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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dois loucos

Jonas falava com o seu companheiro de recreio, a sala de convívio reunia uma confusão de gentes e mentes. Aquele com quem Jonas falava era um indivíduo deveras interessante para Jonas, ouvia e não tentava chamá-lo á razão, embevecia-se a ouvir Jonas, ás vezes com o nojento hábito de se babar. Jonas não sabia o seu nome, chamava-o pelo genérico nome de Tu.
- Tu estás a ouvir? A coisa que mais me irrita nas publicações pseudo científicas para atrasados mentais como nós, mais como tu! Disse Jonas com um risinho. O que me chateia é a visualização do buraco negro. Representam-no sempre como uma rede de elástico com uma bola pesada no meio que a deforma. Essa merda chateia-me pois tida a gente sabe que um ponto de massa gravítica infinita é uma coisa tridimensional, pelo menos neste universo que conseguimos ver. Os nossos olhos estão desenhados para as três dimensões e o nosso cérebro consegue acrescentar a quarta dimensão, o tempo. Esses conceitos não me chateiam, o raio do buraco negro, esses sim, chateia-me com aquele desenho idiota. Deve ser para gajos como tu...
- Eu o quê? Claro que vejo buracos negros, basta-me olhar pela fechadura do meu quarto á noite. Está tudo escuro do outro lado.
- Estás-me a dar razão! A representação deles é como se espreitassem pelo buraco de uma fechadura. Eu, por meu lado, gosto de ver as coisas como elas são. Uma massa infinita deforma o espaço em três dimensões e eu tenho partido a cabeça tentando visionar o campo de forças a deformar-se em três dimensões. Só quero visionar, não quero explicar. Como se costuma dizer, um desenho vale por mil palavras.
- E consegues ver?
- Hummm! O máximo que consegui foi uma bola de nada, negra,.... ahahah, um buraco negro na minha cabeça.
- É por causa desse buraco na cabeça que estás aqui, não é?
- Consigo ver a retícula tridimensional que rodeia o tal buraco negro sem ser afectado, pelo menos visivelmente mas á medida que essa retícula se aproxima da massa infinita deforma-se até ser vista como uma esfera negra cheia de vectores convergentes que mergulham naquela área negra onde deixa de haver tempo e tudo colapsa num único ponto. Tás a ver? Consegues imaginar?
- Do género da almofada de alfinetes como os das costureiras?
- Se não te babasses tanto até pensaria que está alguém a espreitar atrás desses olhos. Sim como a almofada de alfinetes. Mas não consigo ver bem, conceber bem os estados intermédios. A imagem na minha cabeça fica difusa, as linhas misturam-se, falta-me a disciplina de racionalizar linha por linha em três dimensões, ou nos três sentidos. Tenho perdido muitas horas de sono a tentar imaginar isso.
- Também perco muitas horas de sono a espreitar pela fechadura para ver se consigo ver a enfermeira...
- Depois tenho a massa cinzenta, um conjunto de vectores a convergirem num único ponto, cinzenta por fora e aumentando a negrura á medida que se aproxima do centro. Depois o choque final. O centro onde todos os vectores convergem fazendo uma acumulação enorme de matéria e energia. Ok, tudo bem e depois? A perfeição não existe, para o centro ser perfeito todos os vectores teriam de ser iguais mas basta um pequeno grão de areia para desequilibrar aquilo tudo. Desequilibra-se e depois? Nada sai pois a massa gravítica é infinita, por isso é negra. Para onde vai?
- Falas muito depressa. Não percebi bem...para onde vão os alfinetes...?
- Sim, sim! Para onde vão os alfinetes? Se o universo nasceu e criou um buraco negro seria natural que entrasse em colapso logo a seguir pois as massas gravíticas infinitas criam-se e auto-alimentam-se. Se eu estou aqui aqui meio louco no meio dos loucos é porque acontece mais qualquer coisa.
- Os alfinetes caem e perdem-se?
- Olha que até me deste uma boa ideia. Mudam de fase. Isto é fácil de dizer mas tenho de ver, se não consigo ver fico maluco... Tenho uma ideia aproximada, quando sonho, quando fecho os olhos penso que estou numa praia, até consigo sentir o sol a queimar-me as costas e os pés a gelarem na água fria, acordo e estou no mesmo sítio, deitado na minha cela mas também estive na praia. Durante uma fracção de segundo estive nos dois sítios. O mesmo acontece no interior daquele ponto minúsculo onde se projectam os vectores, distorcem o espaço tempo e a matéria explode noutra dimensão ou noutro ponto do universo. Desta forma os pequenos grãos de areia que poderiam distorcer o processo são absorvidos, melhor, as distorções quando se manifestam já estão noutra dimensão ou na outra extremidade do universo criando novas galáxias, novas vidas. Eh pá! Tu até me estás a ajudar... ainda ganhas o Nobel... é pena é estares a babar-te outra vez.
- Mas se os alfinetes caírem no chão vais perder alguns...
- Os alfinetes nunca se perdem, mais tarde ou mais cedo alguém vai cravar um deles nos pés, esses malucos têm a mania de andarem descalços. Mas a tua pergunta é engraçada. Sabes, existem um gajos ainda mais malucos do que nós que tentam partir a matéria em pedaços cada vez mais pequenos, átomos, electrões, neutrões, leptões, mesões, etc etc. E todos os dias descobrem coisas novas, fazem grandes fórmulas e cálculos e aquilo vai batendo certo. Mas o que se passa no interior de uma massa gravitica infinita passa-se no interior da matéria. Imagina somar nada a nada. O resultado é nada. Mas se somares uma quantidade infinita de nadas vais começar a ter algo, apenas o raciocínio inverso das metades, para chegares a um determinado ponto tens de percorrer uma metade e assim ad eternum, nunca lá chegas. Mas chegas.. e porquê? Porque a partir de certa altura dás um salto e passas para outra realidade, estás do outro lado do limite. Com o nada é a mesma coisa, juntando uma infinidade de nada, de repente dás um salto para o outro lado e tens uma partícula primitiva, seja ela de energia ou de matéria, o que é a mesma coisa, e a partir daí começas a criar matéria, a criar um universo. Mas começas a ter um problema. Que fazer com tanta matéria que se cria? Junta-se em massas criando os tais ponto de massa gravitica infinita que por sua fez colapsa e se recria noutro lado. Muda de fase.
Acho que te passaste e já me cansas com essa conversa. Vou para a janela apanhar sol antes que nos fechem nos quartos outra vez.
- Espera, falta a última visão. Um toroidal formado de esferas, cada esfera um universo que ao mudar de fase muda ligeiramente de posição percorrendo o toroide até chegar á posição inicial recomeçando o ciclo da vida.
- Jonas! Acabou o intervalo. Toma os comprimidos e não chateies os outros doentes! Disse o enfermeiro pondo os comprimidos na boca de Jonas e dando-lhe água para beber. Vamos para a cela para te tirar o colete de forças! Deves estar a precisar de aliviar a bexiga!
- Apetecia-me comer um donut! Disse Jonas com voz sumida! Gosto daquela forma, sinto-me renascer.

sábado, 13 de agosto de 2016

O génio

O génio

Jonas, sentado na borda da cama olhava aquele objecto brilhante que jazia inerte na sua mão, o pescoço espartilhado por um laço ridículo fazia-o arfar. Suspirou e calçou o sapato negro, brilhante, reflectindo as luzes do candeeiro com umas matizes estranhas. Jonas sorrio, aquele brilho tinha padrões que se encaixavam de uma forma perfeito numa racionalização. O sorriso depressa desapareceu quando sentiu o seu pé apertado e asfixiado naquele pequeno ataúde de cabedal.
-     Tenho de usar mesmo esta farpela? Lamenta-se com voz lamuriosa, já sabia de antemão a resposta.
-     Não te demores que já estás a ficar atrasado! Disse-lhe docemente a sua companheira ajeitando-lhe o cabelo e sacudindo um pó imaginário nos ombros de Jonas.
-     Só por causa de um papel que eu escrevi e chateiam-me com estas coisas! Podias ir por mim, explicavas que estava doente. Dizias-lhe que o papel tinha sido uma piada, aliás é uma piada.
-     Não sejas parvo! Sabes bem que o teu trabalho vale mais do que uma piada!
-     É uma piada! Ainda hoje me rio a ver a cara deles ao ler a descrição do nascimento de um campo de forças, o seu desenvolvimento e desaparecimento numa explosão caótica de energia em entropia total...
-     Eles julgam o contrário!
-     Eles são burros, aquilo é a representação matemática de um orgasmo! A piada é essa! O que eu me ri daquele ser iminente que relacionou com a anti-matéria, o pedantismo com que fez a análise.
-     Vamos... Estás pronto!

Era um anfiteatro imenso, um palco enorme com um quadro negro baço, manchado de marcas apagadas de giz. O anfiteatro tinha a beleza da antiguidade, do clássico. O orador podia escrever que todos teriam acesso. Ao mesmo tempo tinha um ar austero que intimidava, gerações de sumidades ali tinham apresentado a sua sapiência, altaneiros, elevados nas suas cátedras. Esse ambiente belo mas aterrador intimidava Jonas, sentado na primeira fila, tentando alargar o colarinho ridículo que o asfixiava. Jonas olhava para o orador e viu as ondas sonoras emanadas da sua boca, espalhavam-se de um forma harmoniosa até atingirem um obstáculo, reflectiam-se, entrechocavam-se, criavam ondas derivadas que por sua vez se encontravam com as outras ligeiramente desfasadas no tempo que saíam doa altifalantes, ondas essas que vinham aplainadas pelos filtros. Jonas via o som no ar, tão alterado pelas interferências, choques e reflexos e pensou que se o som tivesse cor estaria agora no meio do oceano. Sorriu com a comparação, a entropia do oceano só é visível á superfície, no seu seio não é tão aparente. O seu sub-consciente mergulhou no meio das águas revoltas onde viu os vórtices, as camadas. A misturarem as suas diferentes densidades, correntes que corriam velozes soltando pequenos vórtices de água, Jonas sorriu, afinal estava num oceano de som. Quando de repente tudo desapareceu, as ondas morreram, ficou o vazio e Jonas flutuava perdido.
-     Estás na lua? Estão á tua espera! É o teu momento! Acotovela-lhe sussurrando a sua companheira.
O terror tomou conta do seu espírito, tinha chegado o momento, estava ali para a matança, ía ser sacrificado. Levantou- se da cadeira e cambaleou, bêbado de adrenalina, o sangue pulsava nas suas têmporas, sangue quente, fluido iluminando-lhe o cérebro, trazendo-lhe a luz que há muito ansiava. Caminhou, resoluto, para o palco, a audiência aplaudia mas Jonas já não navegava, estava agora numa viagem cósmica, o vazio á sua volta, estrela brilhavam no firmamento aumentando as sinapses, levando a frequência das sinapses a um ritmo alucinante.
No púlpito, fez um ligeiro aceno para o apresentador e dirigiu-para o quadro e começou a escrever.

0 = x - x

Depois desenvolveu cada x numa equação diferente mas ambas complexas. E foi subindo na sua complexidade. Desenhavam-se ali conceitos complexos, quânticos, relativistas. Alguém suspirou na audiência, tinha visto a anti-gravidade ou algo que a poderia explicar. Outro julgou ver a anti-matéria.
O quadro enchia-se de conceitos e todos estranhamente ligados pelo sinal de igual quando de repente as equações começaram a ser mais curtas e cada vez mais estranhas.
Jonas resfolegava, casaco no chão, laço arrancado, camisa fora das calças e cada vez mais enlouquecido chegava ao fim dos seus cálculos.

            lim x (n ->i) = lim x(n->0)

Jonas olhou para o resultado de olhos abertos, lágrimas corriam loucas cara abaixo, soluçava como um criança quando sentiu alguém a segurar-lhe nos braços, uma voz doce e uma picada num ombro que o levou á escuridão total.

A audiência estava agitada, discutiam o que viam, alguns recusavam-se a ver sequer, não tinham tempo para loucos. A organização agiu rapidamente, mandou filmar todo o quadro, gravar toda a prova, poderia ser útil mais tarde, estavam ali conceitos que nunca tinham sido vistos nem abordados.

Uma pessoa manteve-se sentada, olhar fixo na equação final, chorava de mansinho lágrimas de dor.
-     Não se preocupe minha senhora! Ele será bem tratado, provavelmente teve um esgotamento. Nada que um bom descanso não trate.
-     Você não consegue entender se não conhecer a história. Tem de a conhecer para entender aquela maluqueira de equações.
-     Você entende? Pergunta desconfiado o organizador do evento. Entende aquela matemática?
-     De maneira nenhuma! Aquilo é chinês para mim! Só o resultado tem um grande significado para nós os dois. Ele começou com um zero e partir daí evoluiu e pelo que o conheço estava á deriva nos conceitos, uns atrás dos outros até começar a encontrar um fim e ir até lá. Chegou e enlouqueceu de dor. Como eu estou agora.
-     Pode-me dizer? Dá-me uma pista?
-     Zero é igual á equação final. Quando n é infinito e n é zero, é tudo zero, acabou. Vive apenas no cosmos, no universo, na memória.
-     Não entendo...

-     Nós chamávamos Nino á nossa neta.... E dizendo isto a companheira de Jonas desmanchou-se num pranto silencioso entrecortado por um soluçar de dor. Ali no meio, vocês podem ver a vida e aprender com ela.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sem título... basta a loucura!!!!

Estou aqui sentado na minha secretária olhando com ar vazio um ecrã que nada me diz e nada me dá de novo. Sou subjugado pelas recordações que me afogam o espírito, que me inquietam. É triste a saudade, é triste a solidão e neste momento é apenas o que sinto. O manto enorme e negro da solidão. Está tudo longe, tudo inalcançável, resta-me apenas o vinho amargo no fundo de uma caneca onde jazem algumas moscas afogadas na sua ansia. Estou aqui sentado e escrevo a minha alma. Daqui a um pouco irei para o mar onde poderei olhar o horizonte, onde poderei sonhar pois o mar tudo permite, é o local onde os sonhos são realidade morando lá longe, naquela linha para onde navegamos e nunca alcançamos. um dia irei para casa, descansar e falar com os meus gatos, discutir filosofia com o Fu, política externa com o Nobita e sonhar na minha varanda olhando o recorte do horizonte, o recorte da serra, o recorte da cidade a que eu não pertenço.
Não estou triste, estou melancólico, estou saudoso, de vida, de um sorriso... entretendo vou ouvindo Sigur Ros...
Ainda hoje sinto saudades de uma paixão que tive aos dez anos, maldito este cérebro de minhoca.... adeus sorriso bonito, faz boa viagem.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Jonas 8 - O renascer

A eternidade passou num ápice, Jonas abriu os olhos e sobressaltou-se, aqueles grandes olhos verdes que o miravam expectantes assustaram-no. Fez um gesto de defesa, inútil pois estava amarrado á cama. Acalmou-se, aqueles olhos eram tristes, doces e pareciam suplicar algo que Jonas não entendia. A sua mente ainda num turbilhão, a ideias, as imagens, as memórias todas a saltarem ao mesmo tempo, Jonas fazia um esforço insano para as agrupara, para pôr um pouco de ordem de modo a que conseguisse dar um pouco de lógica aos últimos acontecimentos. O turbilhão era demasiado e aqueles olhos desconcentravam-no.
- Onde estou? Que me aconteceu?
- Aparentemente caiu e bateu com a cabeça! Exclama a rapariga, e, mudando de tom de voz ralhou. O menino está muito fraco para se levantar sem ajuda! Para a próxima tem este botãozinho, carrega e chama-me!
- Porquê esse olhar triste? Não me vai dizer que é porque eu não carreguei no botãozinho!
- Nada, não estou triste apenas cansada!
- De aturar malucos, não?
- Nem imagina! Exclama a rapariga afastando o olhar para a janela e olhando lá para fora, para o parque de estacionamento onde um vulto cabisbaixo entrava num carro e se afastava. Nem imagina quanto farta estou eu!
- Farta de aturar malucos sãos ou doidos como eu?
- É assim! Vira-se a rapariga com os olhos a faiscar. Se continuar com essas perguntas fico farta de aturar parvos. Já me chegam os malucos e os doidos.
- HummmmM para a próxima carrego no botãozinho! Que fúria. 
Jonas sorriu e deitou-se olhando para o tecto, a sua mancha lá estava.



O tempo passou assim como o dia, Jonas apenas pensava no que lhe restava das suas memórias, lembrava-se dos factos e esquecia-se dos nomes, lembrava-se das sensações e passavam-lhe as datas, a cronologia. 
De repente um cheiro veio-lhe á memória, um cheiro quente, suave, doce. Um perfume á muito enterrado no interior do seu consciente, o perfume de uma mulher que ele tinha amado profundamente, que ele ama ainda hoje, sabe que a ama mas é-lhe totalmente incapaz de se lembrar do nome. Olhos negros, sorriso brincalhão, cabelo cortado curto, cabelo que Jonas se lembra de adorar passar os dedos por aqueles cabelos a partir da nuca arrancando á sua amada arrepios que lhe deixavam a pele toda eriçada, os mamilos arrepiados para divertimento de Jonas. Era assim que começavam normalmente os seus jogos amorosos. Beijava-lhe o pescoço aspirando o seu perfume, o seu cheiro, mordia-lhe a nuca como os animais fazem ás suas fêmeas para as dominar, esta nunca se tinha deixado dominar, era brava e por isso Jonas perdia-se sempre. E as memórias corriam mostrando uma vida que ele tinha tido e que agora estava totalmente desligado, não se lembrava, tinha-a perdido para algo, para alguém.
- Desculpe-me o meu mau génio á bocado! Exclamou a rapariga á porta do quarto. Não devia ter sido malcriada!
- Se calhar eu não devia ter sido parvo e estar com gracinhas com uma pessoa que se via que estava nervosa e ou cansada. Digamos, farta de aturar malucos. Exclama Jonas com um sorriso.
Já agora! Está mais bem disposta?
- Hummm! Já passou! E você? Tenho estado aqui a observa-lo e quase se podia ver as rodinhas dessa cabeça a rodarem a uma velocidade incrível, quase se podia ver o brilho de uma lagrimazita a querer escapar desses olhos. O que se passa?
- Memórias de tempos passados, memórias de amores e paixões que não regressam nunca mais, memórias e mais memórias.
- Entendo! Mas porque não põe para detrás das costas e segue em frente? Existe vida no seu futuro.
- Existe vida sim, mas eu sou aquilo que fiz e vivi,não quero pôr a minha vida para detrás das costas só porque causam dor. A minha vida é o único bem que eu tenho e que levarei comigo quando morrer. Quero-a toda presente.
- Mas isso deve-lhe ser bastante penoso. Sofrer de novo para quê? Passou e não se pensa mais nisso.
- Não é bem assim. Se sofri é porque houve algo de bom que se alterou e passou a causar sofrimento, eu quero esses pedaços bons de volta, quer lembrar-me deles, vive-los novamente nem que para isso volte a sofrer a sua perda.
- Se você está sempre a viver o passado não vive o presente nem terá futuro.
- Bem observado mas não é assim que acontece comigo. Vivo o passado, o presente é sempre o presente e vivo-o intensamente, esta conversa é um exemplo disso, está-me a dar prazer argumentar consigo com um início de tentativa de sedução ao mesmo tempo que já estou a fazer projecções para o futuro, a desenhar todos os possíveis cenários que esta conversa poderá produzir. Faço isto tudo ao mesmo tempo.
- Está-se a meter comigo, está a gozar-me! Replica a rapariga com um tom de voz ofendido.
- Estou a brincar, não a gozar. Existe uma grande diferença. E eu só brinco com pessoas de quem gosto. E a sedução é uma coisa que existe sempre entre um homem e uma mulher. Nós gostamos que o outro goste de nós, mesmo que seja só simpatizar, admirar. A sedução no sentido lato não implica sempre sexo. Embora, você como uma mulher muito bonita que é, seja difícil de não querermos seduzir.
- Oh! Não diga asneiras! Mas voltando ás memórias e á vida. Deve ser muito cansativo essa maneira de se viver, a sua cabeça não deve parar.
- Como tu disseste, vou tratar-te por tu pois como já me declarei e não levei chapaao acho que ganhei o estatuto de te poder tratar por tu. Como disseste, quase que podias ver as rodinhas do meu cérebro a trabalhar, é assim todos os dias, a toda a hora. Se descontraio, adormeço, de exaustão provavelmente. Mas não consigo fugir a este remoinho, sempre a lembrar, a viver e a projectar. Muitas vezes, quando interrompo, fecho os olhos e sonho, sonho vidas que nunca vivi e que nunca viverei, apenas na minha imaginação os vivo. Sonhos e fantasias, milhões de vidas. O problema é manter a coerência, não misturar os sonhos com as memórias reais.
- Se calhar é por isso que estás aqui. Replica a rapariga usando o tratamento por tu. Flipaste totalmente e queimaste os fusíveis. Bolas, não devia estar a falar contigo assim, afinal és um doente e eu não posso dizer estas coisas! Exclama a rapariga tapando a boca com a mão e corando como uma adolescente. 
- Não te preocupes! Desde que o digas quando estivermos a sós não terás problemas. Passa a ser o nosso segredo! Diz Jonas com ar malicioso.
- Hummm! Não estou a gostar muito desse olhar de felino!
- Claro que faço este olhar de felino. O segredo une-nos, dá-nos uma cumplicidade e é altamente sedutor. Eu gosto de seduzir. E quando vi esses teus olhos verdes, fui eu que ficou seduzido, agora vingo-me! Diz Jonas com um sorriso de criança de orelha a orelha.
- Parvo!!! Diz ela corando. Chega de conversa, tenho mais trabalho para fazer e outros malucos para aturar. Põe-te bom!
- Ana! Chama Jonas com um sorriso. Não tenho direito a beijinho de adeus!
Ana abriu os olhos de espanto, não esperava este rápido desenvolvimento, tinha sido apanhada de surpresa. Corou e apenas respondeu com a primeira coisa que lhe veio á cabeça.
- Nunca com a barba por fazer!! E saiu batendo com a porta.

Jonas sorriu, a rapariga agradava-lhe, era bonita sem ser uma estampa, tinha um olhar doce e meigo que o encantava, tinham sido aqueles grandes olhos verdes que o tinham seduzido. E Jonas começou a desenhar todos os cenários possíveis para uma futura relação até que adormeceu, já a noite ia longa.
Lá em cima, no escuro da noite, as estrelas brilhavam intensamente.


24 de Maio de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Um copo

Gargalhadas, risos e sorrisos
Copo na mão, gelo que se derrete
Conversas, palavras que voam
Ecoam na noite, atingindo a alma
Risos e rostos, cabelos e olhos
Ali, para mim e para ninguém
Vapores quentes que nos libertam
Faltou a palavra mágica
Faltou o gesto, o toque
O paraíso avistado e não encontrado
Doces palavras, doces sorrisos
Quis beijar, a noite que era doce
Fui abraçado pela amargura
Acabei só
Olhando o tecto de uma câmara vazia
Sonhando que um dia


18 de Maio de 2015

Olhando o tecto

Deitado olho o tecto
Amarelo do tempo
Perdia-me na vida antes vivida
Memórias, pedaços de filmes
Maus actores e enredos baratos
Histórias, apenas histórias
Vida esfomeada, louca
Procurando a fome
Querendo a fome
Morrendo todos os dias
Um pouco
O desejo ardendo, penetrante
Deitado olho tecto
Recordando, morrendo cada segundo
Dor pungente sobre o peito
Ânsia de vida, fome de vida
Tanta dor, tamanha dor
Por nada, para nada ter
Por nada alcançar
Deitado sonho, vida vivida
Vida almejada
Aspiro sofregamente, sofro
Falta-me o ar, o alento
Deitado olho o tecto e morro
Mais um dia.


17 de Maio de 2015 

Voava

Voava sobre o oceano
Sentindo o vento a uivar aos ouvidos
Uivos e lamentos de alma sofrida
Voava sobre o oceano de mar azul
De espuma branca
O espírito corria livremente
Tocando a crusta das ondas
Sentindo o frio das águas
Voava sobre o oceano
Preso por correntes, grilhetas de vida
Voava como um preso voa em sonhos
Liberdade nunca tida, nunca alcançada
Voava sobre o oceano
A fome a apertar, a sede a enlouquecer
O vento uivante rugia a sua fúria
No ar, no alto via a vida, espraiando-se
No horizonte longínquo
Asas firmes num voo planado, exaustivo
Olhar penetrante, bico afilado
E nada á vista, o vazio
A fome
A sede
A loucura que tudo escurecia
O sol escondia-se, cansado
As sombras invadiam o dia
Voava sobre o oceano de negras águas
O céu já se confundia, a terra desaparecia
O negro tudo cobria, engolindo a vida
Voando, exausto, nadava na escuridão
De uma noite sem fim
De uma noite fria
Sem estrelas
Sem luar
Apenas eu, a voar sobre o oceano.


17 de Maio de 2015

domingo, 10 de maio de 2015

O terror

Nadava num mar estanhado cor de cinza com a consistência e aparência de chumbo derretido, a vaga mole e larga ondulava a superfície fazendo -me balouçar docemente e elevando um pouco de modo que podia ver a faixa da areia um pouco antes do horizonte e encimada por um renque de árvores de copa ver. Nadava devagar sentindo as presenças á minha volta, vultos que passavam esguios junto de mim, vultos negros e imensos. A inquietação a aumentar, a transformar-se no medo, a escalar para o terror.
Na minha imaginação eu via a fauces horrendas cheias dentes dos tubarões assassinos que me rodeavam, já não consegui nadar, já não os via, apenas os sentia. A sua presença era marcante mas sem nunca se mostrarem, passavam junto e encobertos pela água transformada em chumbo que impedia a minha natação, tolhia-me os movimentos. Abria a boca para gritar e não conseguia arrancar nenhum som da minha garganta, o medo apertava, o terror esmagava-me e eu sentia-me cada vez mais indefeso.
A superfície do mar cor de cinza ondulava e eu já nada fazia, sobrava apenas o terror quando uma sombra enorme avançou, rápida e mortífera, vinda na minha direcção até se transformar numa fiada de dentes...
Acordei alagado em suor, coração palpitante, trémulo. Tinha sonhado outra vez com o mar de chumbo cor de cinza deixando-me abalado, tonto. Só me restava voltar a dormir, o próximo pesadelo já estava á espreita.


10 de Maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O precipício


Á beira do precipício me sinto
Agarrando as nuvens, brancas
Etéreas, passageiras
A dor a entranhar-se, novamente
Insidiosa
Á beira do precipício olho
A vida, que se escoa, ardente
Sento-me e choro
O tempo que morre
Todos os segundos
Uma eternidade


7 de Maio de 2015

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Jonas 7 - O acordar

Jonas acordou com aquela sensação de estar a ser observado, a sensação que a presa sente quando um predador ronda as cercanias cheio de fome. A sensação de terror assolava o seu espírito, o medo do que se escondia para lá das trevas, o medo que lhe tolhia os sentidos, os movimentos. Queria gritar e não saía nenhum som da sua boca escancarada, queria fugir e estava imobilizado, a adrenalina no máximo, o coração a saltar-lhe a boca, a fera a aproximar-se, o terror imenso.
Com um grunhido que lhe soou a um berro na noite Jonas conseguiu abrir os olhos.


- Calma Jonas! Estavas a ter um pesadelo! Acalma-te! Diz Ana, a rapariga que já há muito tempo que tratava daquele ser ali encolhido, sempre atormentado.
 Jonas viu aqueles grandes olhos verdes como lagos de esmeralda que o fixava com ansiedade. Atrás dos olhos estava uma cara de anjo, pelo menos foi o que pareceu, uma cara bonita, alva, envolvida numa cabeleira negra cortado curto. Era a rapariga mais bela que Jonas jamais tinha visto.

- Onde estou? Que faço aqui? Pergunta Jonas reparando no uniforme branco da rapariga.
- Tem estado aqui já há umas boas semanas! Trouxeram-no para cá depois de o terem encontrado!
- Encontrado? Não entendo!
- Deitado á beira mar, meio afogado e sempre que acordava tinha autênticas crises de loucura, tínhamos de o sedar! Lembra-se de alguma coisa? É capaz de me dizer o seu nome?
- Meu nome é....! Meu nome é...! Jonas toma consciência que perdeu tudo, o nome, a identidade, a vida. O seu coração começou a acelerar, a ansiedade a aumentar, o monitor a apitar.
- Tenha calma! Disse a rapariga com voz doce. É um estado passageiro, é natural uma certa desorientação.
Jonas respirava ofegante, o ritmo a baixar, o coração a baixar o ritmo, começou a avaliar a situação.

- Devo ter família que provavelmente estará á minha procura. Tenho impressões digitais por isso posso ser identificado. Deve ser relativamente simples.
- A polícia já tem os seus dados e não conseguiu nada. Ninguém procura ninguém com as suas características. Está a ser um mistério!
- E você gosta de homens misteriosos? Pergunta Jonas com uma gargalhada. Pelo menos não perdi a parvoeira inata!
A rapariga corou ligeiramente e nada disse. Continuou a sua tarefa de arrumar equipamento médico.

- Olhe, eu sou o homem misterioso e você? Como se chama? 
- Ana!
- Prazer em conhecê-la Ana! E obrigado por ter tratado de mim!
- Foi apenas a minha obrigação! Retorquiu a rapariga rapidamente, desviando o olhar. O raio do homem olhava fixamente com um olhar meio louco e penetrante. Ana sentia que aquele olhar lhe perscrutava os pensamentos mais íntimos.
- O seu sorriso não era obrigação de serviço. Era um sorriso de pessoa que se importa e é isso que agradeço.
- Ainda falta algum tempo para o almoço, quer comer alguma coisa? O médico deve estar a chegar.
- Eu espero! Resmunga Jonas virando-se de costas.

A rapariga saiu do quarto e dirigiu-se para a sua mesa, escrever o relatório e terminar algumas tarefas e rotinas.

- Onde estiveste? Pergunta João com ar macilento, barba por fazer e ar descuidado.
João nunca mais tinha recuperado daquele maldito almoço onde perdeu a mulher, a namorada e quase a vida. Estava em decadência, sabia-o e não conseguia evitar. O próprio trabalho começava a ser um inferno, encarar diariamente, trabalhar diariamente com aquela que tinha amado, que desejava loucamente transformava a sua vida num inferno.
João olhava para Ana e as suas memórias voavam, cruzavam o céu deixando rastos de fogo que lhe incendiava a alma, o leve cheiro dela chega-lhe ás narinas carregando com ele todos os sabores de noites passadas juntos. Ela tinha-se afastado.

- A fazer o meu trabalho e parte do teu! Responde Ana bruscamente olhando-o de frente, desafiadoramente. E é bom que comeces a fazer as tuas tarefas pois cada vez tenho menos paciência de aturar meninos birrentos.
João olha aqueles lindos olhos verdes, carregados de fúria e perdeu-se.

- Larga-me sua besta! Estás-me a magoar! Grita a rapariga furiosa e receosa daquele ataque estúpido e tresloucado. Olhando em volta, agarra numa bandeja e atinge o seu agressor na cabeça.
De imediato o monitor de sinais vitais começa a ressoar.

Jonas sentiu uma pancada brutal na cabeça e nunca percebeu o que lhe tinha acontecido, só queria ir á casa de banho, a sua habitual reserva tinha-lhe impedido de chamar a enfermeira, tentou e desfaleceu. 
A mancha no tecto branco lá estava, ele via-a numa névoa vermelha. Algo estava errado, estendia a mão e nada sentia, a visão parecia-lhe olhava por meio de um tubo de cartão negro, as cores a ficarem sépia, a respiração cada vez mais ofegante, o mal estar a invadir-lhe o corpo. Um mal estar generalizado, parava-lhe o corpo, queria vomitar e nada saía. Estava fraco e fechou os olhos e acordou encerrado numa cúpula toda negra, a ausência total de luz, de som, de cheiros, de tudo o que fossem sentidos, não sentia o corpo, sentia apenas que não respirava, afogava-se no nada, abria a boca e saíam golfadas de nada, começou a sufocar, começou a morrer lentamente, escorregando para o nada até que a própria escuridão se apagou.


- Que aconteceu? Pergunta o médico olhando para aquela cena caótica, o corpo de João, no chão, enrodilhado e sangrando abundantemente da cabeça.
- Ele atacou-me! Grita Ana com um leve tom de histeria na voz. Está totalmente descontrolado! 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Jonas 6 - A verdade

- Ana, apresento-te a minha mulher, Luisa! Diz o rapaz com ar ligeiramente comprometido, cara corada, enquanto puxava de uma cadeira para que a rapariga, sua colega, se sentasse no restaurante que tinham combinado encontrarem-se. Ana queria conhecer a mulher de João.
- Bom dia Luisa! O João não fala muito de si e não entendo a razão, é tão bonita! Diz a rapariga estendendo a mão e olhando com olhos fixo como um felino á beira de um ataque.
Luisa, mulher um pouco mais velha, de cara e corpo bonito, sorriso agradável e olhos emanando segurança apenas retorquiu.
- Porque ele é um tolo! E sempre me garantiu que a sua colega de trabalho era uma velha chata.
- Alto lá! Eu disse que ela parecia uma velha chata, pelo menos nos primeiros dias!
- E depois apaixonaste-te como de costume não foi? Retorquiu Luisa com voz gélida. E virando-se para Ana perguntou:
- Porque me quis conhecer? Sentiu-se enganada quando soube que esse mongo era casado? E quis conhecer a coitada?
- Não sejas assim Luisa, ela não tem culpa e ninguém te trata como coitada. Eu descaí-me e ela descobriu. Apenas quis pôr tudo em pratos limpos.
- Quando se faz merda aguenta-se com a pancada e não se arrasta ninguém. Descobriu, tinha duas soluções, continuava como estava e ia dando umas quecas até se fartar ou abandonava o barco, deixava-te e não incomodava ninguém. EU não tinha de saber, eu não precisava de saber. Percebeu menina? Agora vou escolher que estou com fome! E dizendo isso pegou no menu e começou a le-lo.
Ana corou intensamente com a tirada simples e directa de Luisa, não esperava aquela atitude, ela que sabia tudo e tudo sabia ficou sem palavras e começou a examinar a lista de vinhos.
- Eu cá vou pelo bife com ovo a cavalo e molho de cogumelos, estou cá com uma fome!
Se o olhar matasse João teria caído morto nesse momento com o olhar que as duas se lhe dirigiram.

Jonas sentia-se perdido naquele pântano de águas fétidas, caminhava enterrando as pernas até aos joelhos em lama mole que o sugava gulosamente para o seu interior. Jonas fugia daquela velha inimiga, aquela que o perseguia sempre, aquela que o levava para campos de loucura insana. A perseguição continuava, implacável, não havia lugar no universo para se esconder, ela encontrava-o sempre. Apanhava-o e mordiscava-o, dentadas pequenas de dor intolerável, sangue escorria fluido até se coagular fechando feridas frescas em velhas recordações. A sua inimiga aparecia sempre de surpresa, de sorriso nos lábios, beijava-o como se de uma amante se tratasse e magoava-o com as doces palavras sussurradas ao ouvido deixando Jonas desconcertado, impotente. Ela afastava-se então com uma gargalhada, riso cristalino capaz de derreter um bloco de gelo. Jonas tentava a todo o custo fugir. Escondia-se nas montanhas, enterrava-se no deserto, mergulhava nos oceanos e era sempre descoberto e era sempre torturado por aquela que ele, com o tempo começou a odiar, aquela que ele um dia amou perdidamente. Hoje perseguia-o implacavelmente e Jonas enterrava-se na lama peganhenta, pútrida que o começava a engolir.
Desesperado olhou para cima fixando os olhos daquela que ia causar a sua morte e gritou:
- Eu morro e tu vais atrás!
- Eu sei! Eu amo-te, eu sou a tua consciência! Gritou ela saltando por cima de Jonas levando-o para as profundezas daquele pântano podre.

- És um idiota! Grita Luisa fora de si olhando Ana tentando reanimar João que morria sufocado no chão rodeado dos restantes comensais que assistiam á cena com piadas idiotas.
- Comes que nem uma besta e depressa, depois é isto! Volta Luisa gritar.
- Está a voltar a si! Arqueja Ana exausta do esforço da reanimação.
- Esse idiota fez esta fita toda para termos pena dele e não o abandonarmos!
- Não seja assim! Ele quase morreu! Diz Ana tentando acalmar a mulher do seu amante.
- Se ele morresse eu ficaria com a pensão e você a chuchar no dedo, ele não morreu, você fica com ele e eu fico livre! Grita Luisa que abandona o restaurante a correr com um rio de lágrimas a escorrer olhos fora.

Jonas abriu os olhos e sorriu de alegria, tinha regressado a casa, o seu lar varrido por ventos ciclónicos que ele tinha aprendido a amar. Sentado no alpendre do seu casebre Jonas olhou o céu estrelado e viu que ela lá estava, a sua Vénus, sorridente, chamando-o. Tão inacessível, tão longe. A adaga fina da dor começou a trespassá-lo, as memórias a flutuarem á superfície, encravando o escoamento fluido das águas. Jonas lembrou-se então, estava perdido, tinha perdido, procurou desesperado. A sua ancora tinha desaparecido, aquele pequeno ponto de sujidade num tecto branco tinha desaparecido, aquele ponto em que ele se agarrava para se manter são tinha deixado de existir. No céu as nuvem encobriram a sua Vénus levando-a para longe, a solidão voltou a assolar Jonas, o manto escuro da solidão, o aperto no peito, a dificuldade em respirar, o ar a faltar, os sentidos a sumirem-se.

- Não me deixes Ana! Eu tentarei explicar-te! Suplica João desfalecendo novamente.


O aparelho de suporte de vida berrou violentamente acordando o pessoal técnico que acorreu prontamente.
O desgraçado no seu pequeno catre estrebuchava violentamente de olhos desorbitados e raiados de sangue.


3 de Maio de 2015

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Jonas 5 - A paixão

Deitado no seu pequeno catre sonhava, de olhos fixos no tecto branco. Sonhava com o som da música que fluía lá ao longe, um lamento longo e belo de alguém, possuído por tamanha paixão a cantava assim. As notas vogavam no ar arrancando anéis de poeira no espirito carcomido de Jonas. As lágrimas corriam livres acompanhando os acordes de tal melodia, serpenteava, encaracolava como só uma mulher apaixonada é capaz, o som vibrante saía claro e cristalino, bafo quente de paixão que aquecendo a alma causa-lhe tremuras de ansiedade, o não conseguir alcançar aquelas notas fazia-o enlouquecer.  
Tremia, a ansiedade a tomar conta dele, a música a ressoar baixinho no seu espírito. O peito apertado num torno invisível que lhe tolhia a respiração, acelerando o coração, as batidas casa vez mais rápidas, a boca aberta ávida de ar, a dor no peito, a morte a avançar lenta mas inexorável. A noite começou a cair,na escuridão a avançar.

Podes para com essa música um bocado? Pede a rapariga com ar cansado de uma noite de trabalho, olhos encovados e cabelos despenteados. Ela canta bem mas é um bicado deprimente. Preciso de uma coisa mais alegre!
- Se quiseres ponho a Julieta, tenho aqui um álbum da Julieta! Pergunta o rapaz com ar de gozo.
- Julieta? Ouves isso? Ou estás a pensar em caçar pitinhas pequenas?
- Náaaaa! A minha sobrinha carrega o player com estas músicas quando me apanha distraído. Quando vai lá a casa visitar-nos o mp3 player é dela! Diz o rapaz com ar embevecido.
- Um momento! Exclama a rapariga com um tom de voz gelado. Visitar-nos? Nos? Quem é nós? Não vives sozinho?

E o silêncio estabeleceu-se entre aquelas duas almas, os dois olhando um para o outro, olhares diferentes mas ambos implorantes. Que seja mentira, vou perde-la..

- Eu vivo com a minha mulher! Ainda não tive coragem de te contar. As coisas aconteceram muito de pressa...
- Granda cabrãooooo!.... ÉS CASADO!!!! Porco! E escondias-me isso! 
- Apenas tive medo que te perdesse. O que aconteceu não estava á espera, não foi planeado. Aconteceu....
- Mais uma parva no rol é o que é...
- ... E desenrolou-se de tal maneira que perdi o controle. Da situação e de mim. Fiquei com medo de te perder.
- Pois perdeste mesmo! Desaparece da minha vida! Grita a rapariga com os olhos cheios de amargas lágrimas e correndo para fora da sala refugiando-se na casa de banho. Um uivo longo e sumido saiu trazendo toda a dor de uma alma abandonada, perdida, naufragada.

O rapaz, de olhar esgazeado, brincando com o mp3 ligou nova música aumentando a dor que se escoava pelas salas, inundando tudo com as suas águas negras. A negação mais uma vez a fazer a sua visita, a negação da vida, as sombras que tudo cobrem, a solidão extrema, a tristeza, tão cinzento, tão negro que as lágrimas começaram a correr. A morte seria libertadora mas ela tardava, ela tardava sempre deixando para trás um ser miserável. Ouvindo aquela diva que cantava aos deuses, aquela diva que tinha tocados os deuses e sido recompensada com o dom de uma voz mágica, que enfeitiçava, prendia, submetia qualquer mortal. O rapaz soluçava lágrimas de dor quando o besouro tocou.
O treino agiu imediatamente e correu para os monitores.

Jonas morria placidamente ao som da sua querida, ele estava apaixonado e ela matava-o com a sua beleza. Jonas abandonou-se naquela corrente que o levava para o paraíso da beleza.

- O que aconteceu? Perguntou a rapariga.
- Está-se a deixar. Está a morrer!
- Faz qualquer coisa... Vou buscar a injecção! 
E os dois mais uma vez, como uma equipa, entraram em accão aguentado os sinais vitais até estabilizarem aquele ser deitado na pequena cama.



Uma faca espetou-se no coração de Jonas levando-o num turbilhão de dor e confusão, o ar a entrar fresco nos seus pulmões, abriu os olhos. Um olhar esgazeado, confuso, louco e viu. A pequena mancha negra no tecto impecavelmente branco do seu quarto, sorriu, feliz e adormeceu assumindo uma posição fetal.

domingo, 26 de abril de 2015

Jonas 4 - O caos

O arrulhar dos pombos ouvia-se ao longe, sussurrante, aumentando som á medida que se tomava atenção até se transformar numa ladainha de namorados. Um relâmpago ecoou na escuridão dando início á tempestade, a chuva caía copiosa encharcando o vulto cinzento que percorria lentamente o passeio, descendo a rua, acompanhando o rego de água que transportava todo o lixo da cidade. Rios de água escorriam-lhe pela cara abaixo arrastando consigo as lágrimas mal contidas. Estava tudo acabado, ela fora-se, ela desaparecera da sua vida. A sua paixão tinha-se finalmente fartado e deixara-o. Estou farta de pessoas que me puxam para baixo, quero alegria, exclamara ela quando arrumava as suas coisas e abandonava Jonas na sua solidão. Ele nunca compreendeu o porquê de tal acto, estava tudo tão perfeito, a vida corria ligeira, apenas com alguns sobressaltos, ele nunca entenderia a razão de tal decisão.
A solidão ao princípio era dolorosa, com o tempo tornou-se asfixiante, agora era enlouquecedora, Jonas via sinais dela em todos os pormenores da vida, desde o chilrear de um pardalito até á sombra de uma majestosa nuvem no céu azul, tudo era ela.
Jonas começou a beber mas o único resultado era soltar a sua mente irrequieta deixando-a sem controle, as ideias mais parvas afluíam ao seu cérebro como a corrente de um rio de águas barrentas. Ideias fantásticas, algumas delas de uma sofisticação que deixava os outros abismados, lógica terrível e utilidade nula. E Jonas esmiuçava teimosamente esses pequenos detalhes até á exaustão até que percebeu que esse não era o caminho, deixou de beber, de se intoxicar.
A sua mente, limpa de vapores estava mais acutilante mas o problema persistia, continuava sem entender, nunca entenderia o que não tinha explicação, nunca entenderia as suas razões, era ilógico negar o inegável e no mundo da lógica o oposto era a não existência logo não podia acontecer. Jonas estava não conseguia sair desta armadilha da mente, tão simples e tão mortal. Começou a descuidar a sua aparência que normalmente nunca tinha sido brilhante, ele não via necessidade, dizia que um presente contava pelo que era e não pelo invólucro. Deixou de se alimentar em condições começando a deambular pelo limiar da fome fazendo que os seus sentidos se aguçassem, que todo o seu primitivismo de caçador viesse ao de cimo, andava nas ruas com olhar esgazeado como se procurasse uma presa fazendo com que as pessoas se afastassem de tão sinistra figura. Desta forma, repetindo até á exaustão uma ladainha que era a exposição do seu problema insolúvel Jonas foi apanhado pela tempestade deixando-o lavado de todas as ilusões, afinal havia beleza no caos, como era possível ele não ter visto isso, tinha percebido finalmente ao ouvir uma música dissonante cheia de beleza.
Jonas parou, olhou para as nuvens negras de chuva e finalmente gritou. Um grito longo, dorido. O caos a entupir-lhe o espírito, a alegria da beleza do caos, a dor da perda, tudo se conjugava, tudo se encaixava, no fim o caos maior, a morte reveladora, a passagem para o nada ou para um caos totalmente desordenado onde as certezas duravam o tempo de um pensamento, onde a alegria se fundia com a melancolia, com a dor. Seria o universo um caos tão perfeito? 
Jonas acalmou-se, respirou fundo, estava sentado num banco de um jardim, olhando para a estátua que ele tão bem conhecia, que ele queria conhecer e que estava tão longe que tornaria impossível qualquer ligação,ma estátua de uma bela mulher que contemplava o horizonte que se estendia para lá do oceano, a estátua e a sua amada eram a mesma pessoa, aquela que olhava para além do horizonte e que o deixava totalmente abandonado, ele nunca a teria. Jonas chorou a sua tristeza e tomou a decisão, lutar pelo que queria, pelo que desejava, pelo que amava. Levantou-se e começou a caminhar em direcção ao horizonte, ela lá estaria á sua espera, olhando-o com aquele olhar que o encantava. Caminhava lentamente sentindo o frio a subir-lhe penas acima, o seu destino gelado, a alegria do encontro.
Algo estava errado, abria a boca e tentava aspirar o ar, sufocava quando viu o sorriso, maroto, que o levou.

- Que aconteceu desta vez? Pergunta a rapariga olhando para aquele corpo molhado e macilento.
- O costume! Fugiu á procura de uma loucura e quase se afogou na baía. Este está mesmo passado.
- Coitado! Qual será o problema dele? Pergunta a rapariga curiosa.
- Pelo que balbucia deve ser coisas de saias, alguma que lhe fugiu e ele queimou os fusíveis.
O homem aproximou-se da rapariga, abraçou-a, puxando-a para si e faz-lhe uma festa.
- Gostei de te encontrar e de certeza que ficaria assim se te fosses embora!
- Credo homem! Estou bem assim, não comeces a stressar com o que não existe, com que não aconteceu.
- Eu sei. Mas começo a entender esse desgraçado. Desejar e não conseguir ter é uma dor muito grande. Existem pessoas que conseguem enterrar o assunto, outras arranjam substituições, outros, muitos infelizmente fazem merda, agridem o que não podem ter. Os que realmente amam, não só não esquecem como não enterram, enlouquecem pura e simplesmente. Este desgraçado deve estar nesse grupo. Eu começo a compreender e temo pertencer também.
- Não sejas tolo, começámos a namorar há meia dúzia de dias e já estás nesse estado. E eras tu que chamavas de maluco a este desgraçado.
O homem suspirou e nada disse, já não havia nada a dizer, não queria falar do assunto, ela dominava-o totalmente. O seu sorriso, o seu olhar, o aroma do seu pescoço, o contacto da sua pele. O modo como ela respirava ao seu ouvido quando faziam amor, o modo como gemia quando ele mergulhado no seu íntimo lhe arrancava orgasmos atrás de orgasmos, a energia que fluía entre eles. Não havia igual, não havia substituição, nunca haveria esquecimento, ele tinha a certeza de que nunca se libertaria, só a morte o separaria. Sorriu tristemente, essa alegria imensa causava uma grande ansiedade. No dia em que ela partisse ele morreria.

- Vamos tratar dele, mudar-lhe a roupa! Exclama o homem de supetão afastando os fantasmas que começavam a assolar o seu espírito.  
- Sim, vamos! Responde a rapariga com olhar interrogador para o seu novo namorado. Que se estava a passar naquela cabeça tonta de macho na época de acasalamento?
Acabaram rapidamente o trabalho e afastaram-se para a sala de descanso. Um silêncio incómodo tinha-se instalado, iniciando um dolorosa separação, o terror que o homem temia.
Conheceram-se no trabalho, tinha sido a situação do desgraçado que os tinha unido e agora era o mesmo desgraçado que tinha iniciado o processo corrosivo da separação. Ele tinha-se mostrado obsessivo e ela tinha-se assustado, um grão na engrenagem de uma relação inicia o seu desgaste, se não for contido rápida e eficazmente tudo ruiria. Ele tinha de agir rapidamente. Mas como? Elas eram o que mais se assemelhavam ao caos, a incerteza é uma religião para as mulheres, ele tinha de ser rápido.
Com estes pensamentos, essas dúvidas ele adormeceu não notando o olhar perscrutador dela, olhava-o fixamente tentando avaliar o que valeria aquele homem quando acabou por adormecer também, abraçada a ele, sentindo a segurança da sua presença.

Jonas olhava fixamente o tecto branco do quarto,numa pequena nódoa negra incomodava-o, era o caos naquela brancura total.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Jonas 1 - A travessia do deserto

Jonas caminhava lentamente, pesadamente, todo um peso de uma existência em cima dos seus ombros que começavam a denunciar os anos de desgaste, a pele a enrugar, os músculos a mirrar. Jonas caminhava de olhar perdido no horizonte sem fim, torrado pelo sol abrasador do meio dia.
As areias finas entravam escaldantes como jorros de lava nos seus sapatos já gastos da caminhada e dos anos. Os grãos ardentes entravam em contacto com a pele e cada passo era como se de uma lixa esfregasse a pele já vermelha de sangue e aguadilha das imensas bolhas que apareciam e borbulhavam devido á caminhada sem fim. A dor dos pés há muito que tinha sido ignorada, os lábios gretados e ressequidos abriam-se num grito mudo de uma sede imensa por saciar.
Os olhos, queimados pelo sol, irritados pela poeira gritavam e tentavam futilmente soluçar, chorar por uma lágrima perdida que conseguisse trazer um pouco de alívio, as imagens já eram indefinidas, apenas a linha do horizonte bailava ao sabor das vagas de calor separando um azul cru de um amarelo torrado pelo sol.
Jonas caminhava, tinha de chegar ao seu destino, era de sua responsabilidade o simples facto de chegar, os custos não interessavam, poderia morrer depois mas só depois de chegar. Jonas cumpria a sua obrigação como sempre fez, como sempre viveu, caminhando, atravessando mares e oceanos, pântanos e desertos, nunca parando.
Arfava, respirar era penoso, as vias todas ressequidas exauria-lhe as forças, tentava chupar a língua para obter um pouco de saliva afim de humedecer a garganta, o simples acto de respirar fazia com que o deserto lhe roubasse cada vez mais água, precisava de beber, precisava de descansar.
Já há muito que tinha deixado cair um sapato, não tinha tido coragem de voltar um passo atrás e apanhá-lo, o esforço teria ido demasiado violento, automaticamente o seu pequeno cérebro dava a ordem ás pernas para se moverem alternadamente. A planta do pé em sangue, a areia a entrar pelos pequenos rasgões entranhando-se na carne, a dor de tão intensa já tinha passado para outro estágio, apenas uma muito intensa fadiga o invadia. Um fim do dia que se punha, transformando as cores em sépias e anis, escurecendo a visão carregando consigo um mal estar tão intenso que Jonas começou a vomitar, inicialmente um pouco de ácido que o seu estômago ainda conseguia produzir e no fim apenas convulsões gritantes. Jonas arrepanhava a boca num ríctus de esforço, não parava, não vacilava e a noite punha-se estrelando o céu de cintilações cada vez mais brilhantes até ao oblívio.

Numa cama branca, num quarto todo branco de paredes acolchoadas um homem e uma mulher olhavam para o vulto que se contorcia, amarrado numa camisa de forças. O homem estava desacordado mas remexia-se num pesadelo que só ele conhecia, que só ele vivia.
- Este parece que queimou os fusíveis, foi encontrado numa praia a andar sem destino até cair! Exclamou o homem vestido de branco a condizer com a sala. Por enquanto nasceu outra vez pois foi encontrado mesmo no limite.
- Quem é? Sabem quem é o sujeito? Pergunta a jovem mulher.
- A polícia não tem a certeza, tinha um bilhete meio apagado com uma nota escrita por mão de uma criança onde se lia: "jonas o meu v..." O resto estava ilegível. Mas ficou registado como Jonas.
Que significará o "v"?
- Pelo aspecto dele só se for de velho! Responde o homem soltando uma gargalhada.

Jonas ouviu um som conhecido ao longe, ecoando em paredes e labirintos. O som ecoava cada vez mais forte até Jonas o identificar, o som de uma gargalhada, alguém se ria alarvemente de uma estúpida piada qualquer irritando Jonas, tirando-o do seu limbo. Já colérico abriu os olhos.

- Olha! Disse a jovem mulher. Ele acordou!
- Porra, logo agora no fim do nosso turno. E sem hesitar dá uma injecção de um calmante qualquer atirando Jonas para um limbo sem história, desligou-se novamente.

Jonas abriu os olhos e chorou, estava no início do seu deserto outra vez. Sentou-se no chão e chorou convulsivamente sendo apenas ouvido pelas pequenas pedras que se banhavam na areia escaldante.
Levantou-se e começou a andar...



22 de Abril de 2015   

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O deserto com flores

Areia ardente e agreste
Caminho meio louco
De sede
Quero beber, saciar-me
Flor do deserto
Teu sumo sacia minha sede
Meu desejo
Caminho meio louco
Balbucio ideias loucas
Estou louco
No deserto
De ardentes areias
Flor numa miragem
Oásis de leite e mel
Caminho
Sem destino
Sem fim
Queimando-me
Nas areias do deserto


18 de Abril de 2015

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Afogamento

Gosto da figura do afogar, gosto pelo seu significado. Afogar é estar rodeado por água, estar envolvido por água, saturado. Eu afogo-me no turbilhão dos meus pensamentos que tal como água fluem incessantemente, são salgados e fazem arder os olhos.
Tal como um afogamento em que o afogado rende-se ao respirar a água e atingem o alívio máximo, teoria desenvolvida por alguns, eu quando me afogo não me rendo até á morte, envolvo-me no turbilhão, luto contra a corrente, espero até ao fim, anseio sempre pela libertação até acordar no outro lado onde a esperança não existe, onde o nada reina, onde as memórias são ténues, pequenos relâmpagos de sinapses meio carcomidas pelo tempo.
Gosto da figura do afogamento, especialmente quando estou afogado no meio das minhas emoções.

A certeza da negação, a certeza da impossibilidade faz-me baquear, faz-me sofrer, a mim que sou indestrutível, sou imortal, não compreendo o porquê ou apenas quero negar uma realidade tão bem conhecida, tão bem estruturada que só eu, tal como Quixote,  quer lutar contra a realidade, esses moinhos de vento gigantescos que rodopiam incessantemente criando os turbilhões que me assolam.

Escrevi uma vez que era difícil descrever uma flor, pior é a descrição de um espinho cravado na carne, especialmente quando o espinho é cravado pela flor que não consigo descrever.
Uma dor no peito, um gemido de angústia, estende-se a mão e não se alcança, a queda infindável nos abismos. Mas não se sente temor, apenas angústia, negra que no extremo só a dor para a ultrapassar.
Quero esquecer, maldigo o diga que tomei conhecimento, bendito o dia que conheci, sofro mas vivo mais um dia, morro menos um dia.
Não tenho paz, não me concentro, é a minha heroína, injectada nos veios do meu espírito. Corre como fogo líquido tudo queimando, enche-me por todos os lados, afogo-me aspirando sofregamente.
Mais tarde, perdido, oiço música, embalando-me docemente noutros oceanos.

5 de Abril de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

Dói-me o peito

Dói-me o peito, o coração salta
Espirito louco rodopia
Quero-a loucamente
Desejo-a perdidamente
Aqueles braços á volta do meu pescoço
Aquelas coxas apertando minha cabeça
Explodindo de tesão
Loucura e sabores
Cheiros e beijos
Amores e perdição
Quero explodir no seu intimo
No seu ser
Beijar aqueles olhos
Que me encantam
Que me cativam
Que me fazem sonhar

Até acordar para terrível realidade
Estou sou
Ela foi-se nas brumas da minha fantasia
Estou só
Suspiro
Dói-me o peito
Coração partido de loucura
De uma fantasia
Mata-me mais um dia
Na minha vida vazia
De uma paixão que perdura


6 de Abril de 2015