domingo, 26 de abril de 2015

Jonas 4 - O caos

O arrulhar dos pombos ouvia-se ao longe, sussurrante, aumentando som á medida que se tomava atenção até se transformar numa ladainha de namorados. Um relâmpago ecoou na escuridão dando início á tempestade, a chuva caía copiosa encharcando o vulto cinzento que percorria lentamente o passeio, descendo a rua, acompanhando o rego de água que transportava todo o lixo da cidade. Rios de água escorriam-lhe pela cara abaixo arrastando consigo as lágrimas mal contidas. Estava tudo acabado, ela fora-se, ela desaparecera da sua vida. A sua paixão tinha-se finalmente fartado e deixara-o. Estou farta de pessoas que me puxam para baixo, quero alegria, exclamara ela quando arrumava as suas coisas e abandonava Jonas na sua solidão. Ele nunca compreendeu o porquê de tal acto, estava tudo tão perfeito, a vida corria ligeira, apenas com alguns sobressaltos, ele nunca entenderia a razão de tal decisão.
A solidão ao princípio era dolorosa, com o tempo tornou-se asfixiante, agora era enlouquecedora, Jonas via sinais dela em todos os pormenores da vida, desde o chilrear de um pardalito até á sombra de uma majestosa nuvem no céu azul, tudo era ela.
Jonas começou a beber mas o único resultado era soltar a sua mente irrequieta deixando-a sem controle, as ideias mais parvas afluíam ao seu cérebro como a corrente de um rio de águas barrentas. Ideias fantásticas, algumas delas de uma sofisticação que deixava os outros abismados, lógica terrível e utilidade nula. E Jonas esmiuçava teimosamente esses pequenos detalhes até á exaustão até que percebeu que esse não era o caminho, deixou de beber, de se intoxicar.
A sua mente, limpa de vapores estava mais acutilante mas o problema persistia, continuava sem entender, nunca entenderia o que não tinha explicação, nunca entenderia as suas razões, era ilógico negar o inegável e no mundo da lógica o oposto era a não existência logo não podia acontecer. Jonas estava não conseguia sair desta armadilha da mente, tão simples e tão mortal. Começou a descuidar a sua aparência que normalmente nunca tinha sido brilhante, ele não via necessidade, dizia que um presente contava pelo que era e não pelo invólucro. Deixou de se alimentar em condições começando a deambular pelo limiar da fome fazendo que os seus sentidos se aguçassem, que todo o seu primitivismo de caçador viesse ao de cimo, andava nas ruas com olhar esgazeado como se procurasse uma presa fazendo com que as pessoas se afastassem de tão sinistra figura. Desta forma, repetindo até á exaustão uma ladainha que era a exposição do seu problema insolúvel Jonas foi apanhado pela tempestade deixando-o lavado de todas as ilusões, afinal havia beleza no caos, como era possível ele não ter visto isso, tinha percebido finalmente ao ouvir uma música dissonante cheia de beleza.
Jonas parou, olhou para as nuvens negras de chuva e finalmente gritou. Um grito longo, dorido. O caos a entupir-lhe o espírito, a alegria da beleza do caos, a dor da perda, tudo se conjugava, tudo se encaixava, no fim o caos maior, a morte reveladora, a passagem para o nada ou para um caos totalmente desordenado onde as certezas duravam o tempo de um pensamento, onde a alegria se fundia com a melancolia, com a dor. Seria o universo um caos tão perfeito? 
Jonas acalmou-se, respirou fundo, estava sentado num banco de um jardim, olhando para a estátua que ele tão bem conhecia, que ele queria conhecer e que estava tão longe que tornaria impossível qualquer ligação,ma estátua de uma bela mulher que contemplava o horizonte que se estendia para lá do oceano, a estátua e a sua amada eram a mesma pessoa, aquela que olhava para além do horizonte e que o deixava totalmente abandonado, ele nunca a teria. Jonas chorou a sua tristeza e tomou a decisão, lutar pelo que queria, pelo que desejava, pelo que amava. Levantou-se e começou a caminhar em direcção ao horizonte, ela lá estaria á sua espera, olhando-o com aquele olhar que o encantava. Caminhava lentamente sentindo o frio a subir-lhe penas acima, o seu destino gelado, a alegria do encontro.
Algo estava errado, abria a boca e tentava aspirar o ar, sufocava quando viu o sorriso, maroto, que o levou.

- Que aconteceu desta vez? Pergunta a rapariga olhando para aquele corpo molhado e macilento.
- O costume! Fugiu á procura de uma loucura e quase se afogou na baía. Este está mesmo passado.
- Coitado! Qual será o problema dele? Pergunta a rapariga curiosa.
- Pelo que balbucia deve ser coisas de saias, alguma que lhe fugiu e ele queimou os fusíveis.
O homem aproximou-se da rapariga, abraçou-a, puxando-a para si e faz-lhe uma festa.
- Gostei de te encontrar e de certeza que ficaria assim se te fosses embora!
- Credo homem! Estou bem assim, não comeces a stressar com o que não existe, com que não aconteceu.
- Eu sei. Mas começo a entender esse desgraçado. Desejar e não conseguir ter é uma dor muito grande. Existem pessoas que conseguem enterrar o assunto, outras arranjam substituições, outros, muitos infelizmente fazem merda, agridem o que não podem ter. Os que realmente amam, não só não esquecem como não enterram, enlouquecem pura e simplesmente. Este desgraçado deve estar nesse grupo. Eu começo a compreender e temo pertencer também.
- Não sejas tolo, começámos a namorar há meia dúzia de dias e já estás nesse estado. E eras tu que chamavas de maluco a este desgraçado.
O homem suspirou e nada disse, já não havia nada a dizer, não queria falar do assunto, ela dominava-o totalmente. O seu sorriso, o seu olhar, o aroma do seu pescoço, o contacto da sua pele. O modo como ela respirava ao seu ouvido quando faziam amor, o modo como gemia quando ele mergulhado no seu íntimo lhe arrancava orgasmos atrás de orgasmos, a energia que fluía entre eles. Não havia igual, não havia substituição, nunca haveria esquecimento, ele tinha a certeza de que nunca se libertaria, só a morte o separaria. Sorriu tristemente, essa alegria imensa causava uma grande ansiedade. No dia em que ela partisse ele morreria.

- Vamos tratar dele, mudar-lhe a roupa! Exclama o homem de supetão afastando os fantasmas que começavam a assolar o seu espírito.  
- Sim, vamos! Responde a rapariga com olhar interrogador para o seu novo namorado. Que se estava a passar naquela cabeça tonta de macho na época de acasalamento?
Acabaram rapidamente o trabalho e afastaram-se para a sala de descanso. Um silêncio incómodo tinha-se instalado, iniciando um dolorosa separação, o terror que o homem temia.
Conheceram-se no trabalho, tinha sido a situação do desgraçado que os tinha unido e agora era o mesmo desgraçado que tinha iniciado o processo corrosivo da separação. Ele tinha-se mostrado obsessivo e ela tinha-se assustado, um grão na engrenagem de uma relação inicia o seu desgaste, se não for contido rápida e eficazmente tudo ruiria. Ele tinha de agir rapidamente. Mas como? Elas eram o que mais se assemelhavam ao caos, a incerteza é uma religião para as mulheres, ele tinha de ser rápido.
Com estes pensamentos, essas dúvidas ele adormeceu não notando o olhar perscrutador dela, olhava-o fixamente tentando avaliar o que valeria aquele homem quando acabou por adormecer também, abraçada a ele, sentindo a segurança da sua presença.

Jonas olhava fixamente o tecto branco do quarto,numa pequena nódoa negra incomodava-o, era o caos naquela brancura total.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Jonas 3 - O pesadelo

- Não estarás a exagerar na dose? Pergunta a rapariga com um tom de voz preocupado. Ele assim arrisca-se a não acordar ou ficar com alguma lesão!
- Já reparaste na fita que este gajo faz sempre que acorda? Impossível tratar dele, sempre aos gritos, parece que o estão a matar! Exclama o enfermeiro com ar enfadado. Além disso não nos pagam para tratar de malucos mas sim de os manter calmos. Este a dormir não chateia ninguém!
- Achas que ele dorme? Olha para o movimento dos olhos! Olhas as tremuras. Se ele morre juro que te denuncio, não quero merdas a pesar-me na consciência!
- Também me saíste uma boa caguinchas! Vou cortar-lhe o soro, leva o resto amanhã quando cá não estiveres. Chata do caraças! Este merdas só me dá chatices!

Jonas flutuava num limbo, mansamente flutuava ao sabor das nuvens que o arrastavam numa brisa fresca. Jonas estava feliz, estava com a sua amada, queria-a muito. Olhou para o seu rosto bonito, pálido e beijou-lhe mansamente os lábios frios. Um ligeiro aroma adocicado emanava dos cabelos que estranhamente estavam a perder o brilho de seda, os cabelos estavam a ficar ásperos, mortiços. Jonas olhou para o corpo da sua amada e chorou longamente, sentia uma saudade avassaladora dos seus beijos, do seu hálito quente e ao mesmo tempo fresco com sabor a morangos, do calor do seu colo, do seu sussurrar ao seu ouvido, contando-lhe o seu amor, a sua paixão. As lágrimas de desespero corriam, torcia as mãos, uma dor pungente apertava-lhe o peito. Queria gritar e não conseguia articular um único som. Ele queria-a, necessitava dela, e ela ali perto e ao mesmo tempo tão longe.
O grito começou a nascer do fundo da sua alma, mansinho, aumentando de intensidade até se transformar num uivo de lobo acossado pelo medo da solidão, pelo terror da saudade, um grito que ressoava no seu cérebro, as veias dilatadas de esforço, o coração a saltar até que algo cedeu.
Inicialmente foi apenas uma tontura que depressa desapareceu, lentamente um mal estar geral invadiu Jonas, uma agonia, uma dor, uma pressão. Depressa percebeu que perdia rapidamente capacidades e sentidos, a luz turvava-se, os sons agravavam-se, o universo morria á sua volta, devagar. Jonas olhou para o rosto da sua amada, pálido com um tom doentio, sorriu-lhe e beijou desajeitadamente os seus lábios ressequidos e frios com um sabor a morte, Jonas soluçou, Jonas chorou e finalmente quebrou caindo desarticuladamente no chão como um boneco de trapos.

A máquina apitava estridentemente ressoando pelos corredores vazios. A rapariga de cabelos desalinhado por estar a dormitar na sala de descanso corria desajeitadamente até alcançar o botão que desligava o alarme correndo em seguida para acudir o doente.
- Calma! Gritava ela. Calma, que já passa! E começou a injectar um calmante no soro.
Jonas contorcia-se na cama alagado em suor, de olhos escancarados e quase desorbitados gritava num silêncio pungente, o grito não saía. Á medida que a droga começava a fazer efeito os movimentos acalmavam-se até pararem, Jonas dormia um sono sintético, uma negrura sem fim  sem consciência, o nada.
- Eu disse-te que devíamos ter dado a droga mais cedo! Exclama o homem da ombreira da porta olhando divertido para a rapariga que ainda arquejava com o esforço despendido.
Olhava para ela começando a notar com uma certa surpresa algo que não tinha visto antes. Uma aura de beleza que a envolvia, um aroma quente de mulher, u m olhar de quem necessita de um ombro. Ela era bonita, com aquela beleza discreta mas que encanta. O homem sentiu-se perdido, afogou-se no encanto e desistiu de lutar.
- Anda, eu ajudo-te com ele! Está todo molhado, vamos lava-lo e mudar-lhe a cama!
- Que te deu agora para estares tão prestável?
- Nada mas este merdoso acabou de me fazer ver umas certas coisa que me estavam a passar ao largo. Eu pura e simplesmente não as via. Este merdoso com os seus ataque fez-me ver!
- Não estou a entender nada dessa conversa! Exclama a rapariga olhando para ele com ar desconfiado. Isso cheira-me a esturro.
- Não ligues e vamos acabar a muda e depois pago-te um café.

Tomavam o café juntos na cafeteria,num café de saco já um bocado requeimado quando ela pergunta de chofre.
- Que raio ele te fez ver? 
- Tu!
- Ãhh?
- Sim tu! Se não fosse este alarme eu não te veria como te vi e nunca me teria apaixonado. Fiquei perdido.
- Tás a brincar comigo, só pode! Exclama a rapariga com total surpresa no tom de voz.
- Antes estivesse. Nunca me deu isto mas... Deixa andar! Amanhã ou logo veremos o que se passa ou se já passou! Exclama o homem enterrando o nariz no interior da chávena.
Ela ficou a olhar para ele, inicialmente com desconfiança mas á medida que o tempo passava a sua postura começou a amenizar. O gajo era parvo mas parecia que a parvoíce estava a desaparecer, até se mostrava simpático.
Os dias passavam e aqueles dois começaram a trabalhar juntos, a conversar mais, a trocar ideias, a aproximarem-se.


23 de Abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Jonas 2 - O naufrágio

O sol era abrasador e o sabor a sal tudo inundava. Tossindo, engasgando-se Jonas levantou-se de um pulo, tossindo, caindo, desequilibrando-se. O bote era pequeno e instável, semi inundado de água vogava no meio do oceano de pequenas vagas sem vento e sem nuvens. O sol era abrasador e sede avassaladora.
Meio perdido, confuso Jonas olha em redor avaliando a situação, um leve sentimento de "dejá vu" inundava-lhe a alma. Estava perdido, tinha-se perdido apenas o sol lhe fazia companhia queimando-o, secando-o. A água era fresca, tentadora e fluía entre os seus dedos com voluptuosidade. Jonas lava a sua cara com essa frescura, molha-se, refresca-se deixando a água a escorrer ao longo da sua cara macilenta, olha o céu e umas gotas entram-lhe fresca pela boca adentro. A tentação é enorme, aquele sabor a sal, sabor a mar fazem com que as memórias lhe saltem para o espírito fazendo-o suspirar. Aquele sabor, aquele aroma, a frescura da vida foi demais para o seu espírito enfraquecido pela solidão, pela sede, pela fome.
Enlouquecido mergulhou a cara no âmago do oceano e bebeu o seu intimo, saciou-se, encheu-se, sentiu-se pleno. O mar continuou sereno embalando Jonas suavemente marulhando-lhe canções de embalar fazendo com que Jonas gemesse as dores de uma vida perdida nos recônditos do tempo. Jonas estava só, perdido no meio do oceano, vogando suavemente ao longo da vida.
A sede apertava, a garganta queimada da água salgada fazia-o tossir,mum vómito salgado assolava-lhe a boca e nada havia a fazer, apenas esperar pela noite para que a sua frescura trouxesse algum alívio.
Um encontrão na sua jangada, uma sacudidela violenta desperta Jonas dos seus sonhos e fantasias fazendo-o sentar-se e ver o que se passava. Á sua volta apenas uma gaivota perdida o olhava surpreendida pois não entendia como aquele bicho barbudo estaria ali a fazer, limitou-se a grasnar o seu desprezo e afastar-se. Jonas olhou o mar, perscrutou o mar tentando compreender o sucedido quando uma sombra negra passa lentamente ao longo do bote, raspando-se nela, empurrando, provocando. Uma sombra enorme logo seguida por outras de vários tamanhos rodeavam a embarcação, ameaçadoras, apenas esperando o inevitável, o festim, o sabor a carne, o sabor a sangue.
A sede, a fome, o sol torturavam Jonas lentamente levando-o á loucura. O torno da solidão começou a esmagar o seu peito num abraço mortal, uma solidão morna, lenta, insidiosa que o matava lentamente levando-o ao desespero.
Jonas desesperava entre mergulhar no meio do oceano de sabor a sal ou cair nas fauces dos tubarões que o rodeavam silenciosos, mortíferos. Jonas queria saltar, em toda a sua vida Jonas saltou, nunca teve mede de dar um passo, e cair no inferno da desilusão, da ilusão, da solidão. O horizonte estendia-se separando os azuis, todos profundos como a sua alma. O sol brilhava na sua cabeça exultando-o a novo salto, a novo passo em frente. O sabor tentador do sal, picante de vida aliciava-o.
Desesperado mergulhou num turbilhão de espuma fresca que o envolveu como só uma amante é capaz de fazer, envolveu-o num abraço fresco, quente, terno. De olhos fechados Jonas mergulhou, feliz quando o sabor a sal lhe inundou a boca, os pulmões. Sôfrego abriu os olhos, ansiava por ar, uma golfada era tudo o que necessitava, ar para mergulhar de novo, a paixão do salgado, da envolvência. Abriu os os olhos e ainda conseguiu ver uma fiada de terríveis dentes a fechar-se sobre a sua cabeça, olhando para as entranhas de um tubarão sentiu um choque e adormeceu.

Jonas acordou de sobressalto, onde estava, porque estava amarrado, gritou o seu desespero. Deitado numa cama branca, num quarto branco Jonas gemia, a sua paixão fugia, afastava-se e perdia-se no interior do seu espírito já tão macerado.
Mais calmo, sorriu, nunca mais esqueceria aquele beijo salgado, calmo adormeceu profundamente.
Na sala ao lado a rapariga de serviço suspirou, a linha do monitor estava calma outra vez, aquele não morreria hoje.

23 de Abril de 2015

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Jonas 1 - A travessia do deserto

Jonas caminhava lentamente, pesadamente, todo um peso de uma existência em cima dos seus ombros que começavam a denunciar os anos de desgaste, a pele a enrugar, os músculos a mirrar. Jonas caminhava de olhar perdido no horizonte sem fim, torrado pelo sol abrasador do meio dia.
As areias finas entravam escaldantes como jorros de lava nos seus sapatos já gastos da caminhada e dos anos. Os grãos ardentes entravam em contacto com a pele e cada passo era como se de uma lixa esfregasse a pele já vermelha de sangue e aguadilha das imensas bolhas que apareciam e borbulhavam devido á caminhada sem fim. A dor dos pés há muito que tinha sido ignorada, os lábios gretados e ressequidos abriam-se num grito mudo de uma sede imensa por saciar.
Os olhos, queimados pelo sol, irritados pela poeira gritavam e tentavam futilmente soluçar, chorar por uma lágrima perdida que conseguisse trazer um pouco de alívio, as imagens já eram indefinidas, apenas a linha do horizonte bailava ao sabor das vagas de calor separando um azul cru de um amarelo torrado pelo sol.
Jonas caminhava, tinha de chegar ao seu destino, era de sua responsabilidade o simples facto de chegar, os custos não interessavam, poderia morrer depois mas só depois de chegar. Jonas cumpria a sua obrigação como sempre fez, como sempre viveu, caminhando, atravessando mares e oceanos, pântanos e desertos, nunca parando.
Arfava, respirar era penoso, as vias todas ressequidas exauria-lhe as forças, tentava chupar a língua para obter um pouco de saliva afim de humedecer a garganta, o simples acto de respirar fazia com que o deserto lhe roubasse cada vez mais água, precisava de beber, precisava de descansar.
Já há muito que tinha deixado cair um sapato, não tinha tido coragem de voltar um passo atrás e apanhá-lo, o esforço teria ido demasiado violento, automaticamente o seu pequeno cérebro dava a ordem ás pernas para se moverem alternadamente. A planta do pé em sangue, a areia a entrar pelos pequenos rasgões entranhando-se na carne, a dor de tão intensa já tinha passado para outro estágio, apenas uma muito intensa fadiga o invadia. Um fim do dia que se punha, transformando as cores em sépias e anis, escurecendo a visão carregando consigo um mal estar tão intenso que Jonas começou a vomitar, inicialmente um pouco de ácido que o seu estômago ainda conseguia produzir e no fim apenas convulsões gritantes. Jonas arrepanhava a boca num ríctus de esforço, não parava, não vacilava e a noite punha-se estrelando o céu de cintilações cada vez mais brilhantes até ao oblívio.

Numa cama branca, num quarto todo branco de paredes acolchoadas um homem e uma mulher olhavam para o vulto que se contorcia, amarrado numa camisa de forças. O homem estava desacordado mas remexia-se num pesadelo que só ele conhecia, que só ele vivia.
- Este parece que queimou os fusíveis, foi encontrado numa praia a andar sem destino até cair! Exclamou o homem vestido de branco a condizer com a sala. Por enquanto nasceu outra vez pois foi encontrado mesmo no limite.
- Quem é? Sabem quem é o sujeito? Pergunta a jovem mulher.
- A polícia não tem a certeza, tinha um bilhete meio apagado com uma nota escrita por mão de uma criança onde se lia: "jonas o meu v..." O resto estava ilegível. Mas ficou registado como Jonas.
Que significará o "v"?
- Pelo aspecto dele só se for de velho! Responde o homem soltando uma gargalhada.

Jonas ouviu um som conhecido ao longe, ecoando em paredes e labirintos. O som ecoava cada vez mais forte até Jonas o identificar, o som de uma gargalhada, alguém se ria alarvemente de uma estúpida piada qualquer irritando Jonas, tirando-o do seu limbo. Já colérico abriu os olhos.

- Olha! Disse a jovem mulher. Ele acordou!
- Porra, logo agora no fim do nosso turno. E sem hesitar dá uma injecção de um calmante qualquer atirando Jonas para um limbo sem história, desligou-se novamente.

Jonas abriu os olhos e chorou, estava no início do seu deserto outra vez. Sentou-se no chão e chorou convulsivamente sendo apenas ouvido pelas pequenas pedras que se banhavam na areia escaldante.
Levantou-se e começou a andar...



22 de Abril de 2015   

terça-feira, 21 de abril de 2015

O leopardo

O velho leopardo quedava-se imóvel no seu tronco preferido da maior árvore das redondezas. Vigiava a savana pachorrentamente, estava calor, o sol estava a pique queimando a erva seca, secando as gargantas, asfixiando a respiração. O calor subia dançando ao sabor de uma leve brisa ardente e transformando as imagens no horizonte em bonecos articulados por fios de calor. O velho leopardo arquejava lentamente, olhos semicerrados sonhava com glórias antigas, caçadas fenomenais, as fêmeas da região que ele de vez em quando se sentia compelido em perseguir e essencialmente sonhava com a sua adorada savana, terra de contrastes, ora verde e fresca ora queimada pelo sol, a sua cor parda que tudo escondia, que tudo disfarçava.
A sua vida era calma, até os seus adversários de caça não o incomodavam muito, havia um conjunto de regras não escritas que os grandes animais respeitavam normalmente.
O velho leopardo deitado no seu tronco preferido começou a sentir um pequeno desconforto, uma pequena dor, uma moinha a roer-lhe o estômago, a fome a instalar-se começando a destruir-lhe a disposição trocando a placidez por um estado de alerta, o olhar atento, a busca iniciava-se. E tudo isso sem mexer um músculo, notando as alterações apenas nos olhos. Fixos no horizonte, fixos nos detalhes até algo lhe despertar a atenção começando assim o ritual da caça.
A presa deambulava pelo capim seco dando-se ao luxo de escolher as ervas menos secas, aquelas que ainda retinham alguma humidade. Mordiscava-as delicadamente e ia-se alimento. A jovem presa de pelo castanho escuro destacava-se do imenso amarelo torrado da savana chamando a atenção do leopardo que se quedava imóvel observando, medindo, analisando. O velho leopardo se tivesse consciência julgar-se-ia um filósofo, um analisador de comportamento. Essas capacidades não só o divertiam como contribuíam muito para o seu sucesso.
A fome já se tornava incómoda fazendo-o roncar de impaciência, gesto descuidado que provocou um aumento do silêncio na savana.
O amarelo espalhava-se para além do horizonte entrecortado por parcas árvores totalmente despidas de folhas embora algumas estivessem flamejantes com as sua flores vermelhas. O vento tinha parado, os grilos calaram-se e até a irreverente macacada se calou, um dos grandes tinha-se manifestado e isso significava perigo, significava que alguém ía morrer, que alguém seria sacrificado para os outros viverem. Secretamente todos desejavam que fosse o parceiro do lado mas consciência é uma coisa que não perdura nas espécies destinadas ao sacrifício. A vida correu plácida derramando em nova aragem de ar asfixiante.
A presa aproximou-se lentamente da árvores, aquela nesga de sombra atraia-a sedutora, estava cansada e com calor, estava feliz e era jovem.
O velho leopardo ondulou e deslizou o seu corpo para posição de ataque de uma forma tão subtil que nem um raspar na casca da árvore provocou, apenas uma ligeira alteração na forma do seu corpo embora envelhecido ainda era vigoroso.
Duas vidas se juntavam, o destino parecia inevitável, a natureza seguia o seu rumo, o ataque era inevitável. O leopardo começou a tremer, músculos retesados prontos para a acção, a antecipação do gosto fresco de sangue quente da sua vítima fazia vibrar de excitação, de antecipação. O prazer era imenso, a adrenalina sufocava-lhe o cérebro, pacientemente esperava o momento certo.
A presa mordiscando ervas tenras passeava-se placidamente quando algo lhe desperta a atenção, uma vibração,num pressentimento, uma sensação. Não está só, algo a observa, algo a deseja, a inquietação a instalar-se. Procurando em seu redor nada vê, seus olhos perscrutam as redondezas e o nada é-lhe devolvido em tons de amarelo torrado. Já se acalmando levanta a cabeça, com graça, movimento fluido de presa e olha para cima.
O velho leopardo sente uma descarga a percorrer-lhe o corpo, um sentimento electrizante imobiliza-o. Os olhos do leopardo e presa encontram-se finalmente. A presa sorri, tímida mas decidida. O leopardo semicerra os olhos ameaçadoramente e continuam a olhar um para o outro. Esperando um movimento e comunicando com expressões de linguagem corporal.
A presa, com graça manteve-se decidida no mesmo local, as ervas eram aí mais verdes e sem deixar de mirar o leopardo desafiou-o continuando a mordiscar mas sem nunca desviar o olhar.
O velho leopardo levanta-se lentamente, espreguiça o seu velho corpo ainda flexível e salta para o chão aproximando-se lentamente da presa. Estava fascinado, aquele olhar fazia-o sonhar, memórias antigas, memórias doce. Em posição de ataque aproximou-se, o cheiro da presa embriagava-o, o corpo cheio de adrenalina. Lentamente aproximou-se, estacou a menos de um metro, o campo de visão totalmente preenchido pelo corpo da presa, o olfacto saturado do seu aroma, o velho leopardo rugiu:
- Amanhã é outro dia!
Deitando um último olhar deu meia volta e afastou-se, com uma dor surda a roer-lhe as entranhas. 



21 de Abril de 2015    

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Nasce o dia

Nasce o dia
Morre uma noite
Apagam-se as estrelas
O brilho aumenta 
Escondendo o cintilar
Nasce o dia
E mais uma lágrima cai
Espreita
Mais um dia
Para chorar
Para rir
Do nada
Da noite que se aproxima

Sonhos que acordam
Cruas realidades
Sonhos que morrem
Com o maldito dia
Que teima em nascer

Novo dia, nova luta
Nova esperança
De um beijo
Que nunca acontecerá


Nasce o dia em Ponta Delgada a 20 de Abril de 2015

O deserto com flores

Areia ardente e agreste
Caminho meio louco
De sede
Quero beber, saciar-me
Flor do deserto
Teu sumo sacia minha sede
Meu desejo
Caminho meio louco
Balbucio ideias loucas
Estou louco
No deserto
De ardentes areias
Flor numa miragem
Oásis de leite e mel
Caminho
Sem destino
Sem fim
Queimando-me
Nas areias do deserto


18 de Abril de 2015