terça-feira, 31 de agosto de 2010

Alguém já matou?????

Uma presa tinha sido avistada, corro, coração ao saltos. Adrenalina invade o meu ser, arrebatando-me.
Chego ao pé de um gigante, árvore enorme no coração de África, árvore velha com a sabedoria dos tempos que no lato da sua majestade me olha, ser pequeno e insignificante que corre histericamente, arma aperrada, pronto a matar.
Num galho, lá em cima, um casal, seres peludos e vivos. Tinham cometido o crime capital. Estavam vivos.
Tremendo de ânsia, tremendo de javardice e animalidade aponto. O tempo tinha parado assim como o meu cérebro, a memória ficou. Disparo-
Uma, duas vezes, o mesmo estrondo, o mesmo coice. e o vazio entrou.
Dois corpos caiem das alturas, mortos, inertes.
Aproximo-me das minhas vítimas, das minhas vitórias.
Hoje uma das minhas maiores derrotas
Dois seres, cinzentos de pelo baço, vazios de vida, desinteressantes, ali mortos. Para nada.
Abandonei a cena levando comigo uma memória que me persegue, que me castiga, que me envergonha.
Dois seres mortos, cinzentos e baços, vazios de vida onde antes havia, apenas, alegria de viver.

Hoje eu estou...

morto sem saber
a morte atroz que me afoga
num soluço
num desespero
triste
Hoje eu estou
vivo
e não sei
não sinto.
Hoje eu estou
louco
pensamentos de revolta
negros
turbulentos.
Eu hoje estou
insano
estupidez que me assola
tesão de mulheres doidas
desejo de ardores mortos
loucura insana
sorrisos
cheiros
sabores
amores antigos
memorias velhas
sonho
morro
acordo
sorriso cansado
tristeza no ar
morreu
acabou
um sorriso, uma piada
amores novos, situações velhas
ardores mortos, sangue gasto
inerte e vermelho, coagulado
sorriso cansado da desilusão
estou morto ou a morrer.
Recuso fazer parte
desta vida, desta morte
quero morrer e viver uma morte.
copo ardente, álcool em brasa
cérebro morto, desejo moribundo
escrevo a miséria
de um vida que se acaba
em pus, purulenta,
brilho que se esmorece
estrela num noite de névoa
negra
lua que se enche
grávida de brilho, de vida
árida e cinzenta
de prata
que escorre na noite,
soluço um suspiro
e adormeço.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Hoje...

Hoje saiu o meu 1º livro
Hoje comemorei..
Hoje bebi...
Hoje dei um murro na parede...
Hoje dói-me a mão!!!!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O livro

No banco do jardim, leio
a chuva cai morrinha e estúpida
livro empapado, palavras molhadas
o romance de uma vida
apaga-se, esvaindo-se numa poça
esfrego os olhos e leio, sôfrego,
o fim do romance de cordel está próximo
os ombros caem-me, está frio, tenho frio
alma gelada e cinzenta, suspiro
A dor afastada, um silencio cobre o meu espírito
o livro cai-me das mãos numa poça de lama
cabeça entre as mãos, sentado no banco
choro a minha morte.

Levanto-me trôpego
o pequeno grupo encolhe-se á volta da cova
recentemente aberta, terra fresca e a cheirar a húmus
cheia de vida, receptiva e voraz
aproximo-me e olho para a urna aberta
madeira tosca de caixote
o meu corpo inerte jaz lívido
gotas de chuva escorrem cara abaixo
como lágrimas que nunca derramei
chove
e eu choro a minha morte

Sou uma estrela...

As estrelas a apagarem-se uma a uma
As trevas envolvendo a tarde que morria
Rodopio neste Universo moribundo
Estou só, de novo...
Sinto-me só
Um peso oprime o meu peito
falta-me o ar, aspiro sofregamente
os poucos segundos que me restam
rodopio lentamente
caio lentamente a noite a instalar-se com fúria
expludo em chamas espalhando fagulhas
novas estrelas que nascem
morrendo de vida efémera
espalhando minhas cinzas
neste céu apagado de vida

domingo, 2 de maio de 2010

O fantasma

Dormia placidamente com os meus fantasmas, sono irrequieto e cheio de dor, morte e angústia. Foi nos meus sonhos que aprendi que a angustia dói mais do que a própria morte, foi uma dor noites sem fim. Quando acordei com um som, barulho já conhecido de tantas noites, o meu filho dirigia-se para a minha cama para se deitar entre os pais, sentindo aquela segurança que só uma criança sente quando dorme no meio dos seus pais.
E esperei que o miúdo subisse á cama, foi em vão, ele não aparecia. Estremunhado levantei-me e olhei, no meio da escuridão iluminada pelo luar que entrava pela janela. Aos pés da cama estava um vulto de uma criança de cabeça baixa, dormindo de pé completamente imóvel. Ensonado cheguei-me ao fundo da cama e estendi-lhe a mão para o puxar…
E o mundo estoirou… a criança levanta a cabeça e não era o meu filho, era um vulto que cresceu desmesuradamente, a fácies sorrindo, um sorriso numa cara branca cinza, os olhos de um negro profundo e um esgar trocista enquanto crescia até ao canto superior da sala… o mundo estourou na minha cabeça e imediatamente ataquei o intruso que se esfumou á minha frente sempre sem deixar de sorrir um esgar de morte enquanto eu escoiceava o ar com murros inúteis.
Parado, de joelhos na cama arfava, coração quase a explodir, de punhos cerrados ainda gemia de terror e combate. Olhava em redor, procurava o meu inimigo, corri para o quarto dos meus filhos e ambos dormiam o sono de criança.
Deitei-me, estava tudo bem e …. passei o resto da noite a ver o sorriso trocista da morte, ainda hoje vejo esse sorriso que brinca comigo tal como uma criança travessa…

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Filosofia de uma hiena louca - textos 2

Um dia acordei e descobri. Tinha perdido a alegria. Ria-me de piadas mas logo a seguir, abria os olhos, e lá estava ela... a minha velha dor.
Ao longo dos anos essa velha companheira começou a minar-me o espírito levando-me muitas vezes ao desespero, essa dor que se imiscuiu na minha vida e que me leva á exaustão.
Hoje estou numa dessas fases, de desespero, de dor, de angústia. Hoje morro mais um pedaço, hoje desejo morrer mais um pouco. A dor que não me larga.
A vida entrou em ciclos, remoinhos autênticos que me prendem e me levam para as profundezas. Primo insistentemente a tecla escape e continuo nas mesmas páginas da teia da minha vida. Não consigo, não quero, não sei... essencialmente não consigo.
Não sei lutar, sei destruir e isso tem destruído muito da minha vida.
O ódio atroz que me assola, a vontade de esmagar crânios, de destruir a estupidez imensa que me rodeia perturba-me... não posso ser assim, tenho de me conter.
Olho á minha volta e não vejo nada, não vejo futuro. Vejo momentos que depressa caem numa modorra lenta e morna.
Olho para trás e vejo uma vida de angustias e lutas pírricas, vitórias e muitas derrotas mas continuo a ser eu e a minha velha companheira de vida, aquela que morrerá comigo, a puta da do que não me larga. E eu, louco, cedo aos seus encantos morrendo todos uns dias um pouco, cedendo até á nossa morte.
Uma caixa de Capoten, uma caixa de Unisedil, uma caixa de Clonix e ouvir "Who wants to live forever" resolvia a minha questão mas até nisso eu sou estúpido, sou teimoso. Puta de dor vais-me matar mas vou-te dar trabalho... e tudo por uma teimosia estúpida.
Nem a dormir tenho sossego... ah!ah!ah! se calhar até na morte não terei sossego, terei aquilo que a igreja chama de purgatório. Aliás o conceito de purgatório é muito pior do que o conceito inferno. No purgatório vive-se a falsa ilusão da redenção, da salvação e isso não virá nunca e nós pobres almas iludidas vamos atrás de uma cenoura celeste a eternidade toda até que alguém olhe por nós e nos salve.
Como pode nos salvar sem destruir aquilo que somos? Só á custa de muito Prozac celestial ou mudar-nos a programação. Isso tudo só nos leva a um fim, á nossa morte real pois deixamos de sermos nós, a nossa identidade acabou-se, morreu e isso é estúpido.
Passar uma vida de sofrimento, uma eternidade num purgatório para alguém nos obliterar pois funcionamos mal? É estúpido ou então não funcionamos mal, apenas não temos os mesmos padrões, não pertencemos a esta realidade, a esta dimensão.
Ainda não escrevi meia dúzia de parágrafos e já estou a discutir com o criador... não tenho cura mesmo. Afinal o purgatório começa na terra, nesta vida.
Vou voltar á minha realidade, á minha vontade de dar um tiro na cabeça, e ir vivendo o meu dia a dia com a minha dor pois ela não terá fim.
O que vale é que ás vezes aparecem umas boas piadas que me fazem rir... mas são tão efémeras.
Tenho os olhos a arder, dói-me o peito, estou triste... suspiro e vou viver mais um dia.