segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O assassino

 
Jonas espreitava a sua vítima cuidadosamente, seguia-lhe os movimentos, mudava de posição melhorando o angulo de tiro. A sua arma, adquirida especialmente para aquela missão, para aquela morte, estava pronta. Uma arma leve, muitos materiais compósitos integravam a sua construção que ao contrário do aço polido tinha um toque macio, sedoso, quase feminino. Apesar da sua aparente fragilidade ela tinha potência necessária para derrubar uma besta a investir, tinha uma precisão e alcance letais. Jonas acariciava a sua arma como se de uma amante se tratasse, respirava pausadamente.
O alvo estava na posição, a vítima ia ser sacrificada, ia morrer sem nunca se aperceber do seu destino.
Jonas baixou a sua batida cardíaca, diminuiu o ritmo respiratório, o momento aproximava-se rapidamente, a cabeça a enquadrar-se na retícula da mira telescópica, uma leve pressão com o dedo e a arma deu um ligeiro sacão, um som abafado ecoou sumidamente e a bala partiu, veloz, em direcção ao seu destino.
Jonas gostava destes momentos, devido ao ângulo conseguia ver a bala a percorrer a distância fazendo um ligeiro angulo até se cravar com um som seco de osso a partir-se na têmpora do alvo. Jonas tinha parado o tempo no seu espírito, aquele craneo estilhaçou-se em câmara lenta, o homem foi projectado devido ao impacto e caiu como de uma boneca de trapos se tratasse.
Jonas respirou fundo, baixou a arma e levantou os olhos da sua consola exclamando:
- Estes jogos estão cada vez mais reais! Abstraí-me de tal maneira que o virtual passou a ser, por momentos, a realidade. Até tenho os braços arrepiados.
- És louco! Disse a sua companheira sem tirar os olhos do seu livro. Não admira que cada vez haja mais malucos a disparar por aí, julgam que estão num jogo! Como tu...! Disse ela olhando desta vez muito fixamente para os olhos de Jonas.
- Não mistures as coisas!
- Eras capaz de fazer o que fazes no jogo? Olhar para um ser vivo, apontar e disparar sabendo que vais matar alguém, tirar a vida a alguém?
- Olha menina, se me perguntas se eu sou capaz de ir para a rua matar indiscriminadamente, não, não sou. Agora numa situação de guerra ou numa situação em que o alvo a abater é justificável, não teria problemas de maior. Tu numa guerra, uma vez envolvida em combate não discutes a moralidade da guerra, ou matas ou és morta. Salvo raras excepções podes optar por poupar uma vida que, não te podes esquecer disso, essa vida amanhã pode matar o teu companheiro, aquele que confiou que tu lhe protegesses o seu flanco. Numa situação de combate as opções são muito limitadas. Agora, numa acção de extermínio em que a tua missão é eliminar um alvo, eliminar é um eufemismo de assassinar tens sempre a hipótese de poupar o alvo mas, há sempre um mas, esse alvo ou já foi causador de muitas mortes dos teus ou é um muito grande potencial causador de muitas mortes. Se tens esses problemas nunca te poderás candidatar a uma unidade que está sujeita a ordens desse género, uma unidade cujos objectivos são esse tipo de acções.
- Tu ias! Vejo nos teus olhos que ias!
- Se calhar ia, e como não posso ir elimino as minhas frustrações matando inimigos virtuais nesta consola! Disse Jonas rindo-se.
- Continuo a achar que és louco! E só tenho medo que um dia seja a sério e dês cabo da tua vida ou me faças mal!
- Fazer-te mal? Eu? Nada disso. Tu não percebes é nada de guerras e guerreiros. Um guerreiro quando acaba um combate tem uma necessidade urgente de descarregar a adrenalina, o excesso de energia acumulada, energia essa que lhe dá capacidade de sobreviver. Chegando a casa o tem uma solução, arranjar uma mulher e copular que nem um louco para que com o seu orgasmo todas as tensões se desvaneçam, depois bebe uns copos e dorme.
- Violar as mulheres que encontra queres tu dizer?
- Isso era antigamente! Agora já não se fazem combates em que se permitam ao luxo de ter tempo para as violações, já existe alguma moralidade em alguns homens que travam os outros, lembra-te de alguns filmes sobre o Vietname. Hoje vai-se a um bar e convence-se uma pequena que por acaso até lá está para isso e o problema resolve-se. Os homens não melhoraram, as circunstancias é que se alteraram.
- E tu? Eras capaz de violar uma mulher depois de um combate? Sentirias esse desejo?
- Vou-te responder com um exemplo. Acabei de efectuar uma missão altamente tensa, o raio do jogo é mesmo muito real, e estou com excesso de adrenalina. Tu estás aí a provocar-me com essa conversa da treta e a mim só me interessa tirar-te o vestido. Agora, ou das duas uma, ou tiro-te o vestido e ofereces alguma luta, mulher que se preze oferece sempre luta ou então estás tão excitada com a descrição que estás prontinha para o sacrifício!
- Não sejas parvo....! A companheira de Jonas não teve tempo de acabar a frase pois os seus lábios já estavam selados por uma boca sôfrega de paixão.
Ela ainda esperneou um bocado mas ambos sabiam que era uma luta simbólica, ambos queriam o mesmo, conquistar o corpo do seu adversário e faze-lo sofrer as maiores sevícias. A luta foi tremenda, titânica e no fim a vitória foi de Jonas, uma vitória pírrica, uma vitória técnica porque apenas estava numa posição dominante sem nada dominar. Respirando com dificuldade abandonou o corpo da sua companheira que jazia abandonado na sua paixão, ela sorria mansamente, tinha sido a vencedora como sempre e dando a ilusão ao seu companheiro que tinha tido o domínio.
Jonas levantou-se pesadamente, tremia do esforço, esgotado, sugado de todas as suas energias. Caminhou para a sua mesa, ofegante e voltou a pegar na consola de jogos.
- És mesmo uma besta! Escandaliza-se a sua companheira. Usaste-me e agora voltas para os teus joguinhos! E eu sou deitada fora! Besta, estúpido....
Jonas suspirou, deixou cair os ombros de desanimo, elas nunca compreenderiam um guerreiro.
- Minha querida! Preciso de matar mais uns quantos gajos! Pôr os meus níveis de adrenalina e energia e assim voltar para os teus braços comemorar a vitória e voltar a ter direito ao descanso do guerreiro! E esta última frase foi dita com um sorriso de orelha a orelha típico de um Jonas a eterna criança.
- Vai lá para os teus jogos mas não venhas para aqui pedir batatinhas pois não sou um dos teus despojos de guerra! E ela aproveita a oportunidade para se escapulir para a casa de banho.
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Jonas mirava o inimigo quando ele de repente se vira e dispara na sua direcção roubando mais de 50% de vida a Jonas que por sua vez mira rapidamente e envia uma descarga de três balas eliminando a sua presa.
- Fogoooo! Este ia-me quase matando! Tenho os pelos dos braços totalmente arrepiados! Uauuuu! Até sinto o sangue a ferver!!!! Maria! Grita Jonas chamando pela sua companheira. Percorre a casa toda á sua procura seguido pelos seus gatos que pressentem a trovoada que paira no ar. Maria? Por onde andas? Não fujas!
Jonas, com a surpresa a começar a invadir o seu rosto corado pela adrenalina vê um bilhete na mesa: "Fui ás compras! Aspira a casa para gastares as tuas energias de guerreiro vitorioso! Beijinhos 😀"

Ela chega a casa e encontra Jonas de ar carrancudo no sofá a escrever no tablet, a casa por limpar, o aspirador espalhado pela casa, tudo numa confusão, os gatos a espreitarem assustados nos seus esconderijos preferidos.
- Que aconteceu? Pergunta ela com um certo tom de preocupação na voz.
- Nada! Tinha acabado de abater um inimigo que me feriu gravemente! Fui para o hospital mas a enfermeira tinha-se ausentado. Enquanto me tratava resolvi limpar o campo quando o exército inimigo irrompeu pelas linhas, foi uma luta tremenda, só venci porque encontrei aquele lança-chamas e consegui repelir o inimigo! Exclama Jonas com voz sumida olhando para o aspirador. Estou gravemente ferido, estou a morrer, necessito de massagem cardíaca e respiração boca a boca.
E dizendo isto Jonas atira-se á sua companheira e beija-a ternamente e sussurra-lhe ao ouvido:
- Trata de mim! Trata-me que estou a morrer exangue!
- Pois estou a ver, com essa erecção está-te é a faltar sangue no cérebro...
Cansados, deitados um ao lado do outro, arfando os restos das suas paixões ela pergunta:
- Estou a estranhar essa jovialidade toda! Duas vezes não é nada comum, há muitos anos que não acontece! Estás com a cabeça na miúda não é?
- Tenho de te confessar uma coisa! Diz Jonas com um sorriso travesso. Comprei viagra para experimentar e tomei um comprimido e aquela merda não deu resultado nenhum, bolas tinha gasto uma pipa de massa para nada. E sabes como eu sou, perdido por cem, perdido por mil, tomei o segundo comprimido. Foi quando sorriste para mim e me chamaste criança que aquilo disparou....
- És doido! És parvo, podes dar cabo do coração... mesmo estúpido!
- Pois.... Diz Jonas olhando para a sua companheira com olhos de gato quando descobre um passarinho!
- E não me olhes assim..... Levanta-se ela e refugia-se na casa de banho fechando a porta á chave.
..........
- Maria! Acabei de limpar o sebo a três inimigos! Foi duro mas consegui!
- Vai tomar banho á piscina e não me aborreças!

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Nobita escreveu: