segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Rio Azul

Uma explosão de vazio
uma percepção de vazio
oco escuro e negro
dor profunda aperta meu peito

não choro, não lamento
apenas a dor lenta que regressa
negra e voraz, abrindo suas fauces
engolindo a minha alma sem pressa

já não reajo, já nada sinto
além da dor crua e fria
que gela meus olhos
lágrimas que teiman em não cair

Não existem, secas como a vida
Áridas de sentimentos e paixão
deserto de areia negra do vulcão
em que se tornou o meu coração

e olho, morto e sem vida
morto e sem alma
rio-me da vida que se escoa
que passa por mim gargalhando
deixando-me exangue, de olhar louco

suspiro e tudo falha
turbilhão de pensamentos o tempo que se escoa
a morte chega num compasso de piano
baila á minha volta uma valsa azul
de um rio que secou
já não choro
apenas
espero

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Alguém já matou?????

Uma presa tinha sido avistada, corro, coração ao saltos. Adrenalina invade o meu ser, arrebatando-me.
Chego ao pé de um gigante, árvore enorme no coração de África, árvore velha com a sabedoria dos tempos que no lato da sua majestade me olha, ser pequeno e insignificante que corre histericamente, arma aperrada, pronto a matar.
Num galho, lá em cima, um casal, seres peludos e vivos. Tinham cometido o crime capital. Estavam vivos.
Tremendo de ânsia, tremendo de javardice e animalidade aponto. O tempo tinha parado assim como o meu cérebro, a memória ficou. Disparo-
Uma, duas vezes, o mesmo estrondo, o mesmo coice. e o vazio entrou.
Dois corpos caiem das alturas, mortos, inertes.
Aproximo-me das minhas vítimas, das minhas vitórias.
Hoje uma das minhas maiores derrotas
Dois seres, cinzentos de pelo baço, vazios de vida, desinteressantes, ali mortos. Para nada.
Abandonei a cena levando comigo uma memória que me persegue, que me castiga, que me envergonha.
Dois seres mortos, cinzentos e baços, vazios de vida onde antes havia, apenas, alegria de viver.

Hoje eu estou...

morto sem saber
a morte atroz que me afoga
num soluço
num desespero
triste
Hoje eu estou
vivo
e não sei
não sinto.
Hoje eu estou
louco
pensamentos de revolta
negros
turbulentos.
Eu hoje estou
insano
estupidez que me assola
tesão de mulheres doidas
desejo de ardores mortos
loucura insana
sorrisos
cheiros
sabores
amores antigos
memorias velhas
sonho
morro
acordo
sorriso cansado
tristeza no ar
morreu
acabou
um sorriso, uma piada
amores novos, situações velhas
ardores mortos, sangue gasto
inerte e vermelho, coagulado
sorriso cansado da desilusão
estou morto ou a morrer.
Recuso fazer parte
desta vida, desta morte
quero morrer e viver uma morte.
copo ardente, álcool em brasa
cérebro morto, desejo moribundo
escrevo a miséria
de um vida que se acaba
em pus, purulenta,
brilho que se esmorece
estrela num noite de névoa
negra
lua que se enche
grávida de brilho, de vida
árida e cinzenta
de prata
que escorre na noite,
soluço um suspiro
e adormeço.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Hoje...

Hoje saiu o meu 1º livro
Hoje comemorei..
Hoje bebi...
Hoje dei um murro na parede...
Hoje dói-me a mão!!!!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O livro

No banco do jardim, leio
a chuva cai morrinha e estúpida
livro empapado, palavras molhadas
o romance de uma vida
apaga-se, esvaindo-se numa poça
esfrego os olhos e leio, sôfrego,
o fim do romance de cordel está próximo
os ombros caem-me, está frio, tenho frio
alma gelada e cinzenta, suspiro
A dor afastada, um silencio cobre o meu espírito
o livro cai-me das mãos numa poça de lama
cabeça entre as mãos, sentado no banco
choro a minha morte.

Levanto-me trôpego
o pequeno grupo encolhe-se á volta da cova
recentemente aberta, terra fresca e a cheirar a húmus
cheia de vida, receptiva e voraz
aproximo-me e olho para a urna aberta
madeira tosca de caixote
o meu corpo inerte jaz lívido
gotas de chuva escorrem cara abaixo
como lágrimas que nunca derramei
chove
e eu choro a minha morte

Sou uma estrela...

As estrelas a apagarem-se uma a uma
As trevas envolvendo a tarde que morria
Rodopio neste Universo moribundo
Estou só, de novo...
Sinto-me só
Um peso oprime o meu peito
falta-me o ar, aspiro sofregamente
os poucos segundos que me restam
rodopio lentamente
caio lentamente a noite a instalar-se com fúria
expludo em chamas espalhando fagulhas
novas estrelas que nascem
morrendo de vida efémera
espalhando minhas cinzas
neste céu apagado de vida

domingo, 2 de maio de 2010

O fantasma

Dormia placidamente com os meus fantasmas, sono irrequieto e cheio de dor, morte e angústia. Foi nos meus sonhos que aprendi que a angustia dói mais do que a própria morte, foi uma dor noites sem fim. Quando acordei com um som, barulho já conhecido de tantas noites, o meu filho dirigia-se para a minha cama para se deitar entre os pais, sentindo aquela segurança que só uma criança sente quando dorme no meio dos seus pais.
E esperei que o miúdo subisse á cama, foi em vão, ele não aparecia. Estremunhado levantei-me e olhei, no meio da escuridão iluminada pelo luar que entrava pela janela. Aos pés da cama estava um vulto de uma criança de cabeça baixa, dormindo de pé completamente imóvel. Ensonado cheguei-me ao fundo da cama e estendi-lhe a mão para o puxar…
E o mundo estoirou… a criança levanta a cabeça e não era o meu filho, era um vulto que cresceu desmesuradamente, a fácies sorrindo, um sorriso numa cara branca cinza, os olhos de um negro profundo e um esgar trocista enquanto crescia até ao canto superior da sala… o mundo estourou na minha cabeça e imediatamente ataquei o intruso que se esfumou á minha frente sempre sem deixar de sorrir um esgar de morte enquanto eu escoiceava o ar com murros inúteis.
Parado, de joelhos na cama arfava, coração quase a explodir, de punhos cerrados ainda gemia de terror e combate. Olhava em redor, procurava o meu inimigo, corri para o quarto dos meus filhos e ambos dormiam o sono de criança.
Deitei-me, estava tudo bem e …. passei o resto da noite a ver o sorriso trocista da morte, ainda hoje vejo esse sorriso que brinca comigo tal como uma criança travessa…