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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ouvindo música

Estou um bocado perdido esta noite, oiço música e sinto a loucura a invadir o meu espírito. É já um sentimento meu conhecido.
A música faz-me isto, enlouquece-me, induz-me uma euforia que me põe fora de mim.
Um autêntico deficiente a abanar-me, a ondular ao sabor da música, e se eu danço mal, uma lágrima tenta saltar envergonhadamente cá para fora. Que se lixe, que faça o que quiser que eu faço o mesmo.
Oiço música e fico eufórico subindo uma chama de dor pelo meu espírito acima, alma inquieta.
Memórias, cheiros, lembranças, olhares gulosos tudo se encadeia nesta cabeça de minhoca.
E perco-me na escuridão, sinto a dor, amo a dor, casei com a dor. Amo-a e irá até ao fim comigo.
Aperta-se-me o peito, o coração acelera, sinto frémitos, sinto desejo, sinto a loucura. Imaginação fértil, loucura lancinante olhar perdido, sonhos perdidos.
Parado no meio da rua brinco, olhar idiota, perdido no além, corro, atravesso a rua e a brincadeira esvai-se no meio da bruma. Ficou a memória de um sorriso, de uma doçura.
Na noite perdida sinto o desejo por alguém que lá longe olha e mira, sorri e afasta-se. Perdido no meio do nada fico a ouvir música que me enlouquece.
Fumo negro de incêndios provocados por olhares e ideias, estou louco, acham-me louco, sinto-me louco e estou feliz com a minha loucura. A dor sempre presente, a dor da realidade, do esquecimento, do bolor do tempo. Sentado oiço música louca e incendiária. Gasolina atirada para o meio do meu incêndio, teclo ao compasso da música, abano-me ateando ainda mais o fogo. Sorriso corado que me fizeste sonhar, presença que me fizeste fantasiar, loucura que me fazes viver.
Vida em duplicado, vidas de outros eus, vidas duplas e triplas, a verdade misturada com a fantasia, sobrevoa, flutua nas sombras das nunvens que povoam o meu espírito.
Estou tão louco, estou a ficar tão longe, tão afastado que choro a solidão, solidão essa, interior, asfixiante, louca, opressiva. Estou tão louco que só me apetece aninhar-me e dormir.
Referências, a vida é cheia de referências, um piriquito pipila e eu infiro uma vida, aos caracolinhos, cada inferição uma ramificação diferente.Tudo está referenciado, tudo me leva á saudade, á dor. A máquina não pára, recebe e classifica referências, numa biblioteca delas, numa vida delas, imensa, implacáveis. Tudo a apontar para tudo e esta pobre alma árida em círculos levada pelas referências da vida, a vida em si é uma referência. Saltou-me á memória dor, morte, irmão, dor morte neta morte mãe dor operação dor dor dor operaçào dor sorriso dor sorriso dor....e assim até ao fim dos dias. Esta cabecinha de minhoca está programada para seguir inflexivelmente as referências. E oiço música, a minha cabeça abana, pareço um autista, aliás sinto-me tão desligado que ás vezes devo ter ataques de autismo crónico.
Aqui fechado oiço música e a vida rola lá fora, sorrisos corados e presenças são uma constante na minha vida. Abano a cabeça e oiço música, uma lágrima já idosa assoma á janela da minha alma, grita por liberdade e salta, morrendo esmagada no chão, outras seguem-lhe as pisadas e ve-las é um triste espectaculo de lagrimas desfeitas a escorrer no abismo em que a minha cara se transformou. A liberdade levou as lágrimas indefesas á morte, morrendo felizes e loucas como só uma lágrima saborosa sabe morrer. E a música acontece e continua. O cansaço começa a invadir o dia como se da noite tratasse, nuvens de tempestade no horizonte se aproximam, negras, carregadas de chuva, cheias de água, cheias de vida. Sorriso que me encanta, olhar triste que me desarma, presença que me atormenta, chuva passageira, pingos de vida, olhos tristes, sorrisos cândidos, beijos quentes, sabor a sal, loucura de música que me destroi, corroi docemente o meu espírito fazendo-o deslizar, docemente, para o esquecimento.

2 de Abril de 2015

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

AS MULHERES QUE EU DESEJO

Um sorriso que me encantou
Um toque que me faz sonhar
O menino que eu sou
Que só quer namorar

Poeta da treta
De rima de pé quebrado
Apaixona-se, enamora-se
Esta, aquela, aqueloutra
Não são todas mas são aquelas
Que com o seu sorriso
Me encantam
Que com a sua candura
Me seduzem
Como um cão abandonado
Fico num canto
Ganindo o abandono
De quem nunca fui
De quem nunca pensou
Excepto na minha loucura
Imaginei tal paixão
Quero-as a todas
Amo-as e desejo-as
Como um dia escrevi
Amo as minhas paixões
Uma forma de amar a vida

E uivando mansamente
Olho o mar, olho o horizonte
Esperando, sonhando
Encontrar tal sereia
Que me acolherá no seu colo
E adormeça finalmente.


16 de Novembro de 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sorriso da morte...

Dormia placidamente com os meus fantasmas, sono irrequieto e cheio de dor, morte e angústia. Foi nos meus sonhos que aprendi que a angustia dói mais do que a própria morte, foi uma dor noites sem fim. Quando acordei com um som, barulho já conhecido de tantas noites, o meu filho dirigia-se para a minha cama para se deitar entre os pais, sentindo aquela segurança que só uma criança sente quando dorme no meio dos seus pais.
E esperei que o miúdo subisse á cama, foi em vão, ele não aparecia. Estremunhado levantei-me e olhei, no meio da escuridão iluminada pelo luar que entrava pela janela. Aos pés da cama estava um vulto de uma criança de cabeça baixa, dormindo de pé completamente imóvel. Ensonado cheguei-me ao fundo da cama e estendi-lhe a mão para o puxar…
E o mundo estoirou… a criança levanta a cabeça e não era o meu filho, era um vulto que cresceu desmesuradamente, a fácies sorrindo, um sorriso numa cara branca cinza, os olhos de um negro profundo e um esgar trocista enquanto crescia até ao canto superior da sala… o mundo estourou na minha cabeça e imediatamente ataquei o intruso que se esfumou á minha frente sempre sem deixar de sorrir um esgar de morte enquanto eu escoiceava o ar com murros inúteis.
Parado, de joelhos na cama arfava, coração quase a explodir, de punhos cerrados ainda gemia de terror e combate. Olhava em redor, procurava o meu inimigo, corri para o quarto dos meus filhos e ambos dormiam o sono de criança.
Deitei-me, estava tudo bem e …. passei o resto da noite a ver o sorriso trocista da morte, ainda hoje vejo esse sorriso que brinca comigo tal como uma criança travessa…