aos 40/20! Disse Jonas sorrindo.
- Bolas! Disse o amigo olhando para uma miúda que passava em passo de corrida fazendo o seu jogging matinal. Figura bonita de pernas morenas e musculosas, um calção curto de desporto com cavas bem levantadas e uma camisa de lycra bem justinha deixando antever um peito de tamanho razoável esmagado por um soutien de desporto.
- Sim, bolas! Se não páras de te babar quem desidrata és tu e nem essas cervejas te chegam.
- Não me venhas dizer que não olhas para as miúdas, agora és santo, salvaste-te da morte e converteste-te!
- Não sou santo, sou discreto. Ela já tinha passado e agora está a fazer o percurso inverso. E da primeira vez até sorriu do meu olhar babado, agora ignorou-me para eu não correr atrás dela.

Continuaram a beber mais umas imperiais, mandaram vir uns croquetes para lastrar o estômago e terem oportunidade de ter a jovem empregada ao lado deles e tentarem fazer umas graçolas com ela mas depressa perceberam, pelos olhares furibundos, que ela devia ter uma relação com o dono que estava atrás do balcão. 

- O gajo era bom tipo! Fiquei chateado e faz-me lembrar, que como todos, para lá caminho!
Não é o morrer que me chateia! É a perda total! A perda de uma vida!
- Não entendo!
- Vê a coisa do seguinte modo. A alma existe, vamos supor que sim, a consciência existe, temos a certeza. Tu tens consciência de ti mesmo, a consciência é o que nos dá a individualidade, o que nos faz rir, chorar, amar etc. Só que a consciência é um produto da função cerebral, assim como o sub-consciente e o inconsciente. Memórias e capacidade de processamento que o nosso cérebro tem além de um sistema operativo espetacular pois actualiza-se, aprende. Hoje já se fazem programas que aprendem e melhora o seu funcionamento com a aprendizagem. O teu cérebro é um computador biológico incrível que guarda muitas memórias e outras são guardadas como sub-rotinas que trabalham ao nível do processador, essas tens pouco ou nenhum controle, um exemplo são os traumas, pequenas rotinas que são despoletadas segundo determinados estímulos.
- E qual a relação que a consciência tem com a alma. Essa também é uma coisa que se fala mas ninguém tem provas, ninguém viu embora haja uns intrujas que falam da aura como se fosse a manifestação da alma.
- Sabes. Eu tento ver as coisas de uma forma racional evitando os dogmas e a fé. Tenho uma coisa que acredito mas para acreditar tenho de ver, e ver pode ser concepcionar. Se uma coisa é conceptível de um modo lógico pode ser que seja possível. 
- Viste a alma? Viste a aura? Agora deste em intruja? Não me gozes. Ou acreditas e tens uma religião que te suporta ou então és mais um intruja.
- Sabes! Quando era jovem e caçava, um dia abati um bicho apenas porque estava em cima de uma árvore, era grande e peludo, não servia para nada. Selvagem como era disparei e o desgraçado caiu a meus pés e eu assisti á sua morte. Um ser vivo, pelo brilhante no estertor da morte e eu vi a morte a apossar-se daquele corpo, o pelo perdeu o brilho, deixou de ser um ser vivo para ser uma carcaça que nem as pulgas queriam, abandonavam aquele corpo como ratos abandonam um navio a afundar-se. Naquele momento eu vi, eu vi a vida a ir-se embora, algo abandonou aquele desgraçado.
- Agora que falas disso estás-me a fazer lembrar o funeral do meu irmão. Olhava para ele naquele caixão de madeira, reconhecia-lhe as feições mas não era ele, parecia um boneco, era estranho, ele não estava ali. Disse o amigo com um soluço a embargar-lhe a voz e tentando esconder as lágrimas que tinham teimado em saltar, disfarçou dando um grande gole na sua imperial quase esvaziando o copo.
- É isso mesmo. É essa a diferença, a vida sumiu, foi-se. A vida pode ser a alma. E aí as coisas até batem mais ou menos com as crenças. O meu problema é a consciência. Se a vida ou alma abandona o corpo e não leva a consciência com ela então para que serve viver? Ser bom, ser mau, ser santo, ser putanheiro, é tudo a mesma coisa. No fim morre-se, a consciência apaga-se, a vida que levámos apaga-se e vai tudo para o mesmo caldeirão. Não tem lógica.
- Querias ir para o céu não era? E encontrares aquela miúda a correr para ti... ahahah! Gozou o amigo.
- A chatice é que não consigo "ver" a passagem da consciência do estado vivo para o estado morto. O seja, a consciência acompanhar a tal alma ou aura.
- Isso é um bocado torcido, se a consciência passa para o estado morto então terias os fantasmas. Estou-te a imaginar tu, em forma de fantasma, a espreitar todas as garinas a tomar banho, a vestirem-se! Ahahahah! Aposto que pensaste nisso seu depravado!
- Engano teu! Se a minha consciência passasse para o outro lado ficaria privada de sentidos por isso não conseguiria nem espreitar o meu gato a mijar!
- Não me tinha lembrado disso! Porra que andas muito doido com essas ideias, andas a ver tudo, não largas a presa! E se fosse mais uma imperial?
- Hummmm! Tá calor e eu estou com sede e apetece-me ver os olhos furibundos da empregada outra vez! Dá-me gozo vê-las todas eriçadas de fúria. Uma beleza da natureza, uma mulher enfurecida por causa das graçolas de um gajo! E Jonas dizendo isso chamou a empregada com o seu maior sorriso. Um sorriso já meio tolo de tanta imperial.
A rapariga aproximou-se, cara fechada e pergunta o que desejam.
- O que desejo nunca se realizará por isso contento-me com mais um par de imperiais!
- Um par de estalos leva você se não se portar bem! Exclama furiosa a rapariga.
Jonas pôs a sua cara séria, coloquial e responde com voz calma.
- Menina! Aprenda a aceitar uma brincadeira. A minha afirmação foi uma constatação á sua beleza, não um convite nem proposta desonesta. Um piropo, uma brincadeira apenas. Se cair em saco roto nada se perde nada se ganha.
- Não tenho paciência para idiotas com uns copos a mais!
- Então não trabalhe num local que vende bebidas alcóolicas pois o risco de aturar idiotas maiores do que eu é muito grande. Faça um sorriso e, se calhar, se me apaixonar pelo seu sorriso compro-lhe o stock de cerveja só para o ver outra vez. No fim do dia estarei com uma ressaca e você feliz porque vendeu bastante. O que custa um sorriso simpático? Nada. A única coisa que aconselho é que escolha o alvo do seu sorriso. Dois tolos como nós somos sempre inofensivos, outros não serão. Essa será a sua escolha. Agora traga lá as bejecas e eu juro que não farei mais brincadeiras, respeitarei a sua reserva. Mas tenho pena, você é bonita e já reparei que quando sorri você é a constelação mais bonita deste universo. Dizendo isto, Jonas voltou-se para o seu amigo e perguntou.
- Estava a falar de quê? Realmente já estou a ficar tolo. A garina até pode ter razão em me ter dado na cabeça!
- Estou espantado! A tua lábia para com a rapariga! Deixaste-a confusa! E meio corada!
- Ah!!! A famosa consciência! Imagina a alma/vida como energia que já vimos se solta quando morremos. Agora, ás vezes sou mesmo um idiota, imagina a consciência como uma base dados da vida mais uma coisa equivalente a um programa auto-executável. Em suma, linhas de programa que podem ser codificadas em binário ou níveis de energia. Imagina essa vida/alma ser uma forma de energia, codificada com o binário da consciência? Diz lá se não é linda esta visão?
- Tenho de concordar que quando estás com os copos tens umas visões interessante, e por incrível que pareça, até têm lógica. Mas diz-me, como se aguenta isso tudo? A energia a pulsar numa frequência que é a consciência vai acabar por se dissipar, vai acabar por desaparecer. Uns segundos e puffff, desaparece no nada!
- A não ser que nesses segundos que tu te referes o tempo não exista ou esteja congelado. Se o tempo deixar de existir nessa fracção de energia pulsante ela ficará assim eternamente.
- E acreditas nisso? Estás-me a convencer que a eternidade existe? Só falta dizeres que o inferno ou céu existem.
- Nessa forma porque não? Se o auto-executavel ao arrancar te disser que foste uma besta vais ser uma besta eternamente, um bocado infernal não é?
- A cerveja pode tirar-te o juízo mas não te tira a lógica!
A empregada aproximou-se da mesa e olhando desafiadoramente para Jonas pôs dois pratos na mesa, um com a conta e outro com uns amendoins salgados e com um sorriso felino disse?
- Por conta da casa!
- Eu adoro ter razão! Exclama Jonas com o seu sorriso mais maroto e puxa da carteira para pagar quando ouve o seu amigo a dizer com voz aflita.
- Parece que o teu inferno está a chegar! Vem aí a tua mulher e está com cara de poucos amigos!!!! Diz o amigo a empalidecer.
- Ehhhhhh pá!!!! Esqueci-me de a ir buscar! Deve estar uma fera!
- E eu vou-lhe contar que além dessa enxurrada de cerveja meteu-se com todas as mulheres que por aqui passaram e ainda mais grave, vou aconselha-la a levá-lo ao psiquiatra, está aqui há uma hora a falar da alma, da morte. Até me arrepia! Exclama a rapariga com ar aliviado com a aproximação da companheira de Jonas.
- Adeus vida! Choraminga Jonas. Adeus bela constelação que vais assistir a esta minúscula estrela ser engolida pelo buraco negro que aí se aproxima, inexorável. Um fim tão trágico para uma estrela emergente tão brilhante....
- JONAS! ESTIVE HORAS Á TUA ESPERA! E ESTÁS BÊBADO!!!
- Desculpa-me querida! Estive a olhar para uma constelação e apenas morri. Estive esta eternidade toda num loop auto-executavel sem ter noção como o tempo lá fora corria a sua vida normal. Só tu minha querida para me fazeres ressuscitar....
- É preciso ter muita lata! Exclama a empregada entre o chocada e o divertida.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O assassino

 
Jonas espreitava a sua vítima cuidadosamente, seguia-lhe os movimentos, mudava de posição melhorando o angulo de tiro. A sua arma, adquirida especialmente para aquela missão, para aquela morte, estava pronta. Uma arma leve, muitos materiais compósitos integravam a sua construção que ao contrário do aço polido tinha um toque macio, sedoso, quase feminino. Apesar da sua aparente fragilidade ela tinha potência necessária para derrubar uma besta a investir, tinha uma precisão e alcance letais. Jonas acariciava a sua arma como se de uma amante se tratasse, respirava pausadamente.
O alvo estava na posição, a vítima ia ser sacrificada, ia morrer sem nunca se aperceber do seu destino.
Jonas baixou a sua batida cardíaca, diminuiu o ritmo respiratório, o momento aproximava-se rapidamente, a cabeça a enquadrar-se na retícula da mira telescópica, uma leve pressão com o dedo e a arma deu um ligeiro sacão, um som abafado ecoou sumidamente e a bala partiu, veloz, em direcção ao seu destino.
Jonas gostava destes momentos, devido ao ângulo conseguia ver a bala a percorrer a distância fazendo um ligeiro angulo até se cravar com um som seco de osso a partir-se na têmpora do alvo. Jonas tinha parado o tempo no seu espírito, aquele craneo estilhaçou-se em câmara lenta, o homem foi projectado devido ao impacto e caiu como de uma boneca de trapos se tratasse.
Jonas respirou fundo, baixou a arma e levantou os olhos da sua consola exclamando:
- Estes jogos estão cada vez mais reais! Abstraí-me de tal maneira que o virtual passou a ser, por momentos, a realidade. Até tenho os braços arrepiados.
- És louco! Disse a sua companheira sem tirar os olhos do seu livro. Não admira que cada vez haja mais malucos a disparar por aí, julgam que estão num jogo! Como tu...! Disse ela olhando desta vez muito fixamente para os olhos de Jonas.
- Não mistures as coisas!
- Eras capaz de fazer o que fazes no jogo? Olhar para um ser vivo, apontar e disparar sabendo que vais matar alguém, tirar a vida a alguém?
- Olha menina, se me perguntas se eu sou capaz de ir para a rua matar indiscriminadamente, não, não sou. Agora numa situação de guerra ou numa situação em que o alvo a abater é justificável, não teria problemas de maior. Tu numa guerra, uma vez envolvida em combate não discutes a moralidade da guerra, ou matas ou és morta. Salvo raras excepções podes optar por poupar uma vida que, não te podes esquecer disso, essa vida amanhã pode matar o teu companheiro, aquele que confiou que tu lhe protegesses o seu flanco. Numa situação de combate as opções são muito limitadas. Agora, numa acção de extermínio em que a tua missão é eliminar um alvo, eliminar é um eufemismo de assassinar tens sempre a hipótese de poupar o alvo mas, há sempre um mas, esse alvo ou já foi causador de muitas mortes dos teus ou é um muito grande potencial causador de muitas mortes. Se tens esses problemas nunca te poderás candidatar a uma unidade que está sujeita a ordens desse género, uma unidade cujos objectivos são esse tipo de acções.
- Tu ias! Vejo nos teus olhos que ias!
- Se calhar ia, e como não posso ir elimino as minhas frustrações matando inimigos virtuais nesta consola! Disse Jonas rindo-se.
- Continuo a achar que és louco! E só tenho medo que um dia seja a sério e dês cabo da tua vida ou me faças mal!
- Fazer-te mal? Eu? Nada disso. Tu não percebes é nada de guerras e guerreiros. Um guerreiro quando acaba um combate tem uma necessidade urgente de descarregar a adrenalina, o excesso de energia acumulada, energia essa que lhe dá capacidade de sobreviver. Chegando a casa o tem uma solução, arranjar uma mulher e copular que nem um louco para que com o seu orgasmo todas as tensões se desvaneçam, depois bebe uns copos e dorme.
- Violar as mulheres que encontra queres tu dizer?
- Isso era antigamente! Agora já não se fazem combates em que se permitam ao luxo de ter tempo para as violações, já existe alguma moralidade em alguns homens que travam os outros, lembra-te de alguns filmes sobre o Vietname. Hoje vai-se a um bar e convence-se uma pequena que por acaso até lá está para isso e o problema resolve-se. Os homens não melhoraram, as circunstancias é que se alteraram.
- E tu? Eras capaz de violar uma mulher depois de um combate? Sentirias esse desejo?
- Vou-te responder com um exemplo. Acabei de efectuar uma missão altamente tensa, o raio do jogo é mesmo muito real, e estou com excesso de adrenalina. Tu estás aí a provocar-me com essa conversa da treta e a mim só me interessa tirar-te o vestido. Agora, ou das duas uma, ou tiro-te o vestido e ofereces alguma luta, mulher que se preze oferece sempre luta ou então estás tão excitada com a descrição que estás prontinha para o sacrifício!
- Não sejas parvo....! A companheira de Jonas não teve tempo de acabar a frase pois os seus lábios já estavam selados por uma boca sôfrega de paixão.
Ela ainda esperneou um bocado mas ambos sabiam que era uma luta simbólica, ambos queriam o mesmo, conquistar o corpo do seu adversário e faze-lo sofrer as maiores sevícias. A luta foi tremenda, titânica e no fim a vitória foi de Jonas, uma vitória pírrica, uma vitória técnica porque apenas estava numa posição dominante sem nada dominar. Respirando com dificuldade abandonou o corpo da sua companheira que jazia abandonado na sua paixão, ela sorria mansamente, tinha sido a vencedora como sempre e dando a ilusão ao seu companheiro que tinha tido o domínio.
Jonas levantou-se pesadamente, tremia do esforço, esgotado, sugado de todas as suas energias. Caminhou para a sua mesa, ofegante e voltou a pegar na consola de jogos.
- És mesmo uma besta! Escandaliza-se a sua companheira. Usaste-me e agora voltas para os teus joguinhos! E eu sou deitada fora! Besta, estúpido....
Jonas suspirou, deixou cair os ombros de desanimo, elas nunca compreenderiam um guerreiro.
- Minha querida! Preciso de matar mais uns quantos gajos! Pôr os meus níveis de adrenalina e energia e assim voltar para os teus braços comemorar a vitória e voltar a ter direito ao descanso do guerreiro! E esta última frase foi dita com um sorriso de orelha a orelha típico de um Jonas a eterna criança.
- Vai lá para os teus jogos mas não venhas para aqui pedir batatinhas pois não sou um dos teus despojos de guerra! E ela aproveita a oportunidade para se escapulir para a casa de banho.
............................

Jonas mirava o inimigo quando ele de repente se vira e dispara na sua direcção roubando mais de 50% de vida a Jonas que por sua vez mira rapidamente e envia uma descarga de três balas eliminando a sua presa.
- Fogoooo! Este ia-me quase matando! Tenho os pelos dos braços totalmente arrepiados! Uauuuu! Até sinto o sangue a ferver!!!! Maria! Grita Jonas chamando pela sua companheira. Percorre a casa toda á sua procura seguido pelos seus gatos que pressentem a trovoada que paira no ar. Maria? Por onde andas? Não fujas!
Jonas, com a surpresa a começar a invadir o seu rosto corado pela adrenalina vê um bilhete na mesa: "Fui ás compras! Aspira a casa para gastares as tuas energias de guerreiro vitorioso! Beijinhos 😀"

Ela chega a casa e encontra Jonas de ar carrancudo no sofá a escrever no tablet, a casa por limpar, o aspirador espalhado pela casa, tudo numa confusão, os gatos a espreitarem assustados nos seus esconderijos preferidos.
- Que aconteceu? Pergunta ela com um certo tom de preocupação na voz.
- Nada! Tinha acabado de abater um inimigo que me feriu gravemente! Fui para o hospital mas a enfermeira tinha-se ausentado. Enquanto me tratava resolvi limpar o campo quando o exército inimigo irrompeu pelas linhas, foi uma luta tremenda, só venci porque encontrei aquele lança-chamas e consegui repelir o inimigo! Exclama Jonas com voz sumida olhando para o aspirador. Estou gravemente ferido, estou a morrer, necessito de massagem cardíaca e respiração boca a boca.
E dizendo isto Jonas atira-se á sua companheira e beija-a ternamente e sussurra-lhe ao ouvido:
- Trata de mim! Trata-me que estou a morrer exangue!
- Pois estou a ver, com essa erecção está-te é a faltar sangue no cérebro...
Cansados, deitados um ao lado do outro, arfando os restos das suas paixões ela pergunta:
- Estou a estranhar essa jovialidade toda! Duas vezes não é nada comum, há muitos anos que não acontece! Estás com a cabeça na miúda não é?
- Tenho de te confessar uma coisa! Diz Jonas com um sorriso travesso. Comprei viagra para experimentar e tomei um comprimido e aquela merda não deu resultado nenhum, bolas tinha gasto uma pipa de massa para nada. E sabes como eu sou, perdido por cem, perdido por mil, tomei o segundo comprimido. Foi quando sorriste para mim e me chamaste criança que aquilo disparou....
- És doido! És parvo, podes dar cabo do coração... mesmo estúpido!
- Pois.... Diz Jonas olhando para a sua companheira com olhos de gato quando descobre um passarinho!
- E não me olhes assim..... Levanta-se ela e refugia-se na casa de banho fechando a porta á chave.
..........
- Maria! Acabei de limpar o sebo a três inimigos! Foi duro mas consegui!
- Vai tomar banho á piscina e não me aborreças!

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Extracto de Crónicas... 2


Realmente a morte tem rondado o meu clã o que me faz pensar que mais tarde ou mais cedo será a minha vez. Como dizia o outro, é a única certeza que temos nesta vida. Mas gostamos de pensar que não, só acontece aos outros. Vai chegar e quando for o dia só espero estar preparado. Mas como ía dizendo a morte ao rondar as minhas redondezas faz-me pensar nela e o que eu gostaria que acontecesse ao meu corpo. Pessoas dizem que querem ser cremadas, sou totalmente contra, outras doam o corpo. Outras vão para o jazigo de família, se calhar á espera de jogarem á sueca com os outros que já lá estão. Eu digo, por piada, que gostaria que o meu corpo fosse triturado e fosse transformado em ração de gato para ser distribuído pelos gatos da rua, pelos gatos necessitados e sem abrigo.
Claro que esta ideia desenvolveu logo uma cena dos próximos capítulos em que, numa noite de lua cheia, os gatos que se tivessem alimentado da ração felino-jimóide se reuniriam á volta da minha casa miando longamente um chamamento á minha chorosa viúva. Um bocado cena de filme de terror estilo Hollywood mas fez-me rir só de imaginar a minha cara-metade na varanda ao luar a ver a minha focinheira nos gatos ondulando na escuridão da noite com aqueles miados que parecem uma criança a chorar. No fundo eu sou uma criança grande.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Crónicas I


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Lembro-me de uma vez ter dito que nestes sítios só ficavam os pobres de espírito e os que não tinham lugar em mais lado nenhum, ainda não sei qual a minha classificação. Apenas cá continuo sem mais lugar algum que me acolha. Sinto-me a morrer por aqui, a definhar e a morrer, lentamente entrando em degradação. Quando morrer nem necessário será a cremação, a degradação será tão total que só mesmo deitado fora sirvo para alguma coisa.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sorriso da morte...

Dormia placidamente com os meus fantasmas, sono irrequieto e cheio de dor, morte e angústia. Foi nos meus sonhos que aprendi que a angustia dói mais do que a própria morte, foi uma dor noites sem fim. Quando acordei com um som, barulho já conhecido de tantas noites, o meu filho dirigia-se para a minha cama para se deitar entre os pais, sentindo aquela segurança que só uma criança sente quando dorme no meio dos seus pais.
E esperei que o miúdo subisse á cama, foi em vão, ele não aparecia. Estremunhado levantei-me e olhei, no meio da escuridão iluminada pelo luar que entrava pela janela. Aos pés da cama estava um vulto de uma criança de cabeça baixa, dormindo de pé completamente imóvel. Ensonado cheguei-me ao fundo da cama e estendi-lhe a mão para o puxar…
E o mundo estoirou… a criança levanta a cabeça e não era o meu filho, era um vulto que cresceu desmesuradamente, a fácies sorrindo, um sorriso numa cara branca cinza, os olhos de um negro profundo e um esgar trocista enquanto crescia até ao canto superior da sala… o mundo estourou na minha cabeça e imediatamente ataquei o intruso que se esfumou á minha frente sempre sem deixar de sorrir um esgar de morte enquanto eu escoiceava o ar com murros inúteis.
Parado, de joelhos na cama arfava, coração quase a explodir, de punhos cerrados ainda gemia de terror e combate. Olhava em redor, procurava o meu inimigo, corri para o quarto dos meus filhos e ambos dormiam o sono de criança.
Deitei-me, estava tudo bem e …. passei o resto da noite a ver o sorriso trocista da morte, ainda hoje vejo esse sorriso que brinca comigo tal como uma criança travessa…

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Deambulações

Meu filho ofereceu-me um quadro que ele fez. Um gajo com cara de rato, muito cinzento e com um fundo bem negro. O que me preocupa é que ele ofereceu-me o quadro porque, segundo diz a progenitora, dizia muito comigo... porquê?? O rato ou a escuridão? Não sei, tenho de lhe perguntar…

E estou a comer chocolate com nozes, por várias razões, uma porque dizem que é um bom sucedâneo para o sexo, coisa que não tenho tido neste último mês, tem que se fazer tripulações mistas a bem da sanidade mental dos trabalhadores marítimos e para desgraça de muitos casamentos, ahahaha. Dois porque o jantar foi uma desgraça, já tenho o colesterol um bocado elevado e dispenso totalmente o que seriam umas belas postas de pescada cozidas mas que foram transformadas em autênticas esponjas de óleo, não comi e como a sopa tinha sido queimada porque o sujeito que se diz cozinheiro estava um bocado, … é tão feio dizer isto, estou cheio de vergonha…, estava um bocado entornado a sopa foi para o galheiro também… Três porque sou um grande guloso de chocolate.

Estamos parados em Setúbal, fundeados. Um aparte, fundeados significa que pusemos a âncora, estamos ancorados. Faço este aparte porque li no Expresso umas notícias e comentários sobre o petroleiro ao largo de Sines, o New Vision que me deixou com a impressão que se sabe muito pouco de navios. E como ia dizendo estamos fundeados em Setúbal á espera de fazer uma abastecimento amanhã. Agora, de noite, além de escrever as minhas memórias neste blogue que ninguém vem cá ler vou ao mesmo tempo desenhando uma nova página, um sítio da internet, chamado de “Jimmy the Sailor Photography”. Eh pá, que se lixe o facto de ser em Inglês, quero que seja internacional, quero que toda a gente possa ver e ler o pouco que vai lá estar escrito, eu que em português já sou um escritor tão marado imagine-se em inglês… ahahaha mas, já tenho visto bostas maiores na Net, o que me importa é que as minhas fotografias sejam vistas pelo pessoal do mundo e não só pelos do cantinho á beira-mar plantado. A não ser que o Sócrates me dê um subsídio para eu pôr em português para promover a revolução tecnológica….

E por falar em revolução tecnológica, era suposto que a juventude de hoje fosse mais escorreita nestas coisas de computadores, Net e coisas afins. Ou eu ando muito desencontrado ou estou enganado pois eu é que tenho ensinado e devia ser ao contrário. Eu sei que existem uns pólos bastante interessantes de pessoas altamente qualificadas nestas coisas de computadores mas começo a aperceber-me que são minoria. A revolução tecnológica é por o pessoal a saber destas coisas, o pessoal anónimo e não só uma elite. Distribuir computadores para que os alunos façam processamento de texto ou umas apresentações de Power Point não é fomentar o desenvolvimento. Para mim é pôr as criancinhas a resolver os velhos problemas de torneiras fazendo pequenas aplicações em VisualBasic (passo a publicidade) para que elas possam despertar para um género de raciocínio que se chama de programação. Eu aprendi a programar sozinho e hoje estou a fazer uma aplicação e a aprender a linguagem ao mesmo tempo, faço-o “just for fun”, mas como ia dizendo aprendi a programar há já bastante tempo e quando saí do mar foi das maiores ajudas que tive no mundo do trabalho em terra pois tinha disciplinado o meu raciocínio para uma forma estruturada e isso devo-o á programação.

Estou envergonhado, só agora reparei que escrevi a frase “quando saí do mar”…. estou todo corado de vergonha. Sim (com voz sumida), saí do mar e trabalhei em terra uns 14 anos, quis estar perto da família e coisas assim. Estive numa empresa de construção civil, na manutenção, numa fábrica de automóveis, na manutenção, numa empresa de vibrações, não mentes distorcidas a empresa não fabrica vibradores, faz análise de vibrações dos equipamentos, uma das formas de diagnóstico dos equipamentos, estive numa empresa de consultoria na área da manutenção, fiz uma saída para uma ilha das Caraíbas para trabalhar na manutenção de um terminal de crude, na área da manutenção e depois… chateei-me e voltei para o mar. Eu gosto de navios, não é á toa que sou o Jimmy the Sailor. Só me chateia um bocado determinadas carências que a vida do mar nos proporciona. A solidão é opressora mas também é libertadora. Como diz a minha mulher, tenho uma relação amor/ódio com o mar.

E estou fundeado em Setúbal. Gosto desta cidade embora já lá não vá há muito tempo, boas recordações….

Hoje estava a ver as notícias quando sou surpreendido pela notícia da morte da Benazir Bhutto, fiquei triste, tinha-me habituado a seguir a trajectória dela naquele país cuja religião e hábitos escravizam a mulher. Tinha 55 anos, mais dois do que eu, e eu considerava-a uma mulher bonita. Tinha a beleza de uma mulher e a beleza da coragem. Só a morte a parou. Espero que agora descanse e paz e que esteja no mesmo céu onde o seu assassino está desesperadamente á procura das tais virgens que lhe foram prometidas. Procurando debaixo de cada pedra com ar desesperado e sempre que levanta os olhos está Benazir a olhar para ele com um sorriso de desprezo, ela na morte rodeada pela sua vida e glória e o assassino apenas rodeado pela sua miséria. Até onde chega a estupidez humana… Fiquei mesmo triste com esta notícia…

Vou ficar por aqui, vou comer mais um pedaço de chocolate, fiquei ansioso . . . . .