quinta-feira, 23 de abril de 2015

Jonas 2 - O naufrágio

O sol era abrasador e o sabor a sal tudo inundava. Tossindo, engasgando-se Jonas levantou-se de um pulo, tossindo, caindo, desequilibrando-se. O bote era pequeno e instável, semi inundado de água vogava no meio do oceano de pequenas vagas sem vento e sem nuvens. O sol era abrasador e sede avassaladora.
Meio perdido, confuso Jonas olha em redor avaliando a situação, um leve sentimento de "dejá vu" inundava-lhe a alma. Estava perdido, tinha-se perdido apenas o sol lhe fazia companhia queimando-o, secando-o. A água era fresca, tentadora e fluía entre os seus dedos com voluptuosidade. Jonas lava a sua cara com essa frescura, molha-se, refresca-se deixando a água a escorrer ao longo da sua cara macilenta, olha o céu e umas gotas entram-lhe fresca pela boca adentro. A tentação é enorme, aquele sabor a sal, sabor a mar fazem com que as memórias lhe saltem para o espírito fazendo-o suspirar. Aquele sabor, aquele aroma, a frescura da vida foi demais para o seu espírito enfraquecido pela solidão, pela sede, pela fome.
Enlouquecido mergulhou a cara no âmago do oceano e bebeu o seu intimo, saciou-se, encheu-se, sentiu-se pleno. O mar continuou sereno embalando Jonas suavemente marulhando-lhe canções de embalar fazendo com que Jonas gemesse as dores de uma vida perdida nos recônditos do tempo. Jonas estava só, perdido no meio do oceano, vogando suavemente ao longo da vida.
A sede apertava, a garganta queimada da água salgada fazia-o tossir,mum vómito salgado assolava-lhe a boca e nada havia a fazer, apenas esperar pela noite para que a sua frescura trouxesse algum alívio.
Um encontrão na sua jangada, uma sacudidela violenta desperta Jonas dos seus sonhos e fantasias fazendo-o sentar-se e ver o que se passava. Á sua volta apenas uma gaivota perdida o olhava surpreendida pois não entendia como aquele bicho barbudo estaria ali a fazer, limitou-se a grasnar o seu desprezo e afastar-se. Jonas olhou o mar, perscrutou o mar tentando compreender o sucedido quando uma sombra negra passa lentamente ao longo do bote, raspando-se nela, empurrando, provocando. Uma sombra enorme logo seguida por outras de vários tamanhos rodeavam a embarcação, ameaçadoras, apenas esperando o inevitável, o festim, o sabor a carne, o sabor a sangue.
A sede, a fome, o sol torturavam Jonas lentamente levando-o á loucura. O torno da solidão começou a esmagar o seu peito num abraço mortal, uma solidão morna, lenta, insidiosa que o matava lentamente levando-o ao desespero.
Jonas desesperava entre mergulhar no meio do oceano de sabor a sal ou cair nas fauces dos tubarões que o rodeavam silenciosos, mortíferos. Jonas queria saltar, em toda a sua vida Jonas saltou, nunca teve mede de dar um passo, e cair no inferno da desilusão, da ilusão, da solidão. O horizonte estendia-se separando os azuis, todos profundos como a sua alma. O sol brilhava na sua cabeça exultando-o a novo salto, a novo passo em frente. O sabor tentador do sal, picante de vida aliciava-o.
Desesperado mergulhou num turbilhão de espuma fresca que o envolveu como só uma amante é capaz de fazer, envolveu-o num abraço fresco, quente, terno. De olhos fechados Jonas mergulhou, feliz quando o sabor a sal lhe inundou a boca, os pulmões. Sôfrego abriu os olhos, ansiava por ar, uma golfada era tudo o que necessitava, ar para mergulhar de novo, a paixão do salgado, da envolvência. Abriu os os olhos e ainda conseguiu ver uma fiada de terríveis dentes a fechar-se sobre a sua cabeça, olhando para as entranhas de um tubarão sentiu um choque e adormeceu.

Jonas acordou de sobressalto, onde estava, porque estava amarrado, gritou o seu desespero. Deitado numa cama branca, num quarto branco Jonas gemia, a sua paixão fugia, afastava-se e perdia-se no interior do seu espírito já tão macerado.
Mais calmo, sorriu, nunca mais esqueceria aquele beijo salgado, calmo adormeceu profundamente.
Na sala ao lado a rapariga de serviço suspirou, a linha do monitor estava calma outra vez, aquele não morreria hoje.

23 de Abril de 2015

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Nobita escreveu: