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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Jonas 7 - O acordar

Jonas acordou com aquela sensação de estar a ser observado, a sensação que a presa sente quando um predador ronda as cercanias cheio de fome. A sensação de terror assolava o seu espírito, o medo do que se escondia para lá das trevas, o medo que lhe tolhia os sentidos, os movimentos. Queria gritar e não saía nenhum som da sua boca escancarada, queria fugir e estava imobilizado, a adrenalina no máximo, o coração a saltar-lhe a boca, a fera a aproximar-se, o terror imenso.
Com um grunhido que lhe soou a um berro na noite Jonas conseguiu abrir os olhos.


- Calma Jonas! Estavas a ter um pesadelo! Acalma-te! Diz Ana, a rapariga que já há muito tempo que tratava daquele ser ali encolhido, sempre atormentado.
 Jonas viu aqueles grandes olhos verdes como lagos de esmeralda que o fixava com ansiedade. Atrás dos olhos estava uma cara de anjo, pelo menos foi o que pareceu, uma cara bonita, alva, envolvida numa cabeleira negra cortado curto. Era a rapariga mais bela que Jonas jamais tinha visto.

- Onde estou? Que faço aqui? Pergunta Jonas reparando no uniforme branco da rapariga.
- Tem estado aqui já há umas boas semanas! Trouxeram-no para cá depois de o terem encontrado!
- Encontrado? Não entendo!
- Deitado á beira mar, meio afogado e sempre que acordava tinha autênticas crises de loucura, tínhamos de o sedar! Lembra-se de alguma coisa? É capaz de me dizer o seu nome?
- Meu nome é....! Meu nome é...! Jonas toma consciência que perdeu tudo, o nome, a identidade, a vida. O seu coração começou a acelerar, a ansiedade a aumentar, o monitor a apitar.
- Tenha calma! Disse a rapariga com voz doce. É um estado passageiro, é natural uma certa desorientação.
Jonas respirava ofegante, o ritmo a baixar, o coração a baixar o ritmo, começou a avaliar a situação.

- Devo ter família que provavelmente estará á minha procura. Tenho impressões digitais por isso posso ser identificado. Deve ser relativamente simples.
- A polícia já tem os seus dados e não conseguiu nada. Ninguém procura ninguém com as suas características. Está a ser um mistério!
- E você gosta de homens misteriosos? Pergunta Jonas com uma gargalhada. Pelo menos não perdi a parvoeira inata!
A rapariga corou ligeiramente e nada disse. Continuou a sua tarefa de arrumar equipamento médico.

- Olhe, eu sou o homem misterioso e você? Como se chama? 
- Ana!
- Prazer em conhecê-la Ana! E obrigado por ter tratado de mim!
- Foi apenas a minha obrigação! Retorquiu a rapariga rapidamente, desviando o olhar. O raio do homem olhava fixamente com um olhar meio louco e penetrante. Ana sentia que aquele olhar lhe perscrutava os pensamentos mais íntimos.
- O seu sorriso não era obrigação de serviço. Era um sorriso de pessoa que se importa e é isso que agradeço.
- Ainda falta algum tempo para o almoço, quer comer alguma coisa? O médico deve estar a chegar.
- Eu espero! Resmunga Jonas virando-se de costas.

A rapariga saiu do quarto e dirigiu-se para a sua mesa, escrever o relatório e terminar algumas tarefas e rotinas.

- Onde estiveste? Pergunta João com ar macilento, barba por fazer e ar descuidado.
João nunca mais tinha recuperado daquele maldito almoço onde perdeu a mulher, a namorada e quase a vida. Estava em decadência, sabia-o e não conseguia evitar. O próprio trabalho começava a ser um inferno, encarar diariamente, trabalhar diariamente com aquela que tinha amado, que desejava loucamente transformava a sua vida num inferno.
João olhava para Ana e as suas memórias voavam, cruzavam o céu deixando rastos de fogo que lhe incendiava a alma, o leve cheiro dela chega-lhe ás narinas carregando com ele todos os sabores de noites passadas juntos. Ela tinha-se afastado.

- A fazer o meu trabalho e parte do teu! Responde Ana bruscamente olhando-o de frente, desafiadoramente. E é bom que comeces a fazer as tuas tarefas pois cada vez tenho menos paciência de aturar meninos birrentos.
João olha aqueles lindos olhos verdes, carregados de fúria e perdeu-se.

- Larga-me sua besta! Estás-me a magoar! Grita a rapariga furiosa e receosa daquele ataque estúpido e tresloucado. Olhando em volta, agarra numa bandeja e atinge o seu agressor na cabeça.
De imediato o monitor de sinais vitais começa a ressoar.

Jonas sentiu uma pancada brutal na cabeça e nunca percebeu o que lhe tinha acontecido, só queria ir á casa de banho, a sua habitual reserva tinha-lhe impedido de chamar a enfermeira, tentou e desfaleceu. 
A mancha no tecto branco lá estava, ele via-a numa névoa vermelha. Algo estava errado, estendia a mão e nada sentia, a visão parecia-lhe olhava por meio de um tubo de cartão negro, as cores a ficarem sépia, a respiração cada vez mais ofegante, o mal estar a invadir-lhe o corpo. Um mal estar generalizado, parava-lhe o corpo, queria vomitar e nada saía. Estava fraco e fechou os olhos e acordou encerrado numa cúpula toda negra, a ausência total de luz, de som, de cheiros, de tudo o que fossem sentidos, não sentia o corpo, sentia apenas que não respirava, afogava-se no nada, abria a boca e saíam golfadas de nada, começou a sufocar, começou a morrer lentamente, escorregando para o nada até que a própria escuridão se apagou.


- Que aconteceu? Pergunta o médico olhando para aquela cena caótica, o corpo de João, no chão, enrodilhado e sangrando abundantemente da cabeça.
- Ele atacou-me! Grita Ana com um leve tom de histeria na voz. Está totalmente descontrolado! 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Jonas 6 - A verdade

- Ana, apresento-te a minha mulher, Luisa! Diz o rapaz com ar ligeiramente comprometido, cara corada, enquanto puxava de uma cadeira para que a rapariga, sua colega, se sentasse no restaurante que tinham combinado encontrarem-se. Ana queria conhecer a mulher de João.
- Bom dia Luisa! O João não fala muito de si e não entendo a razão, é tão bonita! Diz a rapariga estendendo a mão e olhando com olhos fixo como um felino á beira de um ataque.
Luisa, mulher um pouco mais velha, de cara e corpo bonito, sorriso agradável e olhos emanando segurança apenas retorquiu.
- Porque ele é um tolo! E sempre me garantiu que a sua colega de trabalho era uma velha chata.
- Alto lá! Eu disse que ela parecia uma velha chata, pelo menos nos primeiros dias!
- E depois apaixonaste-te como de costume não foi? Retorquiu Luisa com voz gélida. E virando-se para Ana perguntou:
- Porque me quis conhecer? Sentiu-se enganada quando soube que esse mongo era casado? E quis conhecer a coitada?
- Não sejas assim Luisa, ela não tem culpa e ninguém te trata como coitada. Eu descaí-me e ela descobriu. Apenas quis pôr tudo em pratos limpos.
- Quando se faz merda aguenta-se com a pancada e não se arrasta ninguém. Descobriu, tinha duas soluções, continuava como estava e ia dando umas quecas até se fartar ou abandonava o barco, deixava-te e não incomodava ninguém. EU não tinha de saber, eu não precisava de saber. Percebeu menina? Agora vou escolher que estou com fome! E dizendo isso pegou no menu e começou a le-lo.
Ana corou intensamente com a tirada simples e directa de Luisa, não esperava aquela atitude, ela que sabia tudo e tudo sabia ficou sem palavras e começou a examinar a lista de vinhos.
- Eu cá vou pelo bife com ovo a cavalo e molho de cogumelos, estou cá com uma fome!
Se o olhar matasse João teria caído morto nesse momento com o olhar que as duas se lhe dirigiram.

Jonas sentia-se perdido naquele pântano de águas fétidas, caminhava enterrando as pernas até aos joelhos em lama mole que o sugava gulosamente para o seu interior. Jonas fugia daquela velha inimiga, aquela que o perseguia sempre, aquela que o levava para campos de loucura insana. A perseguição continuava, implacável, não havia lugar no universo para se esconder, ela encontrava-o sempre. Apanhava-o e mordiscava-o, dentadas pequenas de dor intolerável, sangue escorria fluido até se coagular fechando feridas frescas em velhas recordações. A sua inimiga aparecia sempre de surpresa, de sorriso nos lábios, beijava-o como se de uma amante se tratasse e magoava-o com as doces palavras sussurradas ao ouvido deixando Jonas desconcertado, impotente. Ela afastava-se então com uma gargalhada, riso cristalino capaz de derreter um bloco de gelo. Jonas tentava a todo o custo fugir. Escondia-se nas montanhas, enterrava-se no deserto, mergulhava nos oceanos e era sempre descoberto e era sempre torturado por aquela que ele, com o tempo começou a odiar, aquela que ele um dia amou perdidamente. Hoje perseguia-o implacavelmente e Jonas enterrava-se na lama peganhenta, pútrida que o começava a engolir.
Desesperado olhou para cima fixando os olhos daquela que ia causar a sua morte e gritou:
- Eu morro e tu vais atrás!
- Eu sei! Eu amo-te, eu sou a tua consciência! Gritou ela saltando por cima de Jonas levando-o para as profundezas daquele pântano podre.

- És um idiota! Grita Luisa fora de si olhando Ana tentando reanimar João que morria sufocado no chão rodeado dos restantes comensais que assistiam á cena com piadas idiotas.
- Comes que nem uma besta e depressa, depois é isto! Volta Luisa gritar.
- Está a voltar a si! Arqueja Ana exausta do esforço da reanimação.
- Esse idiota fez esta fita toda para termos pena dele e não o abandonarmos!
- Não seja assim! Ele quase morreu! Diz Ana tentando acalmar a mulher do seu amante.
- Se ele morresse eu ficaria com a pensão e você a chuchar no dedo, ele não morreu, você fica com ele e eu fico livre! Grita Luisa que abandona o restaurante a correr com um rio de lágrimas a escorrer olhos fora.

Jonas abriu os olhos e sorriu de alegria, tinha regressado a casa, o seu lar varrido por ventos ciclónicos que ele tinha aprendido a amar. Sentado no alpendre do seu casebre Jonas olhou o céu estrelado e viu que ela lá estava, a sua Vénus, sorridente, chamando-o. Tão inacessível, tão longe. A adaga fina da dor começou a trespassá-lo, as memórias a flutuarem á superfície, encravando o escoamento fluido das águas. Jonas lembrou-se então, estava perdido, tinha perdido, procurou desesperado. A sua ancora tinha desaparecido, aquele pequeno ponto de sujidade num tecto branco tinha desaparecido, aquele ponto em que ele se agarrava para se manter são tinha deixado de existir. No céu as nuvem encobriram a sua Vénus levando-a para longe, a solidão voltou a assolar Jonas, o manto escuro da solidão, o aperto no peito, a dificuldade em respirar, o ar a faltar, os sentidos a sumirem-se.

- Não me deixes Ana! Eu tentarei explicar-te! Suplica João desfalecendo novamente.


O aparelho de suporte de vida berrou violentamente acordando o pessoal técnico que acorreu prontamente.
O desgraçado no seu pequeno catre estrebuchava violentamente de olhos desorbitados e raiados de sangue.


3 de Maio de 2015

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Jonas 5 - A paixão

Deitado no seu pequeno catre sonhava, de olhos fixos no tecto branco. Sonhava com o som da música que fluía lá ao longe, um lamento longo e belo de alguém, possuído por tamanha paixão a cantava assim. As notas vogavam no ar arrancando anéis de poeira no espirito carcomido de Jonas. As lágrimas corriam livres acompanhando os acordes de tal melodia, serpenteava, encaracolava como só uma mulher apaixonada é capaz, o som vibrante saía claro e cristalino, bafo quente de paixão que aquecendo a alma causa-lhe tremuras de ansiedade, o não conseguir alcançar aquelas notas fazia-o enlouquecer.  
Tremia, a ansiedade a tomar conta dele, a música a ressoar baixinho no seu espírito. O peito apertado num torno invisível que lhe tolhia a respiração, acelerando o coração, as batidas casa vez mais rápidas, a boca aberta ávida de ar, a dor no peito, a morte a avançar lenta mas inexorável. A noite começou a cair,na escuridão a avançar.

Podes para com essa música um bocado? Pede a rapariga com ar cansado de uma noite de trabalho, olhos encovados e cabelos despenteados. Ela canta bem mas é um bicado deprimente. Preciso de uma coisa mais alegre!
- Se quiseres ponho a Julieta, tenho aqui um álbum da Julieta! Pergunta o rapaz com ar de gozo.
- Julieta? Ouves isso? Ou estás a pensar em caçar pitinhas pequenas?
- Náaaaa! A minha sobrinha carrega o player com estas músicas quando me apanha distraído. Quando vai lá a casa visitar-nos o mp3 player é dela! Diz o rapaz com ar embevecido.
- Um momento! Exclama a rapariga com um tom de voz gelado. Visitar-nos? Nos? Quem é nós? Não vives sozinho?

E o silêncio estabeleceu-se entre aquelas duas almas, os dois olhando um para o outro, olhares diferentes mas ambos implorantes. Que seja mentira, vou perde-la..

- Eu vivo com a minha mulher! Ainda não tive coragem de te contar. As coisas aconteceram muito de pressa...
- Granda cabrãooooo!.... ÉS CASADO!!!! Porco! E escondias-me isso! 
- Apenas tive medo que te perdesse. O que aconteceu não estava á espera, não foi planeado. Aconteceu....
- Mais uma parva no rol é o que é...
- ... E desenrolou-se de tal maneira que perdi o controle. Da situação e de mim. Fiquei com medo de te perder.
- Pois perdeste mesmo! Desaparece da minha vida! Grita a rapariga com os olhos cheios de amargas lágrimas e correndo para fora da sala refugiando-se na casa de banho. Um uivo longo e sumido saiu trazendo toda a dor de uma alma abandonada, perdida, naufragada.

O rapaz, de olhar esgazeado, brincando com o mp3 ligou nova música aumentando a dor que se escoava pelas salas, inundando tudo com as suas águas negras. A negação mais uma vez a fazer a sua visita, a negação da vida, as sombras que tudo cobrem, a solidão extrema, a tristeza, tão cinzento, tão negro que as lágrimas começaram a correr. A morte seria libertadora mas ela tardava, ela tardava sempre deixando para trás um ser miserável. Ouvindo aquela diva que cantava aos deuses, aquela diva que tinha tocados os deuses e sido recompensada com o dom de uma voz mágica, que enfeitiçava, prendia, submetia qualquer mortal. O rapaz soluçava lágrimas de dor quando o besouro tocou.
O treino agiu imediatamente e correu para os monitores.

Jonas morria placidamente ao som da sua querida, ele estava apaixonado e ela matava-o com a sua beleza. Jonas abandonou-se naquela corrente que o levava para o paraíso da beleza.

- O que aconteceu? Perguntou a rapariga.
- Está-se a deixar. Está a morrer!
- Faz qualquer coisa... Vou buscar a injecção! 
E os dois mais uma vez, como uma equipa, entraram em accão aguentado os sinais vitais até estabilizarem aquele ser deitado na pequena cama.



Uma faca espetou-se no coração de Jonas levando-o num turbilhão de dor e confusão, o ar a entrar fresco nos seus pulmões, abriu os olhos. Um olhar esgazeado, confuso, louco e viu. A pequena mancha negra no tecto impecavelmente branco do seu quarto, sorriu, feliz e adormeceu assumindo uma posição fetal.

domingo, 26 de abril de 2015

Jonas 4 - O caos

O arrulhar dos pombos ouvia-se ao longe, sussurrante, aumentando som á medida que se tomava atenção até se transformar numa ladainha de namorados. Um relâmpago ecoou na escuridão dando início á tempestade, a chuva caía copiosa encharcando o vulto cinzento que percorria lentamente o passeio, descendo a rua, acompanhando o rego de água que transportava todo o lixo da cidade. Rios de água escorriam-lhe pela cara abaixo arrastando consigo as lágrimas mal contidas. Estava tudo acabado, ela fora-se, ela desaparecera da sua vida. A sua paixão tinha-se finalmente fartado e deixara-o. Estou farta de pessoas que me puxam para baixo, quero alegria, exclamara ela quando arrumava as suas coisas e abandonava Jonas na sua solidão. Ele nunca compreendeu o porquê de tal acto, estava tudo tão perfeito, a vida corria ligeira, apenas com alguns sobressaltos, ele nunca entenderia a razão de tal decisão.
A solidão ao princípio era dolorosa, com o tempo tornou-se asfixiante, agora era enlouquecedora, Jonas via sinais dela em todos os pormenores da vida, desde o chilrear de um pardalito até á sombra de uma majestosa nuvem no céu azul, tudo era ela.
Jonas começou a beber mas o único resultado era soltar a sua mente irrequieta deixando-a sem controle, as ideias mais parvas afluíam ao seu cérebro como a corrente de um rio de águas barrentas. Ideias fantásticas, algumas delas de uma sofisticação que deixava os outros abismados, lógica terrível e utilidade nula. E Jonas esmiuçava teimosamente esses pequenos detalhes até á exaustão até que percebeu que esse não era o caminho, deixou de beber, de se intoxicar.
A sua mente, limpa de vapores estava mais acutilante mas o problema persistia, continuava sem entender, nunca entenderia o que não tinha explicação, nunca entenderia as suas razões, era ilógico negar o inegável e no mundo da lógica o oposto era a não existência logo não podia acontecer. Jonas estava não conseguia sair desta armadilha da mente, tão simples e tão mortal. Começou a descuidar a sua aparência que normalmente nunca tinha sido brilhante, ele não via necessidade, dizia que um presente contava pelo que era e não pelo invólucro. Deixou de se alimentar em condições começando a deambular pelo limiar da fome fazendo que os seus sentidos se aguçassem, que todo o seu primitivismo de caçador viesse ao de cimo, andava nas ruas com olhar esgazeado como se procurasse uma presa fazendo com que as pessoas se afastassem de tão sinistra figura. Desta forma, repetindo até á exaustão uma ladainha que era a exposição do seu problema insolúvel Jonas foi apanhado pela tempestade deixando-o lavado de todas as ilusões, afinal havia beleza no caos, como era possível ele não ter visto isso, tinha percebido finalmente ao ouvir uma música dissonante cheia de beleza.
Jonas parou, olhou para as nuvens negras de chuva e finalmente gritou. Um grito longo, dorido. O caos a entupir-lhe o espírito, a alegria da beleza do caos, a dor da perda, tudo se conjugava, tudo se encaixava, no fim o caos maior, a morte reveladora, a passagem para o nada ou para um caos totalmente desordenado onde as certezas duravam o tempo de um pensamento, onde a alegria se fundia com a melancolia, com a dor. Seria o universo um caos tão perfeito? 
Jonas acalmou-se, respirou fundo, estava sentado num banco de um jardim, olhando para a estátua que ele tão bem conhecia, que ele queria conhecer e que estava tão longe que tornaria impossível qualquer ligação,ma estátua de uma bela mulher que contemplava o horizonte que se estendia para lá do oceano, a estátua e a sua amada eram a mesma pessoa, aquela que olhava para além do horizonte e que o deixava totalmente abandonado, ele nunca a teria. Jonas chorou a sua tristeza e tomou a decisão, lutar pelo que queria, pelo que desejava, pelo que amava. Levantou-se e começou a caminhar em direcção ao horizonte, ela lá estaria á sua espera, olhando-o com aquele olhar que o encantava. Caminhava lentamente sentindo o frio a subir-lhe penas acima, o seu destino gelado, a alegria do encontro.
Algo estava errado, abria a boca e tentava aspirar o ar, sufocava quando viu o sorriso, maroto, que o levou.

- Que aconteceu desta vez? Pergunta a rapariga olhando para aquele corpo molhado e macilento.
- O costume! Fugiu á procura de uma loucura e quase se afogou na baía. Este está mesmo passado.
- Coitado! Qual será o problema dele? Pergunta a rapariga curiosa.
- Pelo que balbucia deve ser coisas de saias, alguma que lhe fugiu e ele queimou os fusíveis.
O homem aproximou-se da rapariga, abraçou-a, puxando-a para si e faz-lhe uma festa.
- Gostei de te encontrar e de certeza que ficaria assim se te fosses embora!
- Credo homem! Estou bem assim, não comeces a stressar com o que não existe, com que não aconteceu.
- Eu sei. Mas começo a entender esse desgraçado. Desejar e não conseguir ter é uma dor muito grande. Existem pessoas que conseguem enterrar o assunto, outras arranjam substituições, outros, muitos infelizmente fazem merda, agridem o que não podem ter. Os que realmente amam, não só não esquecem como não enterram, enlouquecem pura e simplesmente. Este desgraçado deve estar nesse grupo. Eu começo a compreender e temo pertencer também.
- Não sejas tolo, começámos a namorar há meia dúzia de dias e já estás nesse estado. E eras tu que chamavas de maluco a este desgraçado.
O homem suspirou e nada disse, já não havia nada a dizer, não queria falar do assunto, ela dominava-o totalmente. O seu sorriso, o seu olhar, o aroma do seu pescoço, o contacto da sua pele. O modo como ela respirava ao seu ouvido quando faziam amor, o modo como gemia quando ele mergulhado no seu íntimo lhe arrancava orgasmos atrás de orgasmos, a energia que fluía entre eles. Não havia igual, não havia substituição, nunca haveria esquecimento, ele tinha a certeza de que nunca se libertaria, só a morte o separaria. Sorriu tristemente, essa alegria imensa causava uma grande ansiedade. No dia em que ela partisse ele morreria.

- Vamos tratar dele, mudar-lhe a roupa! Exclama o homem de supetão afastando os fantasmas que começavam a assolar o seu espírito.  
- Sim, vamos! Responde a rapariga com olhar interrogador para o seu novo namorado. Que se estava a passar naquela cabeça tonta de macho na época de acasalamento?
Acabaram rapidamente o trabalho e afastaram-se para a sala de descanso. Um silêncio incómodo tinha-se instalado, iniciando um dolorosa separação, o terror que o homem temia.
Conheceram-se no trabalho, tinha sido a situação do desgraçado que os tinha unido e agora era o mesmo desgraçado que tinha iniciado o processo corrosivo da separação. Ele tinha-se mostrado obsessivo e ela tinha-se assustado, um grão na engrenagem de uma relação inicia o seu desgaste, se não for contido rápida e eficazmente tudo ruiria. Ele tinha de agir rapidamente. Mas como? Elas eram o que mais se assemelhavam ao caos, a incerteza é uma religião para as mulheres, ele tinha de ser rápido.
Com estes pensamentos, essas dúvidas ele adormeceu não notando o olhar perscrutador dela, olhava-o fixamente tentando avaliar o que valeria aquele homem quando acabou por adormecer também, abraçada a ele, sentindo a segurança da sua presença.

Jonas olhava fixamente o tecto branco do quarto,numa pequena nódoa negra incomodava-o, era o caos naquela brancura total.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Jonas 3 - O pesadelo

- Não estarás a exagerar na dose? Pergunta a rapariga com um tom de voz preocupado. Ele assim arrisca-se a não acordar ou ficar com alguma lesão!
- Já reparaste na fita que este gajo faz sempre que acorda? Impossível tratar dele, sempre aos gritos, parece que o estão a matar! Exclama o enfermeiro com ar enfadado. Além disso não nos pagam para tratar de malucos mas sim de os manter calmos. Este a dormir não chateia ninguém!
- Achas que ele dorme? Olha para o movimento dos olhos! Olhas as tremuras. Se ele morre juro que te denuncio, não quero merdas a pesar-me na consciência!
- Também me saíste uma boa caguinchas! Vou cortar-lhe o soro, leva o resto amanhã quando cá não estiveres. Chata do caraças! Este merdas só me dá chatices!

Jonas flutuava num limbo, mansamente flutuava ao sabor das nuvens que o arrastavam numa brisa fresca. Jonas estava feliz, estava com a sua amada, queria-a muito. Olhou para o seu rosto bonito, pálido e beijou-lhe mansamente os lábios frios. Um ligeiro aroma adocicado emanava dos cabelos que estranhamente estavam a perder o brilho de seda, os cabelos estavam a ficar ásperos, mortiços. Jonas olhou para o corpo da sua amada e chorou longamente, sentia uma saudade avassaladora dos seus beijos, do seu hálito quente e ao mesmo tempo fresco com sabor a morangos, do calor do seu colo, do seu sussurrar ao seu ouvido, contando-lhe o seu amor, a sua paixão. As lágrimas de desespero corriam, torcia as mãos, uma dor pungente apertava-lhe o peito. Queria gritar e não conseguia articular um único som. Ele queria-a, necessitava dela, e ela ali perto e ao mesmo tempo tão longe.
O grito começou a nascer do fundo da sua alma, mansinho, aumentando de intensidade até se transformar num uivo de lobo acossado pelo medo da solidão, pelo terror da saudade, um grito que ressoava no seu cérebro, as veias dilatadas de esforço, o coração a saltar até que algo cedeu.
Inicialmente foi apenas uma tontura que depressa desapareceu, lentamente um mal estar geral invadiu Jonas, uma agonia, uma dor, uma pressão. Depressa percebeu que perdia rapidamente capacidades e sentidos, a luz turvava-se, os sons agravavam-se, o universo morria á sua volta, devagar. Jonas olhou para o rosto da sua amada, pálido com um tom doentio, sorriu-lhe e beijou desajeitadamente os seus lábios ressequidos e frios com um sabor a morte, Jonas soluçou, Jonas chorou e finalmente quebrou caindo desarticuladamente no chão como um boneco de trapos.

A máquina apitava estridentemente ressoando pelos corredores vazios. A rapariga de cabelos desalinhado por estar a dormitar na sala de descanso corria desajeitadamente até alcançar o botão que desligava o alarme correndo em seguida para acudir o doente.
- Calma! Gritava ela. Calma, que já passa! E começou a injectar um calmante no soro.
Jonas contorcia-se na cama alagado em suor, de olhos escancarados e quase desorbitados gritava num silêncio pungente, o grito não saía. Á medida que a droga começava a fazer efeito os movimentos acalmavam-se até pararem, Jonas dormia um sono sintético, uma negrura sem fim  sem consciência, o nada.
- Eu disse-te que devíamos ter dado a droga mais cedo! Exclama o homem da ombreira da porta olhando divertido para a rapariga que ainda arquejava com o esforço despendido.
Olhava para ela começando a notar com uma certa surpresa algo que não tinha visto antes. Uma aura de beleza que a envolvia, um aroma quente de mulher, u m olhar de quem necessita de um ombro. Ela era bonita, com aquela beleza discreta mas que encanta. O homem sentiu-se perdido, afogou-se no encanto e desistiu de lutar.
- Anda, eu ajudo-te com ele! Está todo molhado, vamos lava-lo e mudar-lhe a cama!
- Que te deu agora para estares tão prestável?
- Nada mas este merdoso acabou de me fazer ver umas certas coisa que me estavam a passar ao largo. Eu pura e simplesmente não as via. Este merdoso com os seus ataque fez-me ver!
- Não estou a entender nada dessa conversa! Exclama a rapariga olhando para ele com ar desconfiado. Isso cheira-me a esturro.
- Não ligues e vamos acabar a muda e depois pago-te um café.

Tomavam o café juntos na cafeteria,num café de saco já um bocado requeimado quando ela pergunta de chofre.
- Que raio ele te fez ver? 
- Tu!
- Ãhh?
- Sim tu! Se não fosse este alarme eu não te veria como te vi e nunca me teria apaixonado. Fiquei perdido.
- Tás a brincar comigo, só pode! Exclama a rapariga com total surpresa no tom de voz.
- Antes estivesse. Nunca me deu isto mas... Deixa andar! Amanhã ou logo veremos o que se passa ou se já passou! Exclama o homem enterrando o nariz no interior da chávena.
Ela ficou a olhar para ele, inicialmente com desconfiança mas á medida que o tempo passava a sua postura começou a amenizar. O gajo era parvo mas parecia que a parvoíce estava a desaparecer, até se mostrava simpático.
Os dias passavam e aqueles dois começaram a trabalhar juntos, a conversar mais, a trocar ideias, a aproximarem-se.


23 de Abril de 2015

domingo, 11 de maio de 2014

O despertar dos mágicos...

O titulo não é original mas que se lixe. A realidade é que o Jonas despertou. Ele que estva ali morto e enterrado devido a circunstancias externas despertou para a vida.
A vida de Jonas tinha sido destruida pelo Prozac, droga que o matou lentamente levando-o quase á inexistencia. 
Mas Jonas não estava morto, estava enterrado no fundo do meu inferno tendo sido despertado pelas drogas que tenho ingerido para mitigar umas simples dores simplesmente infernais.

O primeiro sintoma foi no navio, cheio de uma mistela auto-medicada comecei a ver cores pouco comuns nas minhas várias cogitações, as cores eram mais brilhantes, uns caleidoscpópios interessantes.

Já internado e com aquelas doses de drogas que aliviam um torturado depois de ter sido surrado uns doze dias a fio começo a sonhar, mas a sonhar de uma forma estranha, estava consciente e via as imagens, via as histórias. Interrompia-as e elas continuavam. E as histórias eram em loop e de um colorido muito brilhante. Joanas era o maestro desse rodopiar de imagens. A morte era o tema principal embora de um modo diferente daquele que tinha caracterizado Jonas, ela era agora uma névoa que pairava tudo destruindo. Impressionante o rodopiar de homens d chocolate que se dobravam sobre si e morriam ao ritmo de uma debulhadora, fila atrás de fila de homens de chocolate todos diferentes com mortes tão desiguais.
Fechava os olhos e cena mudava o tema mantinha-se mas o que tornava a coisa um bocado interessante era o facto de que quem morria não era pelo facto de alguém ter morrido anteriormente mas sim posteriormente, um desenrolar de história da vida daquela pessoa até ás suas eternidades remotas.
A causa da morte estava sempre muito presento no acto em si como numa imagem de um grupo de estudantes que se tinham lançado do alto de um prédio e quando se estatelaram cá embaixo apresentavam todos marcas de violação sexual. Essa sequência desaparecia e vinha outra semlhante. Abria os olhos e as imagens tinham cqntinuação, Jonas está vivo mas está diferente.

As drogas já estão a diminuir e a intensidade das imagens também. Foram suficientes para me mostrar que Jonas vive.

(As dores aumentam, tenho de me deitar)

(As dores voltaram, a noite voltou)

E a vida continua ....