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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Ouvindo música

Ouvindo musica, sonhando
Tento mas não consigo
Choro mas não tenho alivio
A merda invade o meu espirito
Cascatas de merda castanha
Fétida, mal cheirosa
Choro lagrimas de fel
Nem sei como consigo
Viver e não morrer
Dói
Pensar, sonhar
Lágrimas arrulhantes que teimam
Em cair
Olho a musica que se ouve ao longe
Sinto a solidão, o deserto
O meu espirito rola com as pedras
De um rio
Aguas barrentas numa corrida
Sem fim
Calhaus rolados, pelo tempo
Meu espirito soluça
Afogo-me
Morro
Hoje partiria sem saudade


10 de Outubro de 2016

Nota do autor: depois levantei-me com olhos húmido e fui jantar como se nada tratasse

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Apenas

Sentado, sonho, penso
Uma vida que discorre
Um sentimento que desponta
Sinto o amargo da existência 
Do nada
Olho e vejo
O vazio do ontem
A escuridão do amanhã 
Oiço música, oiço sentimentos 
Emoções de dor, de paixão 
Sentado soluço a vida
Que não tive
Que tive
Que terei
Espinhos cravados nos pés
Calcorreio caminhos
Meus destinos
Corro
Criança 
Estou sentado e choro
O nada, a escuridão 
Sinto-me a morrer, lentamente
Um sorriso que desmaia
Branco, lívido 
Dentes arreganhados num sorriso
Ela que me chama
Sentado olho, vejo, escuto
O som de um coração que bate
O meu
Morto para a vida
Vivo para a morte
Grita a plenos pulmões 
Sentado choro
A solidão, a dor
De estar
De apenas estar, aqui
Só 
Sentado olho e vejo
O nada
Levanto-me e caminho
Dou o passo e lanço-me
No vazio
Onde finalmente me vejo
Só 


10/10/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O cão



Acordei
Sonos, sonhos revoltos
Distantes, escuros, sem sentido
Acordei, sem ver
Instinto, o calor procuro
A fome, a teta procuro
Empurram-me, gano mansamente
Língua quente, molhada me enrola
Chupo, sugo, mordo
A fome, insaciável corrói 

O fundo do buraco, negro
A luz que entra fugaz
O mundo se revela
A morte se revela
Gritos, guinchos, sangue
Irmãos que desaparecem
Num terror em forma de focinho

Sobrevivo, órfão de irmãos 
Órfão de mãe que uma besta levou
Um guincho, um grito, um embate
E a morte chegou
Deixando-me só 
Filho de pai incógnito
Filho da matilha
Que se dispersou sem nobreza
No dia em que o cheiro morreu
Para eu nascer

A fome visitou-me
A fome deu-me coragem
Saí para o mundo
Enfrentei a luz, corri, patas pequenas
Ser mal feito, desengonçado
Filho do acaso, de pais do acaso
Corri
A fome sempre presente
Cheiros, aromas e perfumes
Desconhecidos, atraentes
Corri, pequeno e assustado
Desesperado

Comida, o cheiro de algo
Instinto me chama, comida
Sacio-me de sabores estranhos
Primeira lição de uma vida
Nunca deixar de olhar
Atacam-me aos gritos
Navalhas cortam-me o corpo
Gritos ensurdecem-me, atordoam-me
Corro, fujo, pânico, terror
Ser estranho me ataca, miando

A vida continua, numa guerra
Surda e mortal
Cheio de cicatrizes cresço
Roubando comida
Ao gato das redondezas roubo
A minha sobrevivência 

Com o tempo a minha área cresce
Diferentes pontos de comida
Diferentes cheiros, ruídos e sons
Aquele gravado que me faz correr
Em pânico
Numa saudade imensa
Aquela língua quente e reconfortante
Não me sai da memória 
Desapareceu com esse som

Mais solto, mais atrevido
Percorro as ruas, marcando
Sem pudor
Todos os cheiros que me desafiam
Não resisto
Marco o mundo
Marco o universo
Até o gato me respeita agora
Cresci

A fome que não desaparece
O frio que aperta
A chuva que me encharca a alma
No meu pequeno buraco
Meu berço
Tirito de frio

Dias cinzentos cobrem o universo
Dias de inverno tolda-me o espírito 
Tenho fome
Estou sempre com fome
Lambo as minhas patas
Distraindo-me com o meu sabor
Adormeço cansado, sonhando
Dias idos, a felicidade ida
Teta cheia de leite, carinhosa
Calor e carinho
Sonho ganindo mansamente

O tempo passou, os anos passaram
A marcação do universo despertou
A ira, a raiva, a inveja
De outros
Párias como eu, donos do mundo
Poderosos no mundo, em matilha
Perseguiram-me, atacaram-me
Fui sobrevivendo
A fome atacou-me de novo, sempre
A morte do meu amigo, o felino
Sempre mal disposto mas tolerante
A sua morte no meio da matilha
Inglória 
Deixou de encher o prato
Pedaço de carne e pelo ensanguentado
No chão exposto
Ratos e formigas em festim
Chorei a sua partida
Lambi-o tentando reviver
Desesperadamente
Aqueles olhos, aquele miado
Em vão
A vida era morte outra vez

O dia raiava, o sol brilhava
Algo no ar era diferente
O cheiro
A loucura que entorpece
Meu corpo estava estranho
A minha mente não me obedecia
Aquele estranho odor em tudo penetrava
A fome esquecida
O medo esquecido
Corri
Procurei desesperadamente
E vi-a
Era ela, ser pulguento
Ar miserável que corria
Perseguida pela matilha
Correndo e espalhando o aroma
Que a enchia de beleza
Era ela, o meu destino
O instinto foi mais forte
Corri e atirei-me que nem um louco
Cheirei-a e a felicidade entranhou-se
A alegria, a loucura era tal
Que meus quadris se moviam
Numa dança louca, erótica
Eu queria-a
Era minha
Montei-a
E fui violentamente atacado
O chefe da matilha
Dono de tudo
Besta enorme filou o meu quadril
Dei luta
Não tinha medo
A paixão tudo dominava
Lutei contra a besta
Lutei contra a matilha
Exangue, no chão, vi

Um miserável ser penetrando
A paixão que era minha
A besta, a matilha, eu
Distraídos na refrega
Numa luta inglória, sem fim
Fomos ultrapassados
Pelo inútil que ninguém deu crédito

O cheiro desapareceu no ar
Trancado pela penetração do inútil
Agora agarrado pelo destino da erecção
Que o aprisionou ao destino
Morto pelos seus
Numa vingança impiedosa
Seu sémen sobrevivendo
No útero de uma sem destino
Parindo um dia numa cova escura

Afastei-me sangrando
A refrega tinha deixado as suas marcas
O sangue pingava
Coxeava
A dor penetrava no cérebro
Acutilante

Cambaleando entrei
Um buraco escuro
Fresco
Enrolando-me confortei-me
Lambi as minhas feridas
Recordando alegrias há muito idas
Aquela língua quente e carinhosa

Um som diferente
Um ser diferente
O terror a avançar, mostrei os dentes
A voz acalmou-me
Deu-me um pedaço de comida
Gani
Deixei-me ir.

A escuridão aumentou
Lentamente
O frio invadiu o universo
A vida transformou-se numa toca
Um buraco que se estreitava
Até o negro tudo invadir
Gani pela última vez
Um último adeus
A uma vida de cão.



Jimmy, 04 de Setembro de 2016
A navegar

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diálogo

Os dois encontravam-se naquela esplanada junto ao passeio pedonal que serpenteava ao longo da orla marítima. Sentados nas suas cadeiras, virados para o mar iam bebendo as suas imperiais, seis copos jaziam vazios espalhados pela pequena mesa que os servia. Iam beberricando pois aquela sede avassaladora há muito que se tinha afogado naquela enxurrada de cerveja libertando aos poucos as suas memórias.
- Então o gajo lá bateu as botas?
- Sim! Responde tristemente Jonas, não o tinha conhecido intimamente mas do que conheceu deu-lhe a ideia de ser um gajo porreiro. Assim de um momento para o outro!
- Para ele os problemas acabaram! Morrer é uma chatice mas o que tem de bom é que os problemas ficam cá todos!
- Será? Ninguém voltou para contar!
- Se deixaram de ter problemas porque haveriam de voltar?
- Para os resolver...
- Não sejas tosco! Achas que alguém no seu perfeito estado mental voltaria a esta terra para resolver os problemas que tinha deixado? Morreu, prescreveu! São como as dívidas!
- Não sei! Isso vai depender de muita coisa! Existe o outro lado ou não? Tu próprio admites que existe ao dizer que do outro lado os problemas prescreveram, atenta bem ao que disseste, prescreveram e não desapareceram.
- Claro que existe o outro lado, eu acredito no céu e no inferno, pelo menos alguma coisa parecida. Andarmos aqui e desaparecer tudo? Custa-me a crer.
- Custa-te a crer não, queres crer, tens fé, agarras-te a isso por causa do terror da morte, terror do desconhecido.
- E tu? Não me venhas dizer que não tens medo!
- Medo? Já tive! Agora temo mais a passagem, a dor, a angústia da morte. Sabes, quando estamos perto o corpo reage, o sacana do instinto de sobrevivência a tomar as rédeas. Depois chega a uma certa altura que aceitas. Passei uma vez por isso. A angústia terrível do vou morrer, aceitar a situação, a calma que nos invade, pelo menos a mim invadiu-me, e a vontade de dormir e ... deixar-me ir!
- Tretas! Estás aqui e não foste! Reagiste, tiveste tanto medo como os outros.
- Já não tinha medo, estava mais chateado, ia-me embora sem fechar as contas, sem me despedir. O resto já não me interessava.
- E porque não morreste?
- Porque percebi que se me virasse para o lado e dormisse um bocadinho acordaria nos braços de alguma maluca, lá no paraíso dos marujos, resolvi não dormir, manter-me desperto.
- E...?
- Deu-me tempo para resolver uma questão. A burrada que tinha feito na auto-medicação e numa sugestão feita por um gajo que assistia a tudo com os olhos arregalados de terror. O gajo iria ter uma data de chatices se eu morresse, as papeladas que teria de preencher. E, na boa verdade, ninguém gosta de ver um gajo morrer e estar impotente sem saber o que fazer.
- Mas salvou-te? Como?
- Perguntou-me se eu não estaria desidratado! Eu pensava que era ataque de coração por isso tinha tomado dois Capoten, tudo á bruta, mas era desidratação extrema. Tomei uns líquidos para repor sais e açúcar, o nível dos electrólitos e melhorei logo. Fiquei só com o problema da sobre-dosagem de Capoten mas para isso fiquei acordado até a tensão arterial ficar em níveis seguros.
- Quanto tinhas?
- Chegou aos 40/20! Disse Jonas sorrindo.
- Bolas! Disse o amigo olhando para uma miúda que passava em passo de corrida fazendo o seu jogging matinal. Figura bonita de pernas morenas e musculosas, um calção curto de desporto com cavas bem levantadas e uma camisa de lycra bem justinha deixando antever um peito de tamanho razoável esmagado por um soutien de desporto.
- Sim, bolas! Se não páras de te babar quem desidrata és tu e nem essas cervejas te chegam.
- Não me venhas dizer que não olhas para as miúdas, agora és santo, salvaste-te da morte e converteste-te!
- Não sou santo, sou discreto. Ela já tinha passado e agora está a fazer o percurso inverso. E da primeira vez até sorriu do meu olhar babado, agora ignorou-me para eu não correr atrás dela.

Continuaram a beber mais umas imperiais, mandaram vir uns croquetes para lastrar o estômago e terem oportunidade de ter a jovem empregada ao lado deles e tentarem fazer umas graçolas com ela mas depressa perceberam, pelos olhares furibundos, que ela devia ter uma relação com o dono que estava atrás do balcão. 

- O gajo era bom tipo! Fiquei chateado e faz-me lembrar, que como todos, para lá caminho!
Não é o morrer que me chateia! É a perda total! A perda de uma vida!
- Não entendo!
- Vê a coisa do seguinte modo. A alma existe, vamos supor que sim, a consciência existe, temos a certeza. Tu tens consciência de ti mesmo, a consciência é o que nos dá a individualidade, o que nos faz rir, chorar, amar etc. Só que a consciência é um produto da função cerebral, assim como o sub-consciente e o inconsciente. Memórias e capacidade de processamento que o nosso cérebro tem além de um sistema operativo espetacular pois actualiza-se, aprende. Hoje já se fazem programas que aprendem e melhora o seu funcionamento com a aprendizagem. O teu cérebro é um computador biológico incrível que guarda muitas memórias e outras são guardadas como sub-rotinas que trabalham ao nível do processador, essas tens pouco ou nenhum controle, um exemplo são os traumas, pequenas rotinas que são despoletadas segundo determinados estímulos.
- E qual a relação que a consciência tem com a alma. Essa também é uma coisa que se fala mas ninguém tem provas, ninguém viu embora haja uns intrujas que falam da aura como se fosse a manifestação da alma.
- Sabes. Eu tento ver as coisas de uma forma racional evitando os dogmas e a fé. Tenho uma coisa que acredito mas para acreditar tenho de ver, e ver pode ser concepcionar. Se uma coisa é conceptível de um modo lógico pode ser que seja possível. 
- Viste a alma? Viste a aura? Agora deste em intruja? Não me gozes. Ou acreditas e tens uma religião que te suporta ou então és mais um intruja.
- Sabes! Quando era jovem e caçava, um dia abati um bicho apenas porque estava em cima de uma árvore, era grande e peludo, não servia para nada. Selvagem como era disparei e o desgraçado caiu a meus pés e eu assisti á sua morte. Um ser vivo, pelo brilhante no estertor da morte e eu vi a morte a apossar-se daquele corpo, o pelo perdeu o brilho, deixou de ser um ser vivo para ser uma carcaça que nem as pulgas queriam, abandonavam aquele corpo como ratos abandonam um navio a afundar-se. Naquele momento eu vi, eu vi a vida a ir-se embora, algo abandonou aquele desgraçado.
- Agora que falas disso estás-me a fazer lembrar o funeral do meu irmão. Olhava para ele naquele caixão de madeira, reconhecia-lhe as feições mas não era ele, parecia um boneco, era estranho, ele não estava ali. Disse o amigo com um soluço a embargar-lhe a voz e tentando esconder as lágrimas que tinham teimado em saltar, disfarçou dando um grande gole na sua imperial quase esvaziando o copo.
- É isso mesmo. É essa a diferença, a vida sumiu, foi-se. A vida pode ser a alma. E aí as coisas até batem mais ou menos com as crenças. O meu problema é a consciência. Se a vida ou alma abandona o corpo e não leva a consciência com ela então para que serve viver? Ser bom, ser mau, ser santo, ser putanheiro, é tudo a mesma coisa. No fim morre-se, a consciência apaga-se, a vida que levámos apaga-se e vai tudo para o mesmo caldeirão. Não tem lógica.
- Querias ir para o céu não era? E encontrares aquela miúda a correr para ti... ahahah! Gozou o amigo.
- A chatice é que não consigo "ver" a passagem da consciência do estado vivo para o estado morto. O seja, a consciência acompanhar a tal alma ou aura.
- Isso é um bocado torcido, se a consciência passa para o estado morto então terias os fantasmas. Estou-te a imaginar tu, em forma de fantasma, a espreitar todas as garinas a tomar banho, a vestirem-se! Ahahahah! Aposto que pensaste nisso seu depravado!
- Engano teu! Se a minha consciência passasse para o outro lado ficaria privada de sentidos por isso não conseguiria nem espreitar o meu gato a mijar!
- Não me tinha lembrado disso! Porra que andas muito doido com essas ideias, andas a ver tudo, não largas a presa! E se fosse mais uma imperial?
- Hummmm! Tá calor e eu estou com sede e apetece-me ver os olhos furibundos da empregada outra vez! Dá-me gozo vê-las todas eriçadas de fúria. Uma beleza da natureza, uma mulher enfurecida por causa das graçolas de um gajo! E Jonas dizendo isso chamou a empregada com o seu maior sorriso. Um sorriso já meio tolo de tanta imperial.
A rapariga aproximou-se, cara fechada e pergunta o que desejam.
- O que desejo nunca se realizará por isso contento-me com mais um par de imperiais!
- Um par de estalos leva você se não se portar bem! Exclama furiosa a rapariga.
Jonas pôs a sua cara séria, coloquial e responde com voz calma.
- Menina! Aprenda a aceitar uma brincadeira. A minha afirmação foi uma constatação á sua beleza, não um convite nem proposta desonesta. Um piropo, uma brincadeira apenas. Se cair em saco roto nada se perde nada se ganha.
- Não tenho paciência para idiotas com uns copos a mais!
- Então não trabalhe num local que vende bebidas alcóolicas pois o risco de aturar idiotas maiores do que eu é muito grande. Faça um sorriso e, se calhar, se me apaixonar pelo seu sorriso compro-lhe o stock de cerveja só para o ver outra vez. No fim do dia estarei com uma ressaca e você feliz porque vendeu bastante. O que custa um sorriso simpático? Nada. A única coisa que aconselho é que escolha o alvo do seu sorriso. Dois tolos como nós somos sempre inofensivos, outros não serão. Essa será a sua escolha. Agora traga lá as bejecas e eu juro que não farei mais brincadeiras, respeitarei a sua reserva. Mas tenho pena, você é bonita e já reparei que quando sorri você é a constelação mais bonita deste universo. Dizendo isto, Jonas voltou-se para o seu amigo e perguntou.
- Estava a falar de quê? Realmente já estou a ficar tolo. A garina até pode ter razão em me ter dado na cabeça!
- Estou espantado! A tua lábia para com a rapariga! Deixaste-a confusa! E meio corada!
- Ah!!! A famosa consciência! Imagina a alma/vida como energia que já vimos se solta quando morremos. Agora, ás vezes sou mesmo um idiota, imagina a consciência como uma base dados da vida mais uma coisa equivalente a um programa auto-executável. Em suma, linhas de programa que podem ser codificadas em binário ou níveis de energia. Imagina essa vida/alma ser uma forma de energia, codificada com o binário da consciência? Diz lá se não é linda esta visão?
- Tenho de concordar que quando estás com os copos tens umas visões interessante, e por incrível que pareça, até têm lógica. Mas diz-me, como se aguenta isso tudo? A energia a pulsar numa frequência que é a consciência vai acabar por se dissipar, vai acabar por desaparecer. Uns segundos e puffff, desaparece no nada!
- A não ser que nesses segundos que tu te referes o tempo não exista ou esteja congelado. Se o tempo deixar de existir nessa fracção de energia pulsante ela ficará assim eternamente.
- E acreditas nisso? Estás-me a convencer que a eternidade existe? Só falta dizeres que o inferno ou céu existem.
- Nessa forma porque não? Se o auto-executavel ao arrancar te disser que foste uma besta vais ser uma besta eternamente, um bocado infernal não é?
- A cerveja pode tirar-te o juízo mas não te tira a lógica!
A empregada aproximou-se da mesa e olhando desafiadoramente para Jonas pôs dois pratos na mesa, um com a conta e outro com uns amendoins salgados e com um sorriso felino disse?
- Por conta da casa!
- Eu adoro ter razão! Exclama Jonas com o seu sorriso mais maroto e puxa da carteira para pagar quando ouve o seu amigo a dizer com voz aflita.
- Parece que o teu inferno está a chegar! Vem aí a tua mulher e está com cara de poucos amigos!!!! Diz o amigo a empalidecer.
- Ehhhhhh pá!!!! Esqueci-me de a ir buscar! Deve estar uma fera!
- E eu vou-lhe contar que além dessa enxurrada de cerveja meteu-se com todas as mulheres que por aqui passaram e ainda mais grave, vou aconselha-la a levá-lo ao psiquiatra, está aqui há uma hora a falar da alma, da morte. Até me arrepia! Exclama a rapariga com ar aliviado com a aproximação da companheira de Jonas.
- Adeus vida! Choraminga Jonas. Adeus bela constelação que vais assistir a esta minúscula estrela ser engolida pelo buraco negro que aí se aproxima, inexorável. Um fim tão trágico para uma estrela emergente tão brilhante....
- JONAS! ESTIVE HORAS Á TUA ESPERA! E ESTÁS BÊBADO!!!
- Desculpa-me querida! Estive a olhar para uma constelação e apenas morri. Estive esta eternidade toda num loop auto-executavel sem ter noção como o tempo lá fora corria a sua vida normal. Só tu minha querida para me fazeres ressuscitar....
- É preciso ter muita lata! Exclama a empregada entre o chocada e o divertida.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O círculo

Jonas flutuava no seio do nada, imerso num meio viscoso e negro que lhe tolhia os sentidos impedindo-o de qualquer movimento, de qualquer sensação. O negro da escuridão era atroz, fazia-o sonhar com a morte, aliás, sentia-se morto mas tinha consciência de estar vivo, apenas afogado no nada.
A sua mente estava entrar em turbilhão, acelerava a velocidade do raciocínio até tocar os limites do pânico. As ideias rolavam, as visões apareciam e desapareciam a uma velocidade alucinante. Jonas via-se nu deitado numa cama coberto por uma mortalha assim como corria como uma criança num areal enorme de uma praia longínqua, para além dos tempos. Algo o fazia lembrar, tempos idos, vidas vividas, outras eras quando estava ás cambalhotas, no ar, rodopiando loucamente, sobrevoando a morte, escapando ao esmagar dos ossos contra o metal que se lançava sobre ele. Jonas tentava respirar mas o nada esmagava-lhe o peito, asfixiando-o, levando-o para a caverna escura onde lutava para escapar á armadilha mortal.
Os acontecimentos sucediam-se uns atrás dos outros ao som de uma música pungente, dorida lembrando tempos idos, vidas amadas, dores alucinantes, medos atrozes. A pancada que vinha á velocidade de uma vida e que acabava numa explosão de dor que matava o espírito, marcando o inconsciente deixando incólume o corpo, esse corpo cheio de marcas invisíveis de uma vida de luta. Uma luta incessante que agora o inundava em vagas cada vez mais revoltosas a sua mente.
Essa mente que um dia viu a luz e passou a viver nas sombras, a luz que o cegou deixando-o com uma tristeza cada vez maior. Uma luz que ele via e reconhecia naquela música dorida e pungente. A luz que lhe trazia lágrimas aos olhos, sentindo-se um náufrago que tinha tocado na salvação e que agora se afundava num oceano de certezas sendo a morte uma delas, tinha tocado na bóia, tinha sentido a vida e agora morria, maravilhado pois tinha visto a luz.
Jonas tentava arfar, viu o sorriso juvenil daquela que ele, numa outra vida, tinha desprezado mas que a marcou até ao fim dos tempos, era um sorriso bonito, uma beleza que Jonas só passou a dar importância uma vida depois, quando tudo era negro, esse sorriso iluminava-lhe a alma. Agora, fechado no nada, flutuando no vazio, o seu corpo sendo sugado de toda a vida se encolhia tudo se resumia a esse sorriso. Jonas colapsou, o seu coração falhou uma batida e entrou numa arritmia louca levando-o para outras dimensões.
Jonas viu as estrelas, imensas estrelas quando descobriu que estava no meio de uma explosão, dor, medo, tudo em simultâneo mas vendo o universo a nascer, vendo a vida a aparecer, um carrossel de cores e radiação que o queimava, que o cegava não o impedindo, no entanto, de ver, a radiação entrava-lhe pelo cérebro afectando as suas células levando-lhe a mensagem. Jonas tentava decifrar aquele código que o bombardeava ininterruptamente até começar a ver com o espírito, há muito que o seu corpo se tinha dissolvido em átomos espalhando-se pelo tempo ocupando a totalidade do universo. Jonas começou a acalmar, o nada, o vazio onde estava mergulhado passou a ser uma realidade, uma melodia que o embalava. Flutuou feliz ao sabor da corrente, deixando-se embalar pelo calor, pelo pulsar do universo que o transportava para o negro, para a escuridão que a velocidade alucinante o puxava, o atraía. A dor começou a ser grande, a aumentar, a pressão que o esmagava, o craneo comprimido deformava-se.
Jonas sentia-se afogar, o desespero a aumentar, a dor, as luzes brilhantes e, sem aguentar mais, com sofreguidão aspirou o ar que lhe queimou os pulmões, fazendo-o gritar de dor. E Jonas chorou como nunca tinha chorado antes, antevendo um futuro de dor.
- Nasceu! Um belo rapaz que berra a plenos pulmões! Exclama o médico sorrindo segurando um bebé pelos pés, roxo de tanto gritar.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Voava

Voava sobre o oceano
Sentindo o vento a uivar aos ouvidos
Uivos e lamentos de alma sofrida
Voava sobre o oceano de mar azul
De espuma branca
O espírito corria livremente
Tocando a crusta das ondas
Sentindo o frio das águas
Voava sobre o oceano
Preso por correntes, grilhetas de vida
Voava como um preso voa em sonhos
Liberdade nunca tida, nunca alcançada
Voava sobre o oceano
A fome a apertar, a sede a enlouquecer
O vento uivante rugia a sua fúria
No ar, no alto via a vida, espraiando-se
No horizonte longínquo
Asas firmes num voo planado, exaustivo
Olhar penetrante, bico afilado
E nada á vista, o vazio
A fome
A sede
A loucura que tudo escurecia
O sol escondia-se, cansado
As sombras invadiam o dia
Voava sobre o oceano de negras águas
O céu já se confundia, a terra desaparecia
O negro tudo cobria, engolindo a vida
Voando, exausto, nadava na escuridão
De uma noite sem fim
De uma noite fria
Sem estrelas
Sem luar
Apenas eu, a voar sobre o oceano.


17 de Maio de 2015

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Afogamento

Gosto da figura do afogar, gosto pelo seu significado. Afogar é estar rodeado por água, estar envolvido por água, saturado. Eu afogo-me no turbilhão dos meus pensamentos que tal como água fluem incessantemente, são salgados e fazem arder os olhos.
Tal como um afogamento em que o afogado rende-se ao respirar a água e atingem o alívio máximo, teoria desenvolvida por alguns, eu quando me afogo não me rendo até á morte, envolvo-me no turbilhão, luto contra a corrente, espero até ao fim, anseio sempre pela libertação até acordar no outro lado onde a esperança não existe, onde o nada reina, onde as memórias são ténues, pequenos relâmpagos de sinapses meio carcomidas pelo tempo.
Gosto da figura do afogamento, especialmente quando estou afogado no meio das minhas emoções.

A certeza da negação, a certeza da impossibilidade faz-me baquear, faz-me sofrer, a mim que sou indestrutível, sou imortal, não compreendo o porquê ou apenas quero negar uma realidade tão bem conhecida, tão bem estruturada que só eu, tal como Quixote,  quer lutar contra a realidade, esses moinhos de vento gigantescos que rodopiam incessantemente criando os turbilhões que me assolam.

Escrevi uma vez que era difícil descrever uma flor, pior é a descrição de um espinho cravado na carne, especialmente quando o espinho é cravado pela flor que não consigo descrever.
Uma dor no peito, um gemido de angústia, estende-se a mão e não se alcança, a queda infindável nos abismos. Mas não se sente temor, apenas angústia, negra que no extremo só a dor para a ultrapassar.
Quero esquecer, maldigo o diga que tomei conhecimento, bendito o dia que conheci, sofro mas vivo mais um dia, morro menos um dia.
Não tenho paz, não me concentro, é a minha heroína, injectada nos veios do meu espírito. Corre como fogo líquido tudo queimando, enche-me por todos os lados, afogo-me aspirando sofregamente.
Mais tarde, perdido, oiço música, embalando-me docemente noutros oceanos.

5 de Abril de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Afogo-me

Luto desesperadamente
O oceano engole-me
O sal entra-me pela boca invadindo os meus pulmões
Afogo-me
De olhos tristes
Luto para sobreviver
Uma vida de ilusões
Agarro-me
Desejo loucamente essa vida
Que não possuo
Que não é minha
Vida que se afasta
Sorriso de uma lua
Na negra noite da minha existência
Escorrego no azul salgado
Vejo as estrelas
Brilhando
Marcando vidas
Escorrego lentamente
E entro na escuridão.

5 de Abril de 2015

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Crónicas II

Eu sou um pirata pois roubo e saqueio sem vergonha nenhuma, um beijo aqui, outro beijo ali. Um dia será uma arca cheia de tesouros com algumas que fui abrindo ao longo da vida, descobri tesouros que desconhecia, descobri a vida que não sabia existir, descobri muito do meu eu que se mantinha escondido numa couraça de guerreiro que só combateu a suas várias imagens nos espelho que encontrava nas encruzilhadas das estradas da vida. Estranho hoje pareço um menino de barba macilenta a roubar pequenas moedas de prata ás filhas da Deusa Lua que se pavoneiam chilreando á minha volta.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Tristeza e solidão

Estou todo marado, sinto a cabeça á roda. E não é do vinho tinto que por acaso até bebi mais que o habitual. Estou chateado, estou aborrecido, estou triste.
Apetece-me viver e não tenho vida. Estou fechado, estou preso. Estou fodido da cabeça.
Apetece-me amar mas as distâncias são lixadas, não tenho uma pila assim tão grande. Fico-me por aqui a ganir como uma hiena, sim já nem gargalho como uma hiena, apenas gano.
Fechado nesta merda de prisão a contar o tempo restante da minha vida.
Sinto-me chateado, sinto vontade de gritar até a cabeça explodir numa nuvem de miolos e sangue. Não grito nem expludo, apenas me apago devagarinho, conscientemente, dolorosamente.
....
Acabei de explodir mais um bocado, apenas uma pequena explosão de mau humor.
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Agora vieram-me chatear para ver se a televisão trabalhava, eu que nunca liguei esta merda no meu camarote e vinham-me chatear. Uma merda de um aparelho mais velho que a Sé de Braga e vêem-me chatear com isso. Os raios dos comandos não funcionam e levaram uma corrida. Quem quer ver TV nestes tempos de hoje? Se não é a porcaria do futebol é a trampa de uma revolução falhada em que umas bestas querem lavar um PREC assassino e destruidor. Merda de povo este, merda de povo mesmo que aceita mansamente toda a merda que lhe enfiam pelos "cornos" abaixo. Mata por uma falta de um árbito e aceita de sorriso as merdas que lhe fazem. Estou farto. E estou cada vez mais só.
Não consigo perceber, não consigo entender, não consigo adaptar-me.

E estou só, muito só.

Ás vezes apetece morrer para acabar com a solidão e acabar os tempos a conversar com as minhocas.

Merda para isto tudo.....

terça-feira, 15 de abril de 2014

Crónicas I


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Lembro-me de uma vez ter dito que nestes sítios só ficavam os pobres de espírito e os que não tinham lugar em mais lado nenhum, ainda não sei qual a minha classificação. Apenas cá continuo sem mais lugar algum que me acolha. Sinto-me a morrer por aqui, a definhar e a morrer, lentamente entrando em degradação. Quando morrer nem necessário será a cremação, a degradação será tão total que só mesmo deitado fora sirvo para alguma coisa.