terça-feira, 16 de agosto de 2016

O chefe

Jonas tinha-se evaporado, tinha explodido num turbilhão de emoções, tinha-se transformado. Era agora um animal errante, percorrendo a savana, longe do bando, longe de tudo. Ferido na alma, esfomeado de emoções gargalhava.
Corria ouvindo o som do vento cantar-lhe canções cheias de dor fazendo crescer o monstro que o dominava, o monstro adormecido nas cavernas, acorrentado, sobrevivendo á míngua. O monstro crescia dentro dele, sobrepunha-se ao seu ser. Gritava lágrimas de dor, cuspia veneno que salpicando ao vento lhe enchia os olhos de lágrimas. Chorava uma vida que ainda não tinha vivido, uma vida que viveu, a vida que vivia, percorrendo a savana deserta, cor de terra queimada pejada de carcaças de outros que antes se tinham aventurado por estas terras. Corria selvagem, baba a escorrer, a fome a queimar-lhe as entranhas, corpos putrefacto cobertos de moscas que fugiam á sua passagem, a loucura a aumentar, a dor que deixou de o ser, apenas uma explosão de luz no seu cérebro que apenas continuava desperto por uma questão de teimosia, tudo tinha caído, a morte era inevitável, sempre inevitável. A morte no topo de um galho seco de uma árvore morta projectando uma magra sombra na savana, a morte ria-se, a morte suspirava, uma alma que passava.
Jonas acordou do seu sonho olhando em redor, reconhecendo a escuridão que o protegia, que o acolhia no seu seio, frio e inerte. Jonas suspirou e lembrou-se da fome, do ardor das entranhas que se alimentavam de si mesmo caminhando para uma autodestruição anunciada. Sorriu, um sorriso, um esgar de vida e levantou-se, dorido, músculo desfeitos, esforços imensos de uma noite a correr, tentando sobreviver.
Ligou a televisão e foi saudado por um ecrã negro, ligou o filme e as imagens começaram a cair numa cascata de emoções, o som ecoava na sua cela, um lamento longo cheio de significado, uma dor lenta, persistente alguém que sofria horrores, torturas indescritíveis, o sangue espirrava ensopando a madeira antiga deixando-a com matizes de vermelhos e castanho. Onde o sangue se acumulava mais reinava o negro.
O som do chicote era esperado, logo seguido de uma farpa aguda que lhe lancetava parte da pele, cortando-a, marcando cada látego um pecado. O pecado da existência, o pecado do livre arbítrio. Jonas sorria, cada chicotada uma vitória, uma dor, um passo mais para a sua campa.
Jonas tinha sono, queria dormir, o último sono, estava cansado e só pensava na loucura que era, a sua vida, o que tinha sido, as suas imensas vidas. O cansaço invadia o seu espírito como uma maré de equinócio, lenta mas imensa, de uma praia vazia a um mar alteroso que tudo cobria. Águas negras, moles, escondendo monstros que se faziam sentir, ondas de pressão , ondas de terror que lhe enchia o espírito levando o seu coração a bater, ao som da música que ouvia, ecoava, na sua cela.
Jonas sentou-se, lágrimas nos olhos e sentia-se aquela besta a correr, sem destino, naquele deserto que era o seu sonho. Lágrimas correram, Jonas chorava, já sem razão, chorava o vazio de uma existência que o fazia correr.
A realidade, a dureza da realidade, o dever, esse maldito que move mundos, que move o mundo de Jonas apareceu, mostrou-se, fez valer a sua força escravizando o livre arbítrio de Jonas, fazendo-o levantar-se, secar os olhos, abrir a porta e enfrentar a sua equipe.
- Que temos hoje? As avarias continuam não é? Vamos aguentar, é para isso que aqui estamos!!
Com ar decidido pôs-se á frente da situação enfrentando o desconhecido.

Dois loucos

Jonas falava com o seu companheiro de recreio, a sala de convívio reunia uma confusão de gentes e mentes. Aquele com quem Jonas falava era um indivíduo deveras interessante para Jonas, ouvia e não tentava chamá-lo á razão, embevecia-se a ouvir Jonas, ás vezes com o nojento hábito de se babar. Jonas não sabia o seu nome, chamava-o pelo genérico nome de Tu.
- Tu estás a ouvir? A coisa que mais me irrita nas publicações pseudo científicas para atrasados mentais como nós, mais como tu! Disse Jonas com um risinho. O que me chateia é a visualização do buraco negro. Representam-no sempre como uma rede de elástico com uma bola pesada no meio que a deforma. Essa merda chateia-me pois tida a gente sabe que um ponto de massa gravítica infinita é uma coisa tridimensional, pelo menos neste universo que conseguimos ver. Os nossos olhos estão desenhados para as três dimensões e o nosso cérebro consegue acrescentar a quarta dimensão, o tempo. Esses conceitos não me chateiam, o raio do buraco negro, esses sim, chateia-me com aquele desenho idiota. Deve ser para gajos como tu...
- Eu o quê? Claro que vejo buracos negros, basta-me olhar pela fechadura do meu quarto á noite. Está tudo escuro do outro lado.
- Estás-me a dar razão! A representação deles é como se espreitassem pelo buraco de uma fechadura. Eu, por meu lado, gosto de ver as coisas como elas são. Uma massa infinita deforma o espaço em três dimensões e eu tenho partido a cabeça tentando visionar o campo de forças a deformar-se em três dimensões. Só quero visionar, não quero explicar. Como se costuma dizer, um desenho vale por mil palavras.
- E consegues ver?
- Hummm! O máximo que consegui foi uma bola de nada, negra,.... ahahah, um buraco negro na minha cabeça.
- É por causa desse buraco na cabeça que estás aqui, não é?
- Consigo ver a retícula tridimensional que rodeia o tal buraco negro sem ser afectado, pelo menos visivelmente mas á medida que essa retícula se aproxima da massa infinita deforma-se até ser vista como uma esfera negra cheia de vectores convergentes que mergulham naquela área negra onde deixa de haver tempo e tudo colapsa num único ponto. Tás a ver? Consegues imaginar?
- Do género da almofada de alfinetes como os das costureiras?
- Se não te babasses tanto até pensaria que está alguém a espreitar atrás desses olhos. Sim como a almofada de alfinetes. Mas não consigo ver bem, conceber bem os estados intermédios. A imagem na minha cabeça fica difusa, as linhas misturam-se, falta-me a disciplina de racionalizar linha por linha em três dimensões, ou nos três sentidos. Tenho perdido muitas horas de sono a tentar imaginar isso.
- Também perco muitas horas de sono a espreitar pela fechadura para ver se consigo ver a enfermeira...
- Depois tenho a massa cinzenta, um conjunto de vectores a convergirem num único ponto, cinzenta por fora e aumentando a negrura á medida que se aproxima do centro. Depois o choque final. O centro onde todos os vectores convergem fazendo uma acumulação enorme de matéria e energia. Ok, tudo bem e depois? A perfeição não existe, para o centro ser perfeito todos os vectores teriam de ser iguais mas basta um pequeno grão de areia para desequilibrar aquilo tudo. Desequilibra-se e depois? Nada sai pois a massa gravítica é infinita, por isso é negra. Para onde vai?
- Falas muito depressa. Não percebi bem...para onde vão os alfinetes...?
- Sim, sim! Para onde vão os alfinetes? Se o universo nasceu e criou um buraco negro seria natural que entrasse em colapso logo a seguir pois as massas gravíticas infinitas criam-se e auto-alimentam-se. Se eu estou aqui aqui meio louco no meio dos loucos é porque acontece mais qualquer coisa.
- Os alfinetes caem e perdem-se?
- Olha que até me deste uma boa ideia. Mudam de fase. Isto é fácil de dizer mas tenho de ver, se não consigo ver fico maluco... Tenho uma ideia aproximada, quando sonho, quando fecho os olhos penso que estou numa praia, até consigo sentir o sol a queimar-me as costas e os pés a gelarem na água fria, acordo e estou no mesmo sítio, deitado na minha cela mas também estive na praia. Durante uma fracção de segundo estive nos dois sítios. O mesmo acontece no interior daquele ponto minúsculo onde se projectam os vectores, distorcem o espaço tempo e a matéria explode noutra dimensão ou noutro ponto do universo. Desta forma os pequenos grãos de areia que poderiam distorcer o processo são absorvidos, melhor, as distorções quando se manifestam já estão noutra dimensão ou na outra extremidade do universo criando novas galáxias, novas vidas. Eh pá! Tu até me estás a ajudar... ainda ganhas o Nobel... é pena é estares a babar-te outra vez.
- Mas se os alfinetes caírem no chão vais perder alguns...
- Os alfinetes nunca se perdem, mais tarde ou mais cedo alguém vai cravar um deles nos pés, esses malucos têm a mania de andarem descalços. Mas a tua pergunta é engraçada. Sabes, existem um gajos ainda mais malucos do que nós que tentam partir a matéria em pedaços cada vez mais pequenos, átomos, electrões, neutrões, leptões, mesões, etc etc. E todos os dias descobrem coisas novas, fazem grandes fórmulas e cálculos e aquilo vai batendo certo. Mas o que se passa no interior de uma massa gravitica infinita passa-se no interior da matéria. Imagina somar nada a nada. O resultado é nada. Mas se somares uma quantidade infinita de nadas vais começar a ter algo, apenas o raciocínio inverso das metades, para chegares a um determinado ponto tens de percorrer uma metade e assim ad eternum, nunca lá chegas. Mas chegas.. e porquê? Porque a partir de certa altura dás um salto e passas para outra realidade, estás do outro lado do limite. Com o nada é a mesma coisa, juntando uma infinidade de nada, de repente dás um salto para o outro lado e tens uma partícula primitiva, seja ela de energia ou de matéria, o que é a mesma coisa, e a partir daí começas a criar matéria, a criar um universo. Mas começas a ter um problema. Que fazer com tanta matéria que se cria? Junta-se em massas criando os tais ponto de massa gravitica infinita que por sua fez colapsa e se recria noutro lado. Muda de fase.
Acho que te passaste e já me cansas com essa conversa. Vou para a janela apanhar sol antes que nos fechem nos quartos outra vez.
- Espera, falta a última visão. Um toroidal formado de esferas, cada esfera um universo que ao mudar de fase muda ligeiramente de posição percorrendo o toroide até chegar á posição inicial recomeçando o ciclo da vida.
- Jonas! Acabou o intervalo. Toma os comprimidos e não chateies os outros doentes! Disse o enfermeiro pondo os comprimidos na boca de Jonas e dando-lhe água para beber. Vamos para a cela para te tirar o colete de forças! Deves estar a precisar de aliviar a bexiga!
- Apetecia-me comer um donut! Disse Jonas com voz sumida! Gosto daquela forma, sinto-me renascer.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O círculo

Jonas flutuava no seio do nada, imerso num meio viscoso e negro que lhe tolhia os sentidos impedindo-o de qualquer movimento, de qualquer sensação. O negro da escuridão era atroz, fazia-o sonhar com a morte, aliás, sentia-se morto mas tinha consciência de estar vivo, apenas afogado no nada.
A sua mente estava entrar em turbilhão, acelerava a velocidade do raciocínio até tocar os limites do pânico. As ideias rolavam, as visões apareciam e desapareciam a uma velocidade alucinante. Jonas via-se nu deitado numa cama coberto por uma mortalha assim como corria como uma criança num areal enorme de uma praia longínqua, para além dos tempos. Algo o fazia lembrar, tempos idos, vidas vividas, outras eras quando estava ás cambalhotas, no ar, rodopiando loucamente, sobrevoando a morte, escapando ao esmagar dos ossos contra o metal que se lançava sobre ele. Jonas tentava respirar mas o nada esmagava-lhe o peito, asfixiando-o, levando-o para a caverna escura onde lutava para escapar á armadilha mortal.
Os acontecimentos sucediam-se uns atrás dos outros ao som de uma música pungente, dorida lembrando tempos idos, vidas amadas, dores alucinantes, medos atrozes. A pancada que vinha á velocidade de uma vida e que acabava numa explosão de dor que matava o espírito, marcando o inconsciente deixando incólume o corpo, esse corpo cheio de marcas invisíveis de uma vida de luta. Uma luta incessante que agora o inundava em vagas cada vez mais revoltosas a sua mente.
Essa mente que um dia viu a luz e passou a viver nas sombras, a luz que o cegou deixando-o com uma tristeza cada vez maior. Uma luz que ele via e reconhecia naquela música dorida e pungente. A luz que lhe trazia lágrimas aos olhos, sentindo-se um náufrago que tinha tocado na salvação e que agora se afundava num oceano de certezas sendo a morte uma delas, tinha tocado na bóia, tinha sentido a vida e agora morria, maravilhado pois tinha visto a luz.
Jonas tentava arfar, viu o sorriso juvenil daquela que ele, numa outra vida, tinha desprezado mas que a marcou até ao fim dos tempos, era um sorriso bonito, uma beleza que Jonas só passou a dar importância uma vida depois, quando tudo era negro, esse sorriso iluminava-lhe a alma. Agora, fechado no nada, flutuando no vazio, o seu corpo sendo sugado de toda a vida se encolhia tudo se resumia a esse sorriso. Jonas colapsou, o seu coração falhou uma batida e entrou numa arritmia louca levando-o para outras dimensões.
Jonas viu as estrelas, imensas estrelas quando descobriu que estava no meio de uma explosão, dor, medo, tudo em simultâneo mas vendo o universo a nascer, vendo a vida a aparecer, um carrossel de cores e radiação que o queimava, que o cegava não o impedindo, no entanto, de ver, a radiação entrava-lhe pelo cérebro afectando as suas células levando-lhe a mensagem. Jonas tentava decifrar aquele código que o bombardeava ininterruptamente até começar a ver com o espírito, há muito que o seu corpo se tinha dissolvido em átomos espalhando-se pelo tempo ocupando a totalidade do universo. Jonas começou a acalmar, o nada, o vazio onde estava mergulhado passou a ser uma realidade, uma melodia que o embalava. Flutuou feliz ao sabor da corrente, deixando-se embalar pelo calor, pelo pulsar do universo que o transportava para o negro, para a escuridão que a velocidade alucinante o puxava, o atraía. A dor começou a ser grande, a aumentar, a pressão que o esmagava, o craneo comprimido deformava-se.
Jonas sentia-se afogar, o desespero a aumentar, a dor, as luzes brilhantes e, sem aguentar mais, com sofreguidão aspirou o ar que lhe queimou os pulmões, fazendo-o gritar de dor. E Jonas chorou como nunca tinha chorado antes, antevendo um futuro de dor.
- Nasceu! Um belo rapaz que berra a plenos pulmões! Exclama o médico sorrindo segurando um bebé pelos pés, roxo de tanto gritar.

sábado, 13 de agosto de 2016

O génio

O génio

Jonas, sentado na borda da cama olhava aquele objecto brilhante que jazia inerte na sua mão, o pescoço espartilhado por um laço ridículo fazia-o arfar. Suspirou e calçou o sapato negro, brilhante, reflectindo as luzes do candeeiro com umas matizes estranhas. Jonas sorrio, aquele brilho tinha padrões que se encaixavam de uma forma perfeito numa racionalização. O sorriso depressa desapareceu quando sentiu o seu pé apertado e asfixiado naquele pequeno ataúde de cabedal.
-     Tenho de usar mesmo esta farpela? Lamenta-se com voz lamuriosa, já sabia de antemão a resposta.
-     Não te demores que já estás a ficar atrasado! Disse-lhe docemente a sua companheira ajeitando-lhe o cabelo e sacudindo um pó imaginário nos ombros de Jonas.
-     Só por causa de um papel que eu escrevi e chateiam-me com estas coisas! Podias ir por mim, explicavas que estava doente. Dizias-lhe que o papel tinha sido uma piada, aliás é uma piada.
-     Não sejas parvo! Sabes bem que o teu trabalho vale mais do que uma piada!
-     É uma piada! Ainda hoje me rio a ver a cara deles ao ler a descrição do nascimento de um campo de forças, o seu desenvolvimento e desaparecimento numa explosão caótica de energia em entropia total...
-     Eles julgam o contrário!
-     Eles são burros, aquilo é a representação matemática de um orgasmo! A piada é essa! O que eu me ri daquele ser iminente que relacionou com a anti-matéria, o pedantismo com que fez a análise.
-     Vamos... Estás pronto!

Era um anfiteatro imenso, um palco enorme com um quadro negro baço, manchado de marcas apagadas de giz. O anfiteatro tinha a beleza da antiguidade, do clássico. O orador podia escrever que todos teriam acesso. Ao mesmo tempo tinha um ar austero que intimidava, gerações de sumidades ali tinham apresentado a sua sapiência, altaneiros, elevados nas suas cátedras. Esse ambiente belo mas aterrador intimidava Jonas, sentado na primeira fila, tentando alargar o colarinho ridículo que o asfixiava. Jonas olhava para o orador e viu as ondas sonoras emanadas da sua boca, espalhavam-se de um forma harmoniosa até atingirem um obstáculo, reflectiam-se, entrechocavam-se, criavam ondas derivadas que por sua vez se encontravam com as outras ligeiramente desfasadas no tempo que saíam doa altifalantes, ondas essas que vinham aplainadas pelos filtros. Jonas via o som no ar, tão alterado pelas interferências, choques e reflexos e pensou que se o som tivesse cor estaria agora no meio do oceano. Sorriu com a comparação, a entropia do oceano só é visível á superfície, no seu seio não é tão aparente. O seu sub-consciente mergulhou no meio das águas revoltas onde viu os vórtices, as camadas. A misturarem as suas diferentes densidades, correntes que corriam velozes soltando pequenos vórtices de água, Jonas sorriu, afinal estava num oceano de som. Quando de repente tudo desapareceu, as ondas morreram, ficou o vazio e Jonas flutuava perdido.
-     Estás na lua? Estão á tua espera! É o teu momento! Acotovela-lhe sussurrando a sua companheira.
O terror tomou conta do seu espírito, tinha chegado o momento, estava ali para a matança, ía ser sacrificado. Levantou- se da cadeira e cambaleou, bêbado de adrenalina, o sangue pulsava nas suas têmporas, sangue quente, fluido iluminando-lhe o cérebro, trazendo-lhe a luz que há muito ansiava. Caminhou, resoluto, para o palco, a audiência aplaudia mas Jonas já não navegava, estava agora numa viagem cósmica, o vazio á sua volta, estrela brilhavam no firmamento aumentando as sinapses, levando a frequência das sinapses a um ritmo alucinante.
No púlpito, fez um ligeiro aceno para o apresentador e dirigiu-para o quadro e começou a escrever.

0 = x - x

Depois desenvolveu cada x numa equação diferente mas ambas complexas. E foi subindo na sua complexidade. Desenhavam-se ali conceitos complexos, quânticos, relativistas. Alguém suspirou na audiência, tinha visto a anti-gravidade ou algo que a poderia explicar. Outro julgou ver a anti-matéria.
O quadro enchia-se de conceitos e todos estranhamente ligados pelo sinal de igual quando de repente as equações começaram a ser mais curtas e cada vez mais estranhas.
Jonas resfolegava, casaco no chão, laço arrancado, camisa fora das calças e cada vez mais enlouquecido chegava ao fim dos seus cálculos.

            lim x (n ->i) = lim x(n->0)

Jonas olhou para o resultado de olhos abertos, lágrimas corriam loucas cara abaixo, soluçava como um criança quando sentiu alguém a segurar-lhe nos braços, uma voz doce e uma picada num ombro que o levou á escuridão total.

A audiência estava agitada, discutiam o que viam, alguns recusavam-se a ver sequer, não tinham tempo para loucos. A organização agiu rapidamente, mandou filmar todo o quadro, gravar toda a prova, poderia ser útil mais tarde, estavam ali conceitos que nunca tinham sido vistos nem abordados.

Uma pessoa manteve-se sentada, olhar fixo na equação final, chorava de mansinho lágrimas de dor.
-     Não se preocupe minha senhora! Ele será bem tratado, provavelmente teve um esgotamento. Nada que um bom descanso não trate.
-     Você não consegue entender se não conhecer a história. Tem de a conhecer para entender aquela maluqueira de equações.
-     Você entende? Pergunta desconfiado o organizador do evento. Entende aquela matemática?
-     De maneira nenhuma! Aquilo é chinês para mim! Só o resultado tem um grande significado para nós os dois. Ele começou com um zero e partir daí evoluiu e pelo que o conheço estava á deriva nos conceitos, uns atrás dos outros até começar a encontrar um fim e ir até lá. Chegou e enlouqueceu de dor. Como eu estou agora.
-     Pode-me dizer? Dá-me uma pista?
-     Zero é igual á equação final. Quando n é infinito e n é zero, é tudo zero, acabou. Vive apenas no cosmos, no universo, na memória.
-     Não entendo...

-     Nós chamávamos Nino á nossa neta.... E dizendo isto a companheira de Jonas desmanchou-se num pranto silencioso entrecortado por um soluçar de dor. Ali no meio, vocês podem ver a vida e aprender com ela.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O assassino

 
Jonas espreitava a sua vítima cuidadosamente, seguia-lhe os movimentos, mudava de posição melhorando o angulo de tiro. A sua arma, adquirida especialmente para aquela missão, para aquela morte, estava pronta. Uma arma leve, muitos materiais compósitos integravam a sua construção que ao contrário do aço polido tinha um toque macio, sedoso, quase feminino. Apesar da sua aparente fragilidade ela tinha potência necessária para derrubar uma besta a investir, tinha uma precisão e alcance letais. Jonas acariciava a sua arma como se de uma amante se tratasse, respirava pausadamente.
O alvo estava na posição, a vítima ia ser sacrificada, ia morrer sem nunca se aperceber do seu destino.
Jonas baixou a sua batida cardíaca, diminuiu o ritmo respiratório, o momento aproximava-se rapidamente, a cabeça a enquadrar-se na retícula da mira telescópica, uma leve pressão com o dedo e a arma deu um ligeiro sacão, um som abafado ecoou sumidamente e a bala partiu, veloz, em direcção ao seu destino.
Jonas gostava destes momentos, devido ao ângulo conseguia ver a bala a percorrer a distância fazendo um ligeiro angulo até se cravar com um som seco de osso a partir-se na têmpora do alvo. Jonas tinha parado o tempo no seu espírito, aquele craneo estilhaçou-se em câmara lenta, o homem foi projectado devido ao impacto e caiu como de uma boneca de trapos se tratasse.
Jonas respirou fundo, baixou a arma e levantou os olhos da sua consola exclamando:
- Estes jogos estão cada vez mais reais! Abstraí-me de tal maneira que o virtual passou a ser, por momentos, a realidade. Até tenho os braços arrepiados.
- És louco! Disse a sua companheira sem tirar os olhos do seu livro. Não admira que cada vez haja mais malucos a disparar por aí, julgam que estão num jogo! Como tu...! Disse ela olhando desta vez muito fixamente para os olhos de Jonas.
- Não mistures as coisas!
- Eras capaz de fazer o que fazes no jogo? Olhar para um ser vivo, apontar e disparar sabendo que vais matar alguém, tirar a vida a alguém?
- Olha menina, se me perguntas se eu sou capaz de ir para a rua matar indiscriminadamente, não, não sou. Agora numa situação de guerra ou numa situação em que o alvo a abater é justificável, não teria problemas de maior. Tu numa guerra, uma vez envolvida em combate não discutes a moralidade da guerra, ou matas ou és morta. Salvo raras excepções podes optar por poupar uma vida que, não te podes esquecer disso, essa vida amanhã pode matar o teu companheiro, aquele que confiou que tu lhe protegesses o seu flanco. Numa situação de combate as opções são muito limitadas. Agora, numa acção de extermínio em que a tua missão é eliminar um alvo, eliminar é um eufemismo de assassinar tens sempre a hipótese de poupar o alvo mas, há sempre um mas, esse alvo ou já foi causador de muitas mortes dos teus ou é um muito grande potencial causador de muitas mortes. Se tens esses problemas nunca te poderás candidatar a uma unidade que está sujeita a ordens desse género, uma unidade cujos objectivos são esse tipo de acções.
- Tu ias! Vejo nos teus olhos que ias!
- Se calhar ia, e como não posso ir elimino as minhas frustrações matando inimigos virtuais nesta consola! Disse Jonas rindo-se.
- Continuo a achar que és louco! E só tenho medo que um dia seja a sério e dês cabo da tua vida ou me faças mal!
- Fazer-te mal? Eu? Nada disso. Tu não percebes é nada de guerras e guerreiros. Um guerreiro quando acaba um combate tem uma necessidade urgente de descarregar a adrenalina, o excesso de energia acumulada, energia essa que lhe dá capacidade de sobreviver. Chegando a casa o tem uma solução, arranjar uma mulher e copular que nem um louco para que com o seu orgasmo todas as tensões se desvaneçam, depois bebe uns copos e dorme.
- Violar as mulheres que encontra queres tu dizer?
- Isso era antigamente! Agora já não se fazem combates em que se permitam ao luxo de ter tempo para as violações, já existe alguma moralidade em alguns homens que travam os outros, lembra-te de alguns filmes sobre o Vietname. Hoje vai-se a um bar e convence-se uma pequena que por acaso até lá está para isso e o problema resolve-se. Os homens não melhoraram, as circunstancias é que se alteraram.
- E tu? Eras capaz de violar uma mulher depois de um combate? Sentirias esse desejo?
- Vou-te responder com um exemplo. Acabei de efectuar uma missão altamente tensa, o raio do jogo é mesmo muito real, e estou com excesso de adrenalina. Tu estás aí a provocar-me com essa conversa da treta e a mim só me interessa tirar-te o vestido. Agora, ou das duas uma, ou tiro-te o vestido e ofereces alguma luta, mulher que se preze oferece sempre luta ou então estás tão excitada com a descrição que estás prontinha para o sacrifício!
- Não sejas parvo....! A companheira de Jonas não teve tempo de acabar a frase pois os seus lábios já estavam selados por uma boca sôfrega de paixão.
Ela ainda esperneou um bocado mas ambos sabiam que era uma luta simbólica, ambos queriam o mesmo, conquistar o corpo do seu adversário e faze-lo sofrer as maiores sevícias. A luta foi tremenda, titânica e no fim a vitória foi de Jonas, uma vitória pírrica, uma vitória técnica porque apenas estava numa posição dominante sem nada dominar. Respirando com dificuldade abandonou o corpo da sua companheira que jazia abandonado na sua paixão, ela sorria mansamente, tinha sido a vencedora como sempre e dando a ilusão ao seu companheiro que tinha tido o domínio.
Jonas levantou-se pesadamente, tremia do esforço, esgotado, sugado de todas as suas energias. Caminhou para a sua mesa, ofegante e voltou a pegar na consola de jogos.
- És mesmo uma besta! Escandaliza-se a sua companheira. Usaste-me e agora voltas para os teus joguinhos! E eu sou deitada fora! Besta, estúpido....
Jonas suspirou, deixou cair os ombros de desanimo, elas nunca compreenderiam um guerreiro.
- Minha querida! Preciso de matar mais uns quantos gajos! Pôr os meus níveis de adrenalina e energia e assim voltar para os teus braços comemorar a vitória e voltar a ter direito ao descanso do guerreiro! E esta última frase foi dita com um sorriso de orelha a orelha típico de um Jonas a eterna criança.
- Vai lá para os teus jogos mas não venhas para aqui pedir batatinhas pois não sou um dos teus despojos de guerra! E ela aproveita a oportunidade para se escapulir para a casa de banho.
............................

Jonas mirava o inimigo quando ele de repente se vira e dispara na sua direcção roubando mais de 50% de vida a Jonas que por sua vez mira rapidamente e envia uma descarga de três balas eliminando a sua presa.
- Fogoooo! Este ia-me quase matando! Tenho os pelos dos braços totalmente arrepiados! Uauuuu! Até sinto o sangue a ferver!!!! Maria! Grita Jonas chamando pela sua companheira. Percorre a casa toda á sua procura seguido pelos seus gatos que pressentem a trovoada que paira no ar. Maria? Por onde andas? Não fujas!
Jonas, com a surpresa a começar a invadir o seu rosto corado pela adrenalina vê um bilhete na mesa: "Fui ás compras! Aspira a casa para gastares as tuas energias de guerreiro vitorioso! Beijinhos 😀"

Ela chega a casa e encontra Jonas de ar carrancudo no sofá a escrever no tablet, a casa por limpar, o aspirador espalhado pela casa, tudo numa confusão, os gatos a espreitarem assustados nos seus esconderijos preferidos.
- Que aconteceu? Pergunta ela com um certo tom de preocupação na voz.
- Nada! Tinha acabado de abater um inimigo que me feriu gravemente! Fui para o hospital mas a enfermeira tinha-se ausentado. Enquanto me tratava resolvi limpar o campo quando o exército inimigo irrompeu pelas linhas, foi uma luta tremenda, só venci porque encontrei aquele lança-chamas e consegui repelir o inimigo! Exclama Jonas com voz sumida olhando para o aspirador. Estou gravemente ferido, estou a morrer, necessito de massagem cardíaca e respiração boca a boca.
E dizendo isto Jonas atira-se á sua companheira e beija-a ternamente e sussurra-lhe ao ouvido:
- Trata de mim! Trata-me que estou a morrer exangue!
- Pois estou a ver, com essa erecção está-te é a faltar sangue no cérebro...
Cansados, deitados um ao lado do outro, arfando os restos das suas paixões ela pergunta:
- Estou a estranhar essa jovialidade toda! Duas vezes não é nada comum, há muitos anos que não acontece! Estás com a cabeça na miúda não é?
- Tenho de te confessar uma coisa! Diz Jonas com um sorriso travesso. Comprei viagra para experimentar e tomei um comprimido e aquela merda não deu resultado nenhum, bolas tinha gasto uma pipa de massa para nada. E sabes como eu sou, perdido por cem, perdido por mil, tomei o segundo comprimido. Foi quando sorriste para mim e me chamaste criança que aquilo disparou....
- És doido! És parvo, podes dar cabo do coração... mesmo estúpido!
- Pois.... Diz Jonas olhando para a sua companheira com olhos de gato quando descobre um passarinho!
- E não me olhes assim..... Levanta-se ela e refugia-se na casa de banho fechando a porta á chave.
..........
- Maria! Acabei de limpar o sebo a três inimigos! Foi duro mas consegui!
- Vai tomar banho á piscina e não me aborreças!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A viagem


Hoje saio para o mar, á noite
Saio só, chorando a saudade
Olhando a noite escura
Esperando
Ver a estrela que lá brilha
Com o seu sorriso
Chamando-me
Sigo a minha viagem na escuridão
Olhos toldados do salgado mar
Lágrimas de dor
A estrela que lá em cima brilha 
Sorri pedindo colo
E eu choro de impotência
Estendo os braços e abraço o vazio
A noite estende-se
A viagem chegará ao fim
Um dia

Jimmy, 13 de Janeiro de 2016

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Extracto de Crónicas... 2


Realmente a morte tem rondado o meu clã o que me faz pensar que mais tarde ou mais cedo será a minha vez. Como dizia o outro, é a única certeza que temos nesta vida. Mas gostamos de pensar que não, só acontece aos outros. Vai chegar e quando for o dia só espero estar preparado. Mas como ía dizendo a morte ao rondar as minhas redondezas faz-me pensar nela e o que eu gostaria que acontecesse ao meu corpo. Pessoas dizem que querem ser cremadas, sou totalmente contra, outras doam o corpo. Outras vão para o jazigo de família, se calhar á espera de jogarem á sueca com os outros que já lá estão. Eu digo, por piada, que gostaria que o meu corpo fosse triturado e fosse transformado em ração de gato para ser distribuído pelos gatos da rua, pelos gatos necessitados e sem abrigo.
Claro que esta ideia desenvolveu logo uma cena dos próximos capítulos em que, numa noite de lua cheia, os gatos que se tivessem alimentado da ração felino-jimóide se reuniriam á volta da minha casa miando longamente um chamamento á minha chorosa viúva. Um bocado cena de filme de terror estilo Hollywood mas fez-me rir só de imaginar a minha cara-metade na varanda ao luar a ver a minha focinheira nos gatos ondulando na escuridão da noite com aqueles miados que parecem uma criança a chorar. No fundo eu sou uma criança grande.