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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O cão



Acordei
Sonos, sonhos revoltos
Distantes, escuros, sem sentido
Acordei, sem ver
Instinto, o calor procuro
A fome, a teta procuro
Empurram-me, gano mansamente
Língua quente, molhada me enrola
Chupo, sugo, mordo
A fome, insaciável corrói 

O fundo do buraco, negro
A luz que entra fugaz
O mundo se revela
A morte se revela
Gritos, guinchos, sangue
Irmãos que desaparecem
Num terror em forma de focinho

Sobrevivo, órfão de irmãos 
Órfão de mãe que uma besta levou
Um guincho, um grito, um embate
E a morte chegou
Deixando-me só 
Filho de pai incógnito
Filho da matilha
Que se dispersou sem nobreza
No dia em que o cheiro morreu
Para eu nascer

A fome visitou-me
A fome deu-me coragem
Saí para o mundo
Enfrentei a luz, corri, patas pequenas
Ser mal feito, desengonçado
Filho do acaso, de pais do acaso
Corri
A fome sempre presente
Cheiros, aromas e perfumes
Desconhecidos, atraentes
Corri, pequeno e assustado
Desesperado

Comida, o cheiro de algo
Instinto me chama, comida
Sacio-me de sabores estranhos
Primeira lição de uma vida
Nunca deixar de olhar
Atacam-me aos gritos
Navalhas cortam-me o corpo
Gritos ensurdecem-me, atordoam-me
Corro, fujo, pânico, terror
Ser estranho me ataca, miando

A vida continua, numa guerra
Surda e mortal
Cheio de cicatrizes cresço
Roubando comida
Ao gato das redondezas roubo
A minha sobrevivência 

Com o tempo a minha área cresce
Diferentes pontos de comida
Diferentes cheiros, ruídos e sons
Aquele gravado que me faz correr
Em pânico
Numa saudade imensa
Aquela língua quente e reconfortante
Não me sai da memória 
Desapareceu com esse som

Mais solto, mais atrevido
Percorro as ruas, marcando
Sem pudor
Todos os cheiros que me desafiam
Não resisto
Marco o mundo
Marco o universo
Até o gato me respeita agora
Cresci

A fome que não desaparece
O frio que aperta
A chuva que me encharca a alma
No meu pequeno buraco
Meu berço
Tirito de frio

Dias cinzentos cobrem o universo
Dias de inverno tolda-me o espírito 
Tenho fome
Estou sempre com fome
Lambo as minhas patas
Distraindo-me com o meu sabor
Adormeço cansado, sonhando
Dias idos, a felicidade ida
Teta cheia de leite, carinhosa
Calor e carinho
Sonho ganindo mansamente

O tempo passou, os anos passaram
A marcação do universo despertou
A ira, a raiva, a inveja
De outros
Párias como eu, donos do mundo
Poderosos no mundo, em matilha
Perseguiram-me, atacaram-me
Fui sobrevivendo
A fome atacou-me de novo, sempre
A morte do meu amigo, o felino
Sempre mal disposto mas tolerante
A sua morte no meio da matilha
Inglória 
Deixou de encher o prato
Pedaço de carne e pelo ensanguentado
No chão exposto
Ratos e formigas em festim
Chorei a sua partida
Lambi-o tentando reviver
Desesperadamente
Aqueles olhos, aquele miado
Em vão
A vida era morte outra vez

O dia raiava, o sol brilhava
Algo no ar era diferente
O cheiro
A loucura que entorpece
Meu corpo estava estranho
A minha mente não me obedecia
Aquele estranho odor em tudo penetrava
A fome esquecida
O medo esquecido
Corri
Procurei desesperadamente
E vi-a
Era ela, ser pulguento
Ar miserável que corria
Perseguida pela matilha
Correndo e espalhando o aroma
Que a enchia de beleza
Era ela, o meu destino
O instinto foi mais forte
Corri e atirei-me que nem um louco
Cheirei-a e a felicidade entranhou-se
A alegria, a loucura era tal
Que meus quadris se moviam
Numa dança louca, erótica
Eu queria-a
Era minha
Montei-a
E fui violentamente atacado
O chefe da matilha
Dono de tudo
Besta enorme filou o meu quadril
Dei luta
Não tinha medo
A paixão tudo dominava
Lutei contra a besta
Lutei contra a matilha
Exangue, no chão, vi

Um miserável ser penetrando
A paixão que era minha
A besta, a matilha, eu
Distraídos na refrega
Numa luta inglória, sem fim
Fomos ultrapassados
Pelo inútil que ninguém deu crédito

O cheiro desapareceu no ar
Trancado pela penetração do inútil
Agora agarrado pelo destino da erecção
Que o aprisionou ao destino
Morto pelos seus
Numa vingança impiedosa
Seu sémen sobrevivendo
No útero de uma sem destino
Parindo um dia numa cova escura

Afastei-me sangrando
A refrega tinha deixado as suas marcas
O sangue pingava
Coxeava
A dor penetrava no cérebro
Acutilante

Cambaleando entrei
Um buraco escuro
Fresco
Enrolando-me confortei-me
Lambi as minhas feridas
Recordando alegrias há muito idas
Aquela língua quente e carinhosa

Um som diferente
Um ser diferente
O terror a avançar, mostrei os dentes
A voz acalmou-me
Deu-me um pedaço de comida
Gani
Deixei-me ir.

A escuridão aumentou
Lentamente
O frio invadiu o universo
A vida transformou-se numa toca
Um buraco que se estreitava
Até o negro tudo invadir
Gani pela última vez
Um último adeus
A uma vida de cão.



Jimmy, 04 de Setembro de 2016
A navegar

terça-feira, 21 de abril de 2015

O leopardo

O velho leopardo quedava-se imóvel no seu tronco preferido da maior árvore das redondezas. Vigiava a savana pachorrentamente, estava calor, o sol estava a pique queimando a erva seca, secando as gargantas, asfixiando a respiração. O calor subia dançando ao sabor de uma leve brisa ardente e transformando as imagens no horizonte em bonecos articulados por fios de calor. O velho leopardo arquejava lentamente, olhos semicerrados sonhava com glórias antigas, caçadas fenomenais, as fêmeas da região que ele de vez em quando se sentia compelido em perseguir e essencialmente sonhava com a sua adorada savana, terra de contrastes, ora verde e fresca ora queimada pelo sol, a sua cor parda que tudo escondia, que tudo disfarçava.
A sua vida era calma, até os seus adversários de caça não o incomodavam muito, havia um conjunto de regras não escritas que os grandes animais respeitavam normalmente.
O velho leopardo deitado no seu tronco preferido começou a sentir um pequeno desconforto, uma pequena dor, uma moinha a roer-lhe o estômago, a fome a instalar-se começando a destruir-lhe a disposição trocando a placidez por um estado de alerta, o olhar atento, a busca iniciava-se. E tudo isso sem mexer um músculo, notando as alterações apenas nos olhos. Fixos no horizonte, fixos nos detalhes até algo lhe despertar a atenção começando assim o ritual da caça.
A presa deambulava pelo capim seco dando-se ao luxo de escolher as ervas menos secas, aquelas que ainda retinham alguma humidade. Mordiscava-as delicadamente e ia-se alimento. A jovem presa de pelo castanho escuro destacava-se do imenso amarelo torrado da savana chamando a atenção do leopardo que se quedava imóvel observando, medindo, analisando. O velho leopardo se tivesse consciência julgar-se-ia um filósofo, um analisador de comportamento. Essas capacidades não só o divertiam como contribuíam muito para o seu sucesso.
A fome já se tornava incómoda fazendo-o roncar de impaciência, gesto descuidado que provocou um aumento do silêncio na savana.
O amarelo espalhava-se para além do horizonte entrecortado por parcas árvores totalmente despidas de folhas embora algumas estivessem flamejantes com as sua flores vermelhas. O vento tinha parado, os grilos calaram-se e até a irreverente macacada se calou, um dos grandes tinha-se manifestado e isso significava perigo, significava que alguém ía morrer, que alguém seria sacrificado para os outros viverem. Secretamente todos desejavam que fosse o parceiro do lado mas consciência é uma coisa que não perdura nas espécies destinadas ao sacrifício. A vida correu plácida derramando em nova aragem de ar asfixiante.
A presa aproximou-se lentamente da árvores, aquela nesga de sombra atraia-a sedutora, estava cansada e com calor, estava feliz e era jovem.
O velho leopardo ondulou e deslizou o seu corpo para posição de ataque de uma forma tão subtil que nem um raspar na casca da árvore provocou, apenas uma ligeira alteração na forma do seu corpo embora envelhecido ainda era vigoroso.
Duas vidas se juntavam, o destino parecia inevitável, a natureza seguia o seu rumo, o ataque era inevitável. O leopardo começou a tremer, músculos retesados prontos para a acção, a antecipação do gosto fresco de sangue quente da sua vítima fazia vibrar de excitação, de antecipação. O prazer era imenso, a adrenalina sufocava-lhe o cérebro, pacientemente esperava o momento certo.
A presa mordiscando ervas tenras passeava-se placidamente quando algo lhe desperta a atenção, uma vibração,num pressentimento, uma sensação. Não está só, algo a observa, algo a deseja, a inquietação a instalar-se. Procurando em seu redor nada vê, seus olhos perscrutam as redondezas e o nada é-lhe devolvido em tons de amarelo torrado. Já se acalmando levanta a cabeça, com graça, movimento fluido de presa e olha para cima.
O velho leopardo sente uma descarga a percorrer-lhe o corpo, um sentimento electrizante imobiliza-o. Os olhos do leopardo e presa encontram-se finalmente. A presa sorri, tímida mas decidida. O leopardo semicerra os olhos ameaçadoramente e continuam a olhar um para o outro. Esperando um movimento e comunicando com expressões de linguagem corporal.
A presa, com graça manteve-se decidida no mesmo local, as ervas eram aí mais verdes e sem deixar de mirar o leopardo desafiou-o continuando a mordiscar mas sem nunca desviar o olhar.
O velho leopardo levanta-se lentamente, espreguiça o seu velho corpo ainda flexível e salta para o chão aproximando-se lentamente da presa. Estava fascinado, aquele olhar fazia-o sonhar, memórias antigas, memórias doce. Em posição de ataque aproximou-se, o cheiro da presa embriagava-o, o corpo cheio de adrenalina. Lentamente aproximou-se, estacou a menos de um metro, o campo de visão totalmente preenchido pelo corpo da presa, o olfacto saturado do seu aroma, o velho leopardo rugiu:
- Amanhã é outro dia!
Deitando um último olhar deu meia volta e afastou-se, com uma dor surda a roer-lhe as entranhas. 



21 de Abril de 2015