sexta-feira, 6 de maio de 2011

A Última Noite

- Mas que vais fazer?
- Nada por enquanto, nada! Retorquiu Jonas olhando fixamente para a sua companheira de chá.
Jonas caminhava lentamente ao sabor do vento pelas ruas escuras de uma cidade adormecida ou morta, ele ainda não tinha percebido, caminhava apenas sentindo a solidão a roçar-lhe a alma, fazendo-o sorrir, sorriso apagado mais parecendo um esgar. Foi num desses momentos que olhou para uma montra tentando ver os corpos femininos dos modelos expostos, tinha saudades de um corpo feminino, um que se lhe entregasse e não que cedesse apenas por troca de alguma coisa obscura. Olhando para a montra viu o rosto da morte, um esgar alvar, olhos esbugalhados numa tez acinzentada pelas sombras. Jonas suspirou, a sua nunca esquecida loucura esforçava-se por regressar, a sua loucura de ver caveiras em vez de caras de carne e osso, caveiras com alguma carne putrefacta agarrada. A percepção do seu estado fez com que o seu sorriso morresse como morria a sua alma, estava triste. As raparigas de gesso deixaram de ter importância, seriam amantes inertes também.
Jonas virou-se para continuar a sua caminhada e chocou com uma mulher, já não muito nova e com ar cansado que tentava ver nas mulheres de gesso a jovem que ela tinha sido.
- Desculpe-me, não tinha reparado que estava aqui!
- Se não fosse tão tarado para estar a mirar os manequins não me teria pisado os pés e sujado a porcaria dos meus sapatos!!! Retorquiu a mulher amargamente.
Jonas olhou para a mulher e viu amargura, cansaço e uma ponta de abandono. O seu instinto seria contra atacar violentamente mas já não valia a pena e apenas perguntou:
- Que posso fazer para reparar o meu erro de lhe ter sujado os sapatos?
- Limpá-los é o mínimo!! Limpe-os!
- Ok! Mas não se esqueça que sou tarado como me chamou por isso se me abaixar para lhe limpar os sapatos vou espreitar por baixo das suas saias…! Retorquiu Jonas começando a divertir-se com a situação
- Ohh!! Exclamou a mulher recuando com ar assustado.
- Deixe estar, não lhe vou fazer nada, tratou-me por tarado, agi como tal. O mínimo que posso fazer é convidá-la para um café ou chá quente ali naquele tasco em frente.
O tasco em questão era uma casa de balcão corrido com duas mesas apenas, vendia cafés, imperiais e uns salgados com ar de estarem farto de passar a semana no mesmo prato, o tasco tinha um aspecto limpo apesar da sua pobreza.
Ela, Paula, estava cansada, o choque com aquele estranho meio louco, a dor no pé pisado e sem ter nenhum destino fez com que aceitasse surpreendendo-se com isso, ela era por norma reservada.
Sentados numa mesa com as chávenas de chá quente na mão acabaram por olhar um para o outro e apresentarem-se.
- Que fazia você assim no meio da noite sozinha? Pergunta Jonas. Por mim está uma noite óptima para espantar os espíritos da alma, deixar o tempo correr e encontrar alguma forma de escape.
- Nada, estava cansada de estar em casa, só, apesar de ser casada, estou sempre só, vim andar e apanhar um pouco de ar.
- Mas o seu marido está em viagem?
- Não, está a ver o futebol por isso ocupa a televisão a 100% e acabei o meu livro ontem e esqueci-me de comprar outro, fiquei sem nada para fazer…. E… recuso-me a ir para a cozinha lavar a loiça, estou farta. Explodiu Paula com a voz tremente de fúria.
- Sim….percebo!!
- Percebe mesmo???
- Infelizmente percebo, infelizmente a vida fez-me sofrer uma série de vicissitudes que me deram a capacidade de entender. Por isso ando na rua á espera que ela venha.
- Ela? Pergunta Paula admirada e já arrependida de ter começado a falar, a conversa entrava em campo íntimos.
- Aahhh! Está á espera da sua mulher..!!
- Não! Essa já a perdi há muito tempo..!
- Morreu? Desculpe-me não sabia!
- Não, não morreu, apenas não cuidei dela e ela foi-se. Um daqueles manequins que eu olhava como um tarado fez-me lembrar a minha mulher.
Paula olhou para Jonas de uma forma estranha, não sabia se tinha pena ou se estava a ficar assustada, o tal Jonas parecia mesmo um sujeito meio desequilibrado.
- Ela simplesmente desinteressou-se e não conseguia estar comigo, apaixonou-se por outro e foi viver a sua vida, o seu novo amor, a sua paixão, foram as palavras dela. Comigo ficaram apenas as recordações do cheiro do seu cabelo e a maciez da sua pele. O resto foi-se, morreu…!
- Mas…! Tentou Paula retorquir.
- Tentei voltar a amar mas não consegui, tive outras mulheres mas nunca era a mesma coisa. Estava bloqueado.
- Então de que ela estava você á espera? Se não é muita indiscrição!
Jonas sorriu e pensou que as mulheres no fundo são sempre umas românticas curiosas, sorriu e suspirou, não sabia se deveria falar mais, não sabia se poderia ou conseguiria abrir-se e contar. Aparentemente esta desconhecida estava a ser um catalizador, estava a provocar-lhe uma tempestade emocional e a faze-lo falar e Jonas não queria pôr travão á sua eloquência.
- Posso mostrar-lhe uma coisa? É um objecto assustador e quero que tenha a certeza que não lhe vai fazer mal a si. Quero apenas mostrá-lo para você entender.
Paula chegou-se para trás, assustada, não esperava isso e tinha horror á violência mas era uma mulher curiosa e a noite estava a ser interessante em acontecimentos estranhos, decidiu arriscar.
- Mostre lá então! Que bomba trás aí consigo?
Jonas apenas lhe passou um envelope de papel grosso com um objecto lá dentro e disse-lhe:
- Abra e espreite! Disse Jonas com voz rouca, os dados estavam a rolar e ele começava a sentir a excitação a encher-lhe a alma. O sangue corria carregado de adrenalina.
Paula pegou no envelope e tomou-lhe o peso, era pesado o que a surpreendeu pelo tamanho que parecia ter, abriu e espreitou largando-o em cima da mesa com um pequeno grito.
- Você é doido???
- Não, ainda não mas para lá caminho. Isso que aí está é uma das respostas que tenho, é uma das formas de a chamar, aquela que eu espero ansiosamente.
- Mas quem é essa mulher que você necessita disto para a ter? é para a obrigar? O pânico a começar a invadi-la.
- Embora tenha a forma feminina não é nenhuma mulher, é até o oposto, as mulheres trazem vida, esta trás a morte, ela é a Morte! Murmura Jonas com lágrimas a escorrer. Eu quero-a, estou tão farto, tão farto de esperar que a quero. Quero abarca-la e ser embalado por ela. Esta é uma boa noite para isso. Era ela que eu via no espelho da loja dos manequins, ela sorria para mim.
Paula estava assustada, ouvia sem acreditar no que ouvia. O azar dela, na primeira vez que falava com um estranho tinha que lhe calhar um tarado.
- Não te vais matar aqui pois não?? Não quero mais chatices do que as que tenho.
- Não, não o vou fazer hoje….!! Já não o posso fazer hoje.
- Mas que vais fazer então?
- Nada por enquanto, nada! Retorquiu Jonas olhando fixamente para a sua companheira de chá. È apenas mais uma noite que passou. Vai para casa e das duas uma, ou aprendes a gostar de futebol ou mandas passear o teu marido. Ainda és nova e bonita para dar a volta á tua vida.
Jonas levantou-se, pagou e saiu para a noite. Andava no seu passo lento e macilento
Paula estava sentada sem pinga de sangue a pensar no que tinha ouvido, ainda não se tinha recuperado do choque quando ouviu um estampido vindo do exterior, e com o coração sobressaltado correu para o exterior. No outro lado da rua, abraçado a uma mulher de gesso estava Jonas caído. Um sorriso nos lábios e um buraco na cabeça. A pistola na sua mão cuspia os últimos pedaços de fumo.


Pembroke
6 de Maio de 2011

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Nobita escreveu: