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terça-feira, 16 de agosto de 2016

O chefe

Jonas tinha-se evaporado, tinha explodido num turbilhão de emoções, tinha-se transformado. Era agora um animal errante, percorrendo a savana, longe do bando, longe de tudo. Ferido na alma, esfomeado de emoções gargalhava.
Corria ouvindo o som do vento cantar-lhe canções cheias de dor fazendo crescer o monstro que o dominava, o monstro adormecido nas cavernas, acorrentado, sobrevivendo á míngua. O monstro crescia dentro dele, sobrepunha-se ao seu ser. Gritava lágrimas de dor, cuspia veneno que salpicando ao vento lhe enchia os olhos de lágrimas. Chorava uma vida que ainda não tinha vivido, uma vida que viveu, a vida que vivia, percorrendo a savana deserta, cor de terra queimada pejada de carcaças de outros que antes se tinham aventurado por estas terras. Corria selvagem, baba a escorrer, a fome a queimar-lhe as entranhas, corpos putrefacto cobertos de moscas que fugiam á sua passagem, a loucura a aumentar, a dor que deixou de o ser, apenas uma explosão de luz no seu cérebro que apenas continuava desperto por uma questão de teimosia, tudo tinha caído, a morte era inevitável, sempre inevitável. A morte no topo de um galho seco de uma árvore morta projectando uma magra sombra na savana, a morte ria-se, a morte suspirava, uma alma que passava.
Jonas acordou do seu sonho olhando em redor, reconhecendo a escuridão que o protegia, que o acolhia no seu seio, frio e inerte. Jonas suspirou e lembrou-se da fome, do ardor das entranhas que se alimentavam de si mesmo caminhando para uma autodestruição anunciada. Sorriu, um sorriso, um esgar de vida e levantou-se, dorido, músculo desfeitos, esforços imensos de uma noite a correr, tentando sobreviver.
Ligou a televisão e foi saudado por um ecrã negro, ligou o filme e as imagens começaram a cair numa cascata de emoções, o som ecoava na sua cela, um lamento longo cheio de significado, uma dor lenta, persistente alguém que sofria horrores, torturas indescritíveis, o sangue espirrava ensopando a madeira antiga deixando-a com matizes de vermelhos e castanho. Onde o sangue se acumulava mais reinava o negro.
O som do chicote era esperado, logo seguido de uma farpa aguda que lhe lancetava parte da pele, cortando-a, marcando cada látego um pecado. O pecado da existência, o pecado do livre arbítrio. Jonas sorria, cada chicotada uma vitória, uma dor, um passo mais para a sua campa.
Jonas tinha sono, queria dormir, o último sono, estava cansado e só pensava na loucura que era, a sua vida, o que tinha sido, as suas imensas vidas. O cansaço invadia o seu espírito como uma maré de equinócio, lenta mas imensa, de uma praia vazia a um mar alteroso que tudo cobria. Águas negras, moles, escondendo monstros que se faziam sentir, ondas de pressão , ondas de terror que lhe enchia o espírito levando o seu coração a bater, ao som da música que ouvia, ecoava, na sua cela.
Jonas sentou-se, lágrimas nos olhos e sentia-se aquela besta a correr, sem destino, naquele deserto que era o seu sonho. Lágrimas correram, Jonas chorava, já sem razão, chorava o vazio de uma existência que o fazia correr.
A realidade, a dureza da realidade, o dever, esse maldito que move mundos, que move o mundo de Jonas apareceu, mostrou-se, fez valer a sua força escravizando o livre arbítrio de Jonas, fazendo-o levantar-se, secar os olhos, abrir a porta e enfrentar a sua equipe.
- Que temos hoje? As avarias continuam não é? Vamos aguentar, é para isso que aqui estamos!!
Com ar decidido pôs-se á frente da situação enfrentando o desconhecido.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Jonas 1 - A travessia do deserto

Jonas caminhava lentamente, pesadamente, todo um peso de uma existência em cima dos seus ombros que começavam a denunciar os anos de desgaste, a pele a enrugar, os músculos a mirrar. Jonas caminhava de olhar perdido no horizonte sem fim, torrado pelo sol abrasador do meio dia.
As areias finas entravam escaldantes como jorros de lava nos seus sapatos já gastos da caminhada e dos anos. Os grãos ardentes entravam em contacto com a pele e cada passo era como se de uma lixa esfregasse a pele já vermelha de sangue e aguadilha das imensas bolhas que apareciam e borbulhavam devido á caminhada sem fim. A dor dos pés há muito que tinha sido ignorada, os lábios gretados e ressequidos abriam-se num grito mudo de uma sede imensa por saciar.
Os olhos, queimados pelo sol, irritados pela poeira gritavam e tentavam futilmente soluçar, chorar por uma lágrima perdida que conseguisse trazer um pouco de alívio, as imagens já eram indefinidas, apenas a linha do horizonte bailava ao sabor das vagas de calor separando um azul cru de um amarelo torrado pelo sol.
Jonas caminhava, tinha de chegar ao seu destino, era de sua responsabilidade o simples facto de chegar, os custos não interessavam, poderia morrer depois mas só depois de chegar. Jonas cumpria a sua obrigação como sempre fez, como sempre viveu, caminhando, atravessando mares e oceanos, pântanos e desertos, nunca parando.
Arfava, respirar era penoso, as vias todas ressequidas exauria-lhe as forças, tentava chupar a língua para obter um pouco de saliva afim de humedecer a garganta, o simples acto de respirar fazia com que o deserto lhe roubasse cada vez mais água, precisava de beber, precisava de descansar.
Já há muito que tinha deixado cair um sapato, não tinha tido coragem de voltar um passo atrás e apanhá-lo, o esforço teria ido demasiado violento, automaticamente o seu pequeno cérebro dava a ordem ás pernas para se moverem alternadamente. A planta do pé em sangue, a areia a entrar pelos pequenos rasgões entranhando-se na carne, a dor de tão intensa já tinha passado para outro estágio, apenas uma muito intensa fadiga o invadia. Um fim do dia que se punha, transformando as cores em sépias e anis, escurecendo a visão carregando consigo um mal estar tão intenso que Jonas começou a vomitar, inicialmente um pouco de ácido que o seu estômago ainda conseguia produzir e no fim apenas convulsões gritantes. Jonas arrepanhava a boca num ríctus de esforço, não parava, não vacilava e a noite punha-se estrelando o céu de cintilações cada vez mais brilhantes até ao oblívio.

Numa cama branca, num quarto todo branco de paredes acolchoadas um homem e uma mulher olhavam para o vulto que se contorcia, amarrado numa camisa de forças. O homem estava desacordado mas remexia-se num pesadelo que só ele conhecia, que só ele vivia.
- Este parece que queimou os fusíveis, foi encontrado numa praia a andar sem destino até cair! Exclamou o homem vestido de branco a condizer com a sala. Por enquanto nasceu outra vez pois foi encontrado mesmo no limite.
- Quem é? Sabem quem é o sujeito? Pergunta a jovem mulher.
- A polícia não tem a certeza, tinha um bilhete meio apagado com uma nota escrita por mão de uma criança onde se lia: "jonas o meu v..." O resto estava ilegível. Mas ficou registado como Jonas.
Que significará o "v"?
- Pelo aspecto dele só se for de velho! Responde o homem soltando uma gargalhada.

Jonas ouviu um som conhecido ao longe, ecoando em paredes e labirintos. O som ecoava cada vez mais forte até Jonas o identificar, o som de uma gargalhada, alguém se ria alarvemente de uma estúpida piada qualquer irritando Jonas, tirando-o do seu limbo. Já colérico abriu os olhos.

- Olha! Disse a jovem mulher. Ele acordou!
- Porra, logo agora no fim do nosso turno. E sem hesitar dá uma injecção de um calmante qualquer atirando Jonas para um limbo sem história, desligou-se novamente.

Jonas abriu os olhos e chorou, estava no início do seu deserto outra vez. Sentou-se no chão e chorou convulsivamente sendo apenas ouvido pelas pequenas pedras que se banhavam na areia escaldante.
Levantou-se e começou a andar...



22 de Abril de 2015   

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O deserto com flores

Areia ardente e agreste
Caminho meio louco
De sede
Quero beber, saciar-me
Flor do deserto
Teu sumo sacia minha sede
Meu desejo
Caminho meio louco
Balbucio ideias loucas
Estou louco
No deserto
De ardentes areias
Flor numa miragem
Oásis de leite e mel
Caminho
Sem destino
Sem fim
Queimando-me
Nas areias do deserto


18 de Abril de 2015